Política e narrativas 2 – o dinheiro

Continuando um post anterior sobre o poder das narrativas, quero comentar sobre como a visão da igreja parece ter moldado o desenvolvimento econômico – ou a falta dele – por longos séculos, durante a Idade Média.

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De fato, segundo Niall Ferguson, autor de “A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo”, emprestar dinheiro a juros não era considerado ‘cristão’ o suficiente, durante séculos. Em consequência, uma parte fundamental da economia ficava travada, suspensa. Aqueles poucos que se dedicavam a esse tipo de empréstimo eram, em geral, mau-vistos.

Daí porque os únicos que se dedicavam a emprestar dinheiro eram os Judeus: por serem não-cristãos, eles estavam à salvo desses impedimentos. O que não impediu que eles fossem muito mal vistos pelos cristãos, já que, além de serem judeus, ainda emprestavam à juros!

Aí começamos a entender porque, até hoje, existe uma visão negativa do empreendedor, como aquele sujeito mesquinho, que só se interessa por dinheiro. Essa visão – estereotipada – começou a se consolidar ainda no séc XIV, quando os judeus começaram a ser admitidos na Europa, e, como não-cristãos, começaram também a se dedicar aos empréstimos.

Isso literalmente mudou o mundo. Muitos falam da grandeza do renascimento, por exemplo, mas poucos se dão conta de que essa grandeza foi financiada por grandes grupos de banqueiros – os Médici sendo, talvez, os mais famosos.

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Mas, antes do estabelecimento dos Médici, essa imagem do credor como alguém baixo e vil se consolidou, como uma forma de preconceito contra o Judeu, o primeiro banqueiro.

Ainda hoje essa imagem é utilizada no Brasil. Banqueiros, empresários, e mesmo os ricos em geral, são mal vistos pela população. Essa associação entre “dinheiro” e algo “ruim” é apenas uma narrativa, mas quem sabe quantos problemas concretos não se enraízam aí?

A Igreja cristã impediu o desenvolvimento da economia por séculos, ao proscrever os juros. Quanta ignorância financeira, quantas dívidas, quantos negócios mal conduzidos não decorrem da nossa evitação do dinheiro? Isto é, das nossas narrativas, ainda vigentes, que associam o dinheiro com algo ruim?

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Queiramos ou não, ‘abençoemos’ isso ou não, o modo como o mundo funciona depende, em parte, do modo como o dinheiro funciona. Proscrever o empréstimo a juros apenas fez com que, ao longo dos anos, muitos judeus se tornassem homens ricos. Porque o empréstimo era necessário, e retirá-lo de cena ‘à força’ apenas fez com que ele se tornasse mais lucrativo.

Ao longo da história, a riqueza assim gerada serviu, entre outras coisas, para financiar a expansão européia sobre o novo mundo; esteve na base da explosão artística do renascimento e também, indiretamente, contribuiu para a mudança dos regimes de poder, ao alimentar uma burguesia nascente em detrimento dos reis e aristocratas do regime antigo.

Ou seja, a riqueza assim gerada estaria ligada ao descobrimento das Américas, ao advento da nossa ciência moderna (no renascimento) e à passagem da monarquia para a democracia. Três enormes transformações que praticamente constituem nosso mundo atual.

3 Respostas para “Política e narrativas 2 – o dinheiro

  1. Hoje mesmo pensei em como abandonamos a religião (sic), mas a religião não nos abandonou… E por mais que se tenha ‘matado deus’, não matamos a adoração que tínhamos por ele, que, sem alvo digno, acaba por se enroscar com o alvo fácil, isto é, o disponível. Os ismos econômicos – e seus fanáticos representantes, ou mesmo aquele um e outro político, que tão mal podem ser considerados autênticos representantes de certo viés político – no entanto sempre estão aí, exaltados como salvadores…

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    • Perfeito! É isso mesmo. Entendo que há uma NECESSIDADE subjetiva ligada à religião, que não é um problema de “Deus”, mas dos HOMENS: justamente a necessidade de uma certa garantia de sentido na existência. A religião sempre foi essa “baliza”, esse limite final, onde nossa busca de sentido estancava. Hoje perdemos isso. Ganhamos, por um lado, liberdade, mas perdemos segurança. E creio que é nítido como “liberdade” NÃO É PRA TODOS – liberdade tem um custo afetivo que nem todo mundo pode pagar, isto é, aproveitar –

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  2. sim…. pensar, por clareza também em talvez diferenciar a religião (o instituto, um dos alvo disponíveis – como o cristianismo, o hinduísmo, o capitalismo, o comunismo) da religiosidade (as atitudes e necessidades de estima, adoração e sentido) que podem se conectar para além da ideia de um deus, de uma igreja mas a um conjunto básico de crenças, valores e comportamentos. a nossa religiosidade seria portanto a nossa disposição em adotar sistemas conceituais-cognitivos-afetivos-comportamentais.

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