Memória e subjetividade

Há um ponto ligando o pensamento de H. Bergson, F. Nietzsche e S. Freud: todos eles entenderam que há uma relação fundamental entre memória e subjetividade.

E mais: que nessa relação, talvez a capacidade de suprimir as memórias seja mais fundamental do que a manutenção das mesmas.

Ou seja: esquecer é mais importante do que lembrar.

***

Isso nos parece grandemente contra-intuitivo. Tendemos a pensar que a “finalidade” do aparelho psíquico é o “Eu”, a consciência, em sua relação com a realidade; logo, para que memória, se não é para prover registros importantes (reais, verdadeiros) para esse “Eu”?

Esse tipo de entendimento até pode ter sua efetividade, mas o fato é que ele desconsidera grandemente outro aspecto da nossa subjetividade, tão ou mais fundamental que nossa relação com a realidade : a imaginação, a fantasia, o mundo inventado dos sentidos humanos.

***

Pare um instante, e olhe à sua volta: provavelmente quase tudo que você vê pode ser dividido em seu aspecto de realidade crua, objetiva, e em seu aspecto subjetivo. E, em geral, será o aspecto subjetivo o mais importante.

Pensemos, por exemplo, em um quadro: pode ser uma foto de família, registrando um momento importante. A foto, o quadro, são reais, objetivos. Mas a importância deles não é subjetiva?

Ou então, pense em seu celular ou computador: obviamente ele é uma peça de metal, tem sua materialidade. Mas que uso puramente objetivo faríamos de um celular ou computador? Pense num animal, como exemplo de um comportamento menos subjetivo: o que ele faria, diante de um celular?

***

Quis mostrar com esses exemplos que uma imensa parte de nossa vida transcorre para além do mundo puramente objetivo: completamos a objetividade de nosso mundo com uma série de comportamentos subjetivos, aprendidos, compartilhados, que simplesmente não se reduzem à ‘realidade’ pura.

Nesse contexto, talvez possamos dividir nossa memória em dois tipos, ou dois usos: um objetivo, e um subjetivo. E é nisso que os autores acima citados podem nos ajudar.

Porque, de maneiras diferentes, o que eles sustentavam é que para o funcionamento subjetivo da memória, parece ser essencial justamente poder esquecer os aspectos objetivos da memória.

Numa palavra, haveria uma relação entre a forma de nossa subjetividade e o tanto que passado em que ela se enraíza.

***

Freud é o mais claro nesse sentido. Ele constatava clinicamente que as doenças mentais podiam ter relação com as memórias. E, para dar sentido para essa constatação, precisou fazer todo um arranjo teórico que o aproximou dos dois filósofos acima.

Numa certa leitura, então, o que Freud veio a propôr é que o recalque de uma ideia ou memória seria uma maneira de preservá-la para a subjetividade.

Ou seja, o recalque, ao distorcer as lembranças e manejá-las de forma a procurar uma adequação entre elas e o conjunto das memórias, também construía uma maneira de integração subjetiva.

Vale dizer: as memórias deixavam de ser armazenadas só porque ocorreram, ou foram reais; elas passavam a se armazenar em função de uma história subjetiva. Passaram a responder às arestas dessa história, e até a se deformar, conformar, para “caber” nos meandros daquilo que cada um acredita.

***

Sabemos, hoje, que nossas memórias são uma mistura, o resultado de fatos realmente experimentados junto com a imaginação ou deformação desses fatos. Ás vezes, há mais deformação do que informação. Em todo caso, é claro que não poderia haver deformação, se o mecanismo da formação de memórias fosse muito rígido.

Isto é, no fundo, a aprendizagem poderia estar relacionada à essa capacidade de deformar as memórias – vale dizer, de esquecê-las, em algum sentido. E também a criatividade.

A própria subjetividade poderia ser entendida como parte desse processo de deformação – ou assunção – das memórias. Tanto o “Eu” se formaria a partir da integração de um certo grupo de registros mnêmicos, quanto ajudaria a selecionar esse grupo.

Com o que, vemos claramente como o “Eu” não seria a “finalidade” do processo subjetivo, mas sim um dos efeitos dessa construção que largamente o ultrapassa.

Essa é uma leitura possível de Freud: ele estaria tão interessado nos esquecimentos e nos atos falhos porque, no fundo, eles desenhavam os limites daquilo que o “Eu” do paciente conseguia integrar. Os esquecimentos repetidos podiam estar dando testemunho de lembranças importantes, que não estavam encontrando lugar na subjetividade. Mas isso já é assunto para outros posts….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s