Comunismo x liberalismo: uma questão moral (01)

Reinaldo Azevedo dizia em algum lugar que “quem não foi comunista quando jovem, não tem coração”. Verdadeira ou não, a frase se aplica a mim, que por um bom tempo entendi a realidade a partir das chaves que o marxismo propunha – luta de classes, ideologia, materialismo.

Com o tempo, foi-se a juventude, e foi também essa visão de mundo, substituída por uma leitura muito mais liberal, onde a responsabilidade de cada um pelo seu destino, ao menos dentro de certos limites, ocupou o primeiro plano.

Por fim, uma espécie de amálgama entre essas duas grandes tendências começou a se formar em mim, e é sobre isso que gostaria de falar nesta série. Na primeira parte, falo sobre comunismo; na segunda, sobre liberalismo. E na terceira e última, sobre o que enxergo como o papel da moralidade no contexto dessas duas leituras econômicas.

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Em linhas gerais, tanto o comunismo quanto o liberalismo podem ser entendidos como propostas de transformação do homem, transformação esta destinada a resolver o problema da individualidade ou do egoísmo – isto é, o fato de cada ser humano tender a buscar o melhor para si, mesmo em detrimento dos demais.

Como é claro, o comunismo procura resolver esse problema intensificando o que seria “comum” entre os indivíduos, e anulando ou desvalorizando as diferenças, ao passo que o liberalismo tentaria maximizar as individualidades, pondo-as em relação, de forma que, idealmente, a busca da satisfação pessoal fosse, ao mesmo tempo, uma satisfação para o grupo.

Ambos esperam, portanto, uma espécie de identificação entre o individual e o coletivo, obtido por meios diferentes – mas sempre econômicos. Como pretendo mostrar na conclusão dessa série, assim fazendo, ambas as correntes esperam demais do ser humano.

Mas se o problema da individualidade é um problema moral – isto é, não responde simplesmente à uma super-estrutura econômica – não caberia abarcá-lo justamente aí, isto é, na moral, na cultura, na maturidade dos sujeitos?

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Uma das grandes inovações de Marx foi o que poderíamos chamar de ‘materialismo psicológico’, isto é, o entendimento de que as relações de produção determinam concretamente o comportamento do homem, inclusive à nível moral. Aqui e aqui, dois textos de comentadores, que vão nessa direção.

A ideia é cheia de consequências. De um lado, liga o comportamento individual à sua posição na sociedade, e às formas de produção dessa; de outro, liga o mundo interno do homem – sua psicologia, mas também sua moral – à essa mesma estrutura.

A consequência mais geral dessa ideia, no ponto que nos interessa, é que novas relações de produção produziriam um novo homem – uma nova moralidade, um novo mundo interno. Como isso se sustenta, aos olhos de um psicólogo?

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Mais ou menos. Há uma clara ligação entre as condições concretas de uma sociedade e as formas de subjetividade que se constituem ali. Mas a relação parece ser menos de determinação unívoca – em apenas uma direção -, do que de determinação recíproca.

Me explico: se por um lado, a realidade social concreta ajuda a determinar o funcionamento subjetivo das pessoas, por outro lado esse funcionamento subjetivo também ajuda a determinar a estrutura social. Trata-se de uma co-determinação, portanto. O funcionamento desses dois âmbitos seria interligado, sem dúvida, mas não idêntico. Mundo interno e mundo externo teriam muitos aspectos de sobreposição, mas também espaços de diferença. Não seriam sinônimos, numa palavra.

Pense, por exemplo, na escravidão das Américas: ali havia uma clara estrutura social totalitária, forçando a subjetividade dos escravos a se constituir passiva também subjetivamente. Mundo externo e mundo interno pareciam coincidir, mas o fato de ter havido sempre resistência mostra que algo, na subjetividade, não se explicava apenas e totalmente pelo mundo externo.

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O exemplo extremo da escravidão faz pensar que algo na subjetividade não se explica puramente pelas condições sociais. Se incluirmos nessa conta o exemplo dos animais, que claramente exibem o que poderia ser chamado de “individualismo” – a despeito das condições “sociais” em que vivem -, ficaremos tentados a pensar que há algo de natural na valorização que cada indivíduo dá à sua individualidade.

Certamente, Marx e outros entendiam que é justamente dessa suposta ‘natureza’ que o comunismo poderia nos libertar, criando a primeira verdadeira sociedade humana, isto é, uma sociedade não determinada pelas limitadas ordenações animais a que nos sentimos sujeitos.

A nossa psicologia, entretanto – mesmo que entendida como ideológica pelos marxistas, isto é, contaminada por determinações de classe – parece apontar consistentemente para a importância dessa individualidade, inclusive em termos de saúde mental. Algum espaço para o propriamente pessoal parece ser necessário, mesmo que nada no social corresponda ou permita esse tipo de experiência (lembremos novamente da escravidão).

Para quem lê Winnicott, essa valorização do espaço pessoal é não menos do que intrínseca à experiência de “ser”.

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Concluindo o que só pode ser um sobrevoo muito superficial, o comunismo parece depender de uma transformação subjetiva difícil, qual seja, a da intensificação da identificação entre os indivíduos de um mesmo grupo, de tal forma que cada um valorize a tal ponto o “comum”, que sua própria individualidade se apague, em contraste.

Como vimos, essa transformação não dependeria, exclusivamente, de mudanças nas estruturas econômicas. Poderia a educação formatar as subjetividades na direção dessa identificação comum? O exemplo da União Soviética, bem como o da escravidão, parecem dizer que não.

O comunismo restaria, então, como uma proposta de organização social em contraste com um aspecto essencial da psique humana, que chamaremos aqui de individualismo. Ele apostaria – corretamente – na força da identificação como algo capaz de unir os pares de um grupo, mas subestimaria a importância das experiências de individuação para a economia mental do ser humano.

Como veremos, o liberalismo pode ser entendido quase da mesma forma, trocando-se apenas os personagens.

(continua)

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