“A ascensão do dinheiro, a história financeira do mundo”, de Niall Ferguson

Não sei se foi casual ou intencionado, mas o ambicioso livro de Niall Ferguson (2009) sobre as transformações financeiras que deram contorno ao nosso mundo atual bem poderia ser um livro sobre a hoje famosa crise de 2008, ou crise do subprime, nos Estados Unidos.

Mas o livro é mais do que isso. Contando a história do surgimento dos bancos, da bolsa de valores, das ações e das hipotecas, assim como a nem sempre lembrada história de suas falhas e crises, o livro acaba dando um panorama geral sobre o horizonte eminentemente humano que estrutura e fundamenta as economias.

E é sobre esse aspecto que quero falar aqui.

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O livro tem tudo que eu gosto num livro: tem histórias singulares, pessoais, dramatizando os fatos grandes históricos. Mas tem também muitos dados, muita pesquisa, muita história factual.

Assim, por exemplo, acompanhamos no primeiro capítulo como os judeus, que foram os primeiros banqueiros – por não serem cristãos, já que a Igreja proibia o empréstimo à juros – ajudaram a dar a imagem preconceituosa do “banqueiro” como alguém que só pensa em dinheiro, alguém moralmente inferior. Imagem que persiste até hoje, diga-se de passagem.

Mas acompanhamos também como a família dos Medici fez fortuna justamente com os mai-vistos empréstimos, e financiou a revolução cultural do Renascimento, do qual somos os herdeiros em tanta coisa.

Acompanhamos ainda como o fundador da “estirpe” Rothschild era, no fundo, um traficante, cujas redes de contato e influência acabaram sendo fundamentais para as guerras da Inglaterra contra Napoleão, e ajudaram a preparar o terreno para as futuras transformações das democracias europeias.

Por fim, mas não menos importante, ficamos sabendo do risco que sempre esteve associado a todo tipo de empréstimo, ao ler sobre bancos que foram à bancarrota, ao emprestar para governos e tiranos que simplesmente não puderam pagar o que pegaram.

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Há muitas outras histórias no livro, mas essa primeira imagem foi a que mais me impressionou: aquela relacionada ao crédito, ou ao ingovernável nas finanças. Isto é, ao fato de que ‘dinheiro não garante dinheiro’, ou, dito de outra forma, que a única maneira de garantir a permanência do patrimônio parece ser ainda a antiquada atitude da… parcimônia.

Essa é a imagem que o livro reforça, ao nos contar como mesmo o país mais rico do mundo – os EUA – entrou em crises financeiras gigantescas ao simplesmente deixar de relacionar o tanto de crédito concedido às garantias necessárias para saldar esses empréstimos.

É também o que se depreende de momentos históricos que beiram o tragicômico, como quando um apostador inveterado virou “conselheiro” da corte francesa, praticamente selando o destino da coroa, em 1789, ao erodir qualquer chance de recuperação das finanças daquele país.

Mesmo barões e famílias aristocráticas vieram à falir, ao perder a capacidade de gastar menos do que ganhavam.

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Ou seja, no fundo, o problema das economias parece ser em larga medida um problema moral – o problema de acreditar em retornos inacreditáveis.

Nesse contexto, as chamadas “crises estruturais do capitalismo” não seriam nem tanto estruturais, nem tanto ligadas ao capitalismo, mas antes simplesmente crises de “crédito”; crises resultantes do fato de que muitos incautos acreditaram demais nas promessas uns dos outros.

(E sabemos que ninguém acredita tanto quanto aquele que deseja acreditar. Vale dizer: a falta de prudência seria uma espécie de subproduto da ganância mal contida.)

De fato, lendo os mais de 700 anos de histórias – e falências! – que o livro congrega, é difícil não pensar que, no fundo, nada tem mais valor no mundo financeiro do que o pragmatismo, isto é, a capacidade de não se deixar levar por sonhos e promessas. Vale dizer: a capacidade de não se arriscar demais.

Aliás, é significativo que justamente a capacidade de tomar risco seja elogiada em nossa cultura; um aviso aos navegantes…

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