Políticas & narrativas

Hoje em dia tornou-se comum o uso do termo ‘narrativas’ em política, geralmente com intensão crítica. Quando se diz que “fulano procura estabelecer uma narrativa”, quase sempre quer-se dizer que fulano está mentindo sobre o que ocorreu. Ou seja, a narrativa seria, no mínimo, uma torção, uma distorção, do fato.

É um uso legítimo, e não tenho nada a objetar. Há, entretanto, um outro uso para o termo, e é sobre este uso que gostaria de falar aqui.

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Me refiro à “narrativas” enquanto uma construção de ideias que permite o estabelecimento de crenças compartilhadas. Harari, em seu legitimamente elogiado “Sapiens: uma breve história da humanidade”, apresenta a hipótese de que a capacidade de ter crenças compartilhadas seria o que nos diferenciaria, no fundo, dos outros animais.

Em seu argumento ele discute a noção de que os grupos ‘naturais’ de seres humanos dificilmente ultrapassam os 150 indivíduos. Esse teria sido, aproximadamente, o tamanho dos agrupamentos humanos, até que algo aconteceu.

Não temos bem certeza sobre o que foi esse ‘algo’, mas a hipótese do historiador relaciona justamente a ampliação dos grupos humanos à capacidade aumentada de acreditar em histórias. Narrativas, ideias, no fundo, teriam nos auxiliado a estabelecer e manter grupo cada vez maiores.

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A ideia não envolve necessariamente crenças verdadeiras: um grupo pode ter começado a acreditar, por exemplo, no Deus do trovão, ou que se eles não fizerem tal ritual, o sol não nascerá no outro dia. O importante, no caso, é o fato de a crença ser compartilhada.

A partir do momento em que todos os integrantes de um certo grupo acreditam nas mesmas crenças, isso altera o grupo em vários níveis. Não só o grupo pode ser imensamente maior – pense no número de cristãos que temos, hoje; ou de muçulmanos, se você for um cristão – como algo dificilmente alcançável por outros meios acontece: as ações do grupo se tornam coordenadas.

Provavelmente foi assim que imensas quantidades de trabalho foram realizadas, desde a pré-história: porque um grupo cada vez maior de pessoas acreditava na necessidade daquilo.

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Pense em Stonehenge: Porque um grupo de humanos com ferramentas precárias e provavelmente pouco mais do que a força dos braços iria levantar blocos de pedra daquele tamanho, sem acreditar na necessidade imperiosa daquilo?

Ou então na imensa quantidade de trabalho que ainda hoje enormes grupos humanos dispensam, como na agricultura, na coleta de lixo, na construção civil…

Certamente, a tecnologia nos ajudou um monte, e uma série de trabalhos desgastantes não são mais necessários. Mas isso só acontece hoje. Isso não explica os agrupamentos e o trabalho gigantes que tivemos ao longo de todo nosso período anterior.

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Aceitemos por um instante a hipótese de Harari, e olhemos ao nosso redor: quantas coisas não enquadraríamos no conceito de ‘narrativas’? Existe, por exemplo, um governo brasileiro? Ou isso é apenas uma narrativa, uma ideia que compartilhamos, um anseio talvez, mas não, concretamente, um fato?

Olhemos para nossa medicina: ao lado de incontestáveis avanços e conquistas, não existe uma porção tão ou mais extensa de pura narrativa – promessas, erros, enganos, talvez mesmo erros deliberados, vendidos como acertos?

Olhemos, finalmente, para nosso futuro: podemos, racionalmente, acreditar que temos um futuro, ou isso é pura narrativa, desejo, novamente, esperança… mas não fato?

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Assim observado à distância, bem pode parecer que muito do que compõe o nosso ‘mundo político’ – ou humano! – é, pura e simplesmente, narrativa. Algumas melhor apoiadas em fatos aparentemente reais; outras, com uma relação bem mais que ‘frouxa’ com a realidade.

Pense em ‘Justiça’, ‘Felicidade’, ‘igualdade’, ‘progresso’, ‘educação’, ‘representação’ (em termos políticos)… quem, sendo brasileiro, traçaria os limites entre fato e ficção em tais áreas?

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