Agressividade saudável

Hoje, resolvi mexer com pólvora! No meio de todas as tensões envolvendo a política brasileira nos últimos anos – em função do Covid-19 y otras cositas más – quero falar justamente da agressividade em seu aspecto positivo.

Parece que já estou vendo o leitor exclamando: “positivo? E a agressividade tem aspecto positivo, agora?”

Pois é, caro leitor; tem sim, e inclusive é isso que provavelmente está na raiz de seu comentário! Mas prossigamos.

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Tendemos a ver a agressividade apenas em seu aspecto negativo. Ou seja, ligado à destruição, à desconsideração pelo outro, à imposição daquilo que o agressor quer.

E realmente, esse é o aspecto mais saliente. Em psicanálise, o conceito tem uma longa história, e aparece com mais destaque nos escritos de Freud feitos após os acontecimentos sofridos da primeira guerra mundial ( como “Além do princípio do Prazer” e outros). Podemos imaginar porquê.

Como já tinha proposto em relação à outras pulsões, Freud entendeu que a agressividade seria efeito de uma demanda, uma exigência de trabalho psíquico, dirigida, por paradoxal que seja, à morte. Ou seja, Freud focou-se no impulso em si, e deu menos atenção à maneira pela qual esse impulso era integrado à vida do sujeito e ao ambiente.

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Creio que isso pode ser efeito da visão um tanto mecanicista de Freud. Ele tendia a separar, analisar, as partes de um problema, e a considerar cada parte mais ou menos como uma variável independente. Isso trouxe ganhos e perdas à psicanálise, e não é o meu ponto, aqui. Meu ponto é argumentar que, ao entender a agressividade como um problema mecanicista, Freud não percebeu ou não valorizou o aspecto relacional da agressividade.

E o que seria isso? Seria justamente a ligação da agressividade com a totalidade da vida subjetiva – algo que poderíamos chamar de sentido contextual ou existencialista da agressão.

Vale dizer: ao nos afastarmos da agressão como problema em si, e pensarmos nos contextos aonde ela se insere – a rigor, algo externo à pura pulsão – uma nova imagem da agressividade surge. E é essa imagem que pode ser “positiva”.

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Os leitores mais antigos do blog já devem imaginar que Winnicott tem algo a ver com essa agressividade “contextual” e positiva. De fato, Winnicott é o autor contextual por excelência, dentro da psicanálise. Este é o sentido maior do conceito de “ambiente”, aliás: nada do que acontece na vida subjetiva deve ser pensado mecanicamente, isto é, apartado de suas ligações com o ambiente. Tudo é contextual. Tudo é relacional.

E assim, também, a agressão. Winnicott propôs pensarmos a agressão, em suas raízes, como algo derivado da motilidade, ou seja, como a simples expressão de que o bebê está vivo, está cheio de energia, e mexe pernas e braços para expressar sua vivacidade. A agressão seria um derivado dessa vivacidade. Dito de outra forma: Winnicott propõe pensarmos no papel da agressão enquanto expressão da saúde do sujeito.

O fato é que, pensada em seu contexto, Winnicott percebe a agressão como ligada à uma demanda do “Eu”. Isto é, OU como expressão de sua vivacidade – como na criança – OU como expressão de um ‘protesto’, por assim dizer, como se o sujeito quisesse mais espaço, mais reconhecimento, mais acolhimento – numa palavra, como uma expressão da vontade de expandir seu mundo interno.

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O pano de fundo da leitura winnicottiana da agressão é a relação sempre tensa que mantemos entre nosso mundo interno e o mundo externo, a realidade. Como sabemos, eles teimam em não coincidir… Nossa vida mental quase se confunde com a tarefa de mediar as diferenças, as distâncias, entre esses dois mundos, fazendo com que não vivamos nem apenas no mundo interno – o que seria pura alucinação – nem apenas no mundo externo – o que seria pura submissão.

Vivemos – ao menos na saúde – numa mistura entre esses dois mundos. Mas quando, por qualquer motivo, o mundo interno é diminuído ou atacado, pode ser que surja um “protesto”, uma reação, que é justamente isso que chamamos de… agressão.

De forma esquemática, a agressão seria uma expressão da busca de uma relação onipotente do sujeito com a realidade – o que, como já vimos aqui, seria parte da saúde e da normalidade. Como tal, teria um sentido positivo. Mas então porque, em geral, entendemos a agressão como algo ruim?

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Em primeiro lugar, talvez, porque nós somos o “mundo externo” em relação ao “mundo interno” do agressor. Ou seja, ele nos agride como parte do mundo externo; o que nos leva a “resguardar” nosso mundo interno, agredindo ele… Assim, a agressão do outro é sempre ruim. A nossa, às vezes, poderia até ser justificada… (ironia, modo ON).

Mas o que certamente mais contribui para a visão negativa da agressividade não é tanto a agressividade em si, nesse seu aspecto de expansão do mundo interno, mas a forma com que o sujeito percebe o outro ao expressar sua agressão.

Aí, também, não seria a agressividade enquanto pura pulsão que estaria em foco, mas o seu “contorno”, o seu contexto: como percebemos a outra pessoa sob a qual ‘despejamos’ nossa agressividade? Esse seria o ponto.

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Para Winnicott, a maneira como percebemos o outro é algo separado da agressividade. Podemos perceber o outro “despreocupadamente” – como um bebê, por exemplo. Ou podemos perceber o outro com cuidado, com preocupação – o que seria o caso, na maturidade emocional.

A questão é que nem todos alcançam essa maturidade, na relação com o outro. E é isso que daria à agressividade o seu caráter destrutivo. (Há outras complicações e sentidos para essa questão da agressão, que deixarei para outros posts).

Concluindo, a agressividade pode ser pensada como uma forma positiva de expressar ou expandir o mundo interno – como quando, por exemplo, você expressa uma opinião, como no começo do post. Mas quando essa expressão se dá conjugada à uma relação imatura com o outro, pode se apresentar de forma desmedida. E aí assumir um caráter mais puramente destrutivo.

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