Mente & corpo em Nietzsche e Winnicott

Nietzsche desconfiava enormemente da “pequena razão da alma”. Para ele, a “razão” ou “espírito” era apenas um instrumento do corpo. Cito:

“Instrumento de teu corpo é também tua pequena razão que chamas de ‘espírito’, meu irmão, um pequeno instrumento e brinquedo de tua grande razão” (NIEZTSCHE, 2011, p. 35).

Essa valorização do corpo como verdadeira causa do espírito aparece em diversos momentos. Discutindo “O problema de Sócrates”, por exemplo, Nietzsche argumenta que

“O fanatismo com que toda a reflexão grega se lança à racionalidade mostra uma situação de emergência (…) [diante da qual] é preciso imitar Sócrates e instaurar permanentemente, contra os desejos obscuros (…) a luz diurna da razão (…) [isso porque] toda concessão aos instintos, ao inconsciente, leva para baixo…(NIETZSCHE, 2006, pg 22. As colocações entre colchetes “[ ]” são minhas)

Um pouco mais adiante, a conclusão é cortante: ” Ter de combater os instintos – eis a formula da décadence: enquanto a vida ascende, felicidade é igual a instinto. – ” (idem)

Não pode haver dúvidas, creio, sobre a tônica da interpretação nietzscheana: a mente, o espírito, é apenas uma expressão do jogo dos instintos no corpo. O corpo causa o espírito. O espírito, de certa forma, é o corpo – sublimado, como talvez diríamos hoje.

***

Embora longe de ser um autor teórico – isto é, cuja ênfase estivesse na elaboração teórica – Winnicott compartilhava com Nietzsche uma série de pontos de vista ou mesmo certos pontos de partida que atuam, muitas vezes, como postulados não ditos. É o caso, parece-me, dessa valorização do corpo como causa.

Diversas colocações do autor poderiam me ajudar nesse ponto (como quando ele afirma que a psique se forma ‘a partir da elaboração imaginativa das experiências do corpo’). Mas prefiro trazer aqui o testemunho de Masud khan, espécie de discípulo e herdeiro de Winnicott, e que tendo convivido e trabalhado cerca de 40 anos com ele, ponderava, no prefácio aos textos selecionados do livro “Da pediatria à psicanálise”, que

“Winnicott ouvia com o corpo todo (…) não se pode começar a entender o seu talento como clínico, se não estivermos cientes de que, nele, psique e soma viviam em perpétuo diálogo e debate e suas teorias são abstrações do constante happening que era Winnicott” (Masud Khan, prefácio à WINNICOTT, 1978, pg 07)

Quero enfatizar a frase final de Khan: “suas teorias eram abstrações do constante “happening” (acontecendo) que era Winnicott”. Isto é, aquilo que acontecia ao nível do corpo era abstraído, traduzido, para a teoria. A teoria era a parte final, uma espécie de resto ou registro de uma experiência que primeiro era vivida no corpo.

Essas e outras coisas me fazem acreditar que também em Winnicott há uma valorização maior do corpo como lugar dos acontecimentos (ao menos na saúde). A mente ocupa um segundo plano, importante, decerto, mas longe de ser o principal.

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Referências:

NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

WINNICOTT, D. Textos Selecionados: Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1978

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