Comunismo x liberalismo: uma questão moral (02)

Dando continuidade a nossa série (aqui, a primeira parte, sobre comunismo), neste post quero falar um pouco sobre o liberalismo, entendido do ponto de vista psicológico.

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Assim como o comunismo, acredito que o liberalismo pode ser entendido como uma proposta de organização social que busca equacionar as aporias internas – ou contradições, como dizem os marxistas – de uma dada sociedade, apostando, para isso, na maximização da individualização.

O cerne da proposta liberal poderia ser entendido como: “dadas condições de liberdade ideais, os indivíduos tendem a solucionar os problemas que encontram, agindo, em conjunto, em prol da sociedade”.

O que, se bem observado, é uma espécie de tradução ‘filosófica’ do comportamento humano natural. Vale dizer, o liberalismo quase se confunde com uma crítica do Estado (enquanto instituição organizadora do social), e nesse sentido é muito próximo de um Laissez-faire generico, isto é, de um “deixe fazer”, “deixe cada um viver à seu modo”.

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É verdade que, em muitas situações, os indivíduos não precisam de ninguém “organizando-os” para resolver os seus problemas. Eles vão em busca de soluções justamente porque sofrem os tais problemas. É sua individualidade, em suma, que os faz buscar soluções. O que o liberalismo acrescenta à isso é apenas o “ismo”, isto é, a ideia de que isso pode funcionar como forma de organização social, para todos. E mais: que pode funcionar melhor do que a organização tradicional do “Estado”.

Creio que é nesse ponto que ele falha: ao generalizar uma experiência que funciona às vezes, para algumas pessoas. E mais: creio que a psicologia subentendida pela proposta liberal é um pouco falha, ao não valorizar a importância da identificação entre os indivíduos de um dado grupo – aspecto que reputo fundamental.

O que ocorre é que tanto o liberalismo quanto o socialismo nasceram como propostas justamente em épocas onde havia uma “liga” social suficiente entre os indivíduos (mesmo que essa ‘liga’ estivesse diminuíndo, mas isso é outra história). A grande questão, para mim, é que essa liga social não é assim tão forte no ser humano, e precisa ser alimentada, cuidada, tratada. Mas o que geralmente acontece no liberalismo é o contrário, na medida em que se supervaloriza o individual.

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O Brasil, infelizmente, é um exemplo claro do que digo. Apesar de toda a fama que temos, de povo sociável e ameno, várias leituras sugerem um Brasil onde, pelas próprias características da colonização – que aproximaríamos de um estupro, tanto de índios quanto de negros – não teríamos chegado a constituir um tecido social comum, isto é, um “nós”, uma referência geral, uma identidade brasileira efetiva, ao qual nos apegamos com gosto.

É mais ou menos assim que entendo a frase de Claude-Levi Strauss: “O Brasil vai passar da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”. Nós não nos constituímos como povo. Essa “liga social” a que eu me referia, não chegou nunca a se concretizar, por aqui. O resultado está estampado em nossa política, todos os dias: continuamos sendo um país “colônia”, mas dessa vez colonizado pelos próprios políticos, pela própria elite. (Um autor, entre muitos, que trata bem desse tema, é Roberto Gambini, sociólogo e analista junguiano. Aqui um de seus textos).

Mas o que acontece quando, nesse povo que não chegou a constituir o seu “nós”, o seu laço social, começa a se implementar um “mindset” liberal? Ora, a economia até progride, mas não na direção da solução dos problemas do grupo, como pretende a vulgata liberal. Não na direção da constituição dessa liga social. Pelo contrário: crescem e progridem os que podem, mas continua o fosso social, continuam os buracos no tecido social brasileiro, ainda por ser tecido.

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Essa é uma constatação difícil, para mim, na medida em que acreditei por muito tempo na solução liberal. Mas o que hoje me parece um fato, é que o liberallismo só funciona onde já existe um tecido social coeso, uma cultura comum, uma moralidade que direciona os progressos particulares para esse algo comum, pré-existente.

Onde não há esse “comum”, o liberalismo não irá funcionar – ao menos não no sentido da resolução dos problemas do grupo. Onde não há esse comum, o liberalismo tende a degringolar em um ‘cada um por si’.

Por outro lado, o que isso nos sugere (e penso que o Brasil é um caso claro disso) é que o problema da organização social precisa ser tratado como multifatorial – não é apenas um problema econômico ou político -, inserindo-se entre os fatores uma necessária dimensão psicológica, ou moral.

Essa dimensão moral é aquela vinculada à construção da liga social, da identificação entre os vários membros de um grupo.

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Essa identificação não é um assunto simples, com certeza. Mas, no meu entendimento, é uma parte fundamental de qualquer proposta de organização social, e precisa ser levada em conta quando se quer alterar o funcionamento de um grupo.

Mas o liberalismo, como pretendi mostrar, passa por cima dessa condição, tomando-a como algo natural, algo dado – e não é assim. Já o socialismo até concede um espaço importante para essa transformação moral, mas falha ao não conceder espaço para o gesto pessoal, a individualidade – que, no caso ideal, deve querer conribuir para o grupo, e não ser obrigado a isso.

Na terceira e última parte dessa série, vou abordar em mais detalhes o que entendo ser essa questão moral, e como isso poderia se relacionar com as propostas de organização social que temos disponíveis.

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