Crédito e crise

Depois dos posts recentes sobre Finanças e a história do dinheiro, me peguei pensando que os leitores desse blog talvez estranhem que um psicólogo se aventure em leituras das exatas, quando é sabido que todo mundo das humanas detesta os números…

Acontece que sou um pouco exceção nesse ponto, poque sempre me dei bem com matemática. Cheguei a pensar em cursar física ( ! ) na faculdade, pra dar uma ideia…

Seguindo, então, nessa linha dos ‘posts de exatas’, queria falar um pouco sobre o crédito financeiro e suas implicações.

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Como mencionado nos posts sobre Neil Ferguson, o crédito pode ser apontado como uma das revoluções que ajudou a transformar a economia na idade média. Mas o que é o crédito?

No meu entendimento, “crédito” é simplesmente uma antecipação do futuro. Pense comigo: imagine que você quer abrir uma padaria, com um lucro presumido de 10 mil por mês. Para iniciar o empreendimento, você precisa de 100 mil reais, mas não dispõe desse dinheiro. Vai então em busca de alguém que lhe dê crédito – isto é, que acredite que você poderá pagar de volta esses 100 mil que você acredita poder gerar no futuro, com sua padaria.

Como, em tese, a padaria poderá gerar 10 mil por mês, em apenas 10 meses seria possível pagar o adiantamento. Vamos supor então que alguém acredite no potencial dessa padaria, e resolva emprestar o valor inicial de 100 mil, cobrando para esse empréstimo um acréscimo de mais 10 mil.

Se tudo correr como esperado, ao final do primeiro ano de funcionamento da padaria, você terá o seu empreendimento funcionando e dando lucro, e a pessoa que lhe emprestou o dinheiro terá os seus 100 mil de volta, mais um “bônus” de 10 mil, pelo risco assumido.

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Perceba que o crédito pode ser um bom negócio para ambas as partes. De fato, ao emprestar os 100mil, o credor possibilitou que uma nova empresa surgisse hoje, cortando o caminho e ligando o futuro ao presente.

Agora, o que aconteceria se a padaria não funcionasse?

Aí teríamos a situação inversa: você, o dono do empreendimento, talvez não conseguisse pagar o empréstimo. Talvez a economia simplesmente tenha piorado, ou você planejou mal a localização, não percebeu a demanda real por ‘padarias’, ou foi vencido pela concorrência, etc.

A padaria, que deveria funcionar hoje, simplesmente não se mostra viável.

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Os dois futuros, obviamente, são possíveis. Ninguém poderia realmente prever como o empreendimento se sairia (apesar de os emprestadores terem cada vez mais buscado se precaver, ao longo da história). Quem imaginaria que o covid aconteceria como aconteceu, por exemplo?

Vemos então que o “crédito” realmente implica – a própria palavra o diz – numa crença, numa aposta, de que o futuro vai acontecer mais ou menos da forma que previmos ao emprestar (ou ao tomar crédito).

O preço que pagamos como juros, em geral, se relaciona justamente com o risco de as coisas não saírem como previsto.

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Tudo isso é muito óbvio, e ao alcance de qualquer um com um mínimo de conhecimento financeiro, mas o que nem sempre se percebe é essa dimensão psicológica do crédito, ou a importância que depositamos justamente nos fatores não objetivos da transação.

Me explico: “acreditar” que tal empreendimento dê tal retorno, ou que a economia vá funcionar amanhã como funciona hoje, é algo puramente subjetivo. O futuro não existe, objetivamente, agora, por mais que finque suas raízes no hoje.

Toda crença, então, se dá a partir de algo imaginado, algo que, estritamente falando, ainda não existe. Algo da ordem do sonho, como gosto de dizer por aqui.

A questão está em que, como muitas coisas do mundo humano, a economia acontece justamente na sobreposição de uma parte subjetiva com uma parte objetiva. E, na minha leitura, isso explica tanto o progresso econômico quanto as crises.

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Estou simplificando, claro, mas podemos pensar que esse “plus” que a subjetividade acrescenta à economia é, ao mesmo tempo, algo que permite uma expansão dos empreendimentos concretos, bem como algo ligado às crises, que são fundamentalmente momentos em que os agentes econômicos desistem de acreditar no crescimento possível (parte subjetiva / futura) e resolvem se proteger na economia real (parte objetiva / presente).

Isto é, a mesma crença que injeta dinheiro e cria ‘pontes’ do presente com o futuro, recolhe esse dinheiro e” derruba” as pontes, quando acredita não haver motivos para dar crédito ao crescimento econômico.

O crédito, no fim das contas, acelera o crescimento econômico, ao propiciar que empresas que não teriam condições de surgir, apareçam. O crédito antecipa um futuro econômico plausível. Mas, com isso, ele também aumenta o risco sistêmico da economia, caracterizado por um descompasso cada vez maior entre a parte subjetiva do crédito (a crença, a projeção) e a parte objetiva (o funcionamento real da economia).

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Para concluir, chamo a atenção sobre como esse mecanismo se parece, no fundo, com o funcionamento mental proposto por Winnicott (aqui, um post só sobre isso). Para esse autor, nos relacionamos sempre indiretamente com a realidade, isto é, sempre mediados por um sonho, uma fantasia, que nos ajuda a organizar o real de uma forma suportável pra nós.

Nós projetamos nossos sonhos na realidade, tentando, à medida que amadurecemos, ‘sonhar’ de maneira não tão díspar em relação ao real. Isto é, amadurecer, tornar-se adulto, equivaleria a inserir quantidades cada vez maior de realidade em nosso ‘sonho de real’ (expandindo também essa capacidade de suportar o real, claro).

No fundo, ‘damos crédito’ aos nossos próprios sonhos, e esperamos não descolar demais em relação ao ‘funcionamento real’ das coisas, exatamente como tentei mostrar em relação ao crédito na economia.

Uma resposta para “Crédito e crise

  1. na verdade economia é uma ciência de humanas! na verdade poderíamos entendê-la como um ramo da psicologia, se atentarmos à esta como a ciência do comportamento. transações financeiras são comportamentos, e como você bem diz, muito do que acontece na economia são projeções de expectativas ou desejos, componentes cognitivos ou volitivos…

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