As raízes psicológicas da intolerância

Em um post anterior (link) argumentei que as novas formas de comunicação advindas da internet favoreceram comportamentos de intolerância frente à diferença, ao outro. Neste post quero escrever sobre o que poderiam ser as raízes psicológicas da intolerância.

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Comecemos pelas definições: entendo tolerância como a capacidade de sustentar empatia por alguém muito diferente de mim. Alguém que, baseado em meus valores pessoais, não teria muito a ver comigo. Intolerância, nesse contexto, seria a incapacidade de sustentar essa empatia.

Em psicanálise, coisas como ‘tolerância’ ou ‘empatia’ não são dados naturais, características ‘genéticas’ nem nada dado pronto, de saída. Todas as características do sujeito, mesmo as genéticas, precisam ser integradas ao seu modo de ser. Isto é, precisam ser reconhecidas como algo próprio, algo ligado ao sujeito, algo que “lhe” pertence.

E não, isso não é natural. Isso é uma construção.

Como se dá essa construção? Em Winnicott, através do amadurecimento emocional, um processo que se inicia ainda antes do nascimento e vai se consolidado nas experiências infantis.

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É claro que o sujeito continua amadurecendo pelo resto da vida, mas, em geral, têm-se que a primeira infância é uma fase fundamental, onde muita coisa se consolida. Mais tarde, é muito mais difícil mudar.

É na primeira infância que as experiências do bebê vão sendo agrupadas e ligadas a algo que ainda não tem uma forma muito definida, que chamaremos mais tarde de “Eu” ou “Self”.

Muitas experiências ligadas, integradas, formarão uma espécie de núcleo, que permitirá, por exclusão, definir aquilo que não pertence ao “Eu”: o não-Eu, o fora, a realidade ou o “outro”.

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O que acontece enquanto as experiências do pequeno sujeito ainda não tem um “Eu” pronto para se ligar? Elas se ligarão de forma confusa tanto aos outros quanto ao que nós, olhando de fora, chamaríamos de “Eu”. Ou seja, no início do desenvolvimento emocional, o sujeito poderá relacionar experiências “suas” com a percepção de outra pessoa – a mãe, por exemplo – e chamar a esse encontro de ‘experiência + sujeito’ de “Eu”.

Ou seja, há uma ‘pessoalização’ da experiência, mas nem sempre essa pessoalização separa corretamente o “Eu” do “Outro”. Conforme esses núcleos vão se diferenciando, será trabalho do amadurecimento posterior redistribuir essas experiências para cada um dos núcleos. Mas essa é uma experiência nem sempre fácil.

Na verdade, além de difícil, essa é uma tarefa inconclusa, que continuará pela vida afora. Grosso modo, o que acontece no término de uma paixão, por exemplo, é o reconhecimento forçado de que o ‘outro’, ao qual nos apegávamos, não pertence de fato ao “Eu”.

“Apaixonar-se” quase se define por esse processo de confundir ou diluir o “Eu” no “outro”. O encerramento brusco de uma paixão, assim como o luto, tem a ver com o processo difícil que é “reconstruir” as experiências ligadas ao outro como sendo, de fato, “não-Eu”. Até então, vivíamos como se essas experiências fossem, de alguma forma, também nossas.

Dito de outra forma, até então, nos identificávamos com o outro.

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Voltando à tolerância, ela pode ser entendida como um processo análogo à paixão, só que muito menos intenso. A ‘empatia’ que sentimos pelo outro, no fundo, é uma espécie de identificação. Entendemos – ou melhor, sentimos – que há algo em comum entre nós. Isso nos permite ‘gostar’ da pessoa – tolerá-la – , mesmo que ela não nos pareça interessante em muitos outros aspectos.

A condição psicológica para que a tolerância seja possível, então, seria a diferenciação bem estabelecida entre o “Eu” e o “outro”, assim como a possibilidade de diluir essa diferenciação, ao menos em parte, através da identificação.

Já a intolerância expressaria uma dificuldade em algum desses dos processos.

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Cuidemos para não ‘patologizar’ demais as coisas. O ser humano não é um anjinho, e a tolerância é uma conquista da civilização, algo que depende de uma série de fatores conjunturais para acontecer ou mesmo para ser benéfico.

Em uma situação de guerra ou combate, por exemplo, ter tolerância demais pode ser prejudicial. A intolerância ‘crônica’, por sua vez, pode se mostrar justificável, a depender do contexto social.

Não existe regra ‘a priori’. Somos uma máquina feita para operar com esses dois sistemas. Nenhum dos dois é melhor “em si”. Cabe à cultura – ao ambiente – prover estímulos apropriados para efetivar e modular o uso desses sistemas.

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Concluindo, caberia perguntar como nossa cultura está estimulando – ou desestimulando – a tolerância.

Diversos fatores concorrem nesse ponto. Um deles é o que chamo de idealização do ‘super-homem’ (ou ‘super-mulher’), ou seja, a promessa difundida em nossa cultura de que o indivíduo pode – e deve! – resolver tudo. Essa perspectiva é um dos alicerces da visão capitalista das coisas, mas ao mesmo tempo promove um esvaziamento dos espaços de convivência familiares, que são espaços de relaxamento, de distensionamento – ou seja, onde não há nada a “resolver”.

Por incrível que pareça, estamos perdendo nossa capacidade de simplesmente aproveitar os momentos, relaxar, de tanto estarmos condicionados a “resolver” as coisas. O mundo emocional não progride à distância, e por saltos. É preciso presença, participação, convivência, tempo. É preciso gostar de estar com os filhos, para que eles se sintam efetivamente amados. A culpa por estar distante não é percebida, pela criança, como amor.

Nesse contexto, a inclusão da mulher no mercado de trabalho pode ser entendida como um fator que contribui para o esvaziamento do convívio familiar. A solução, parece-me, seria valorizar mais a convivência familiar, especialmente nos primeiros anos, seja através da ampliação da licença maternidade, seja através da conscientização de que a vida emocional da criança envolve tudo o que é feito em torno dela, inclusive em termos de ausências.

Não há uma solução simples. Pensar que as crianças vão se desenvolver sozinhas, ou que as mulheres deveriam abdicar de sua independência financeira, apenas nega o problema. Os primeiros anos do desenvolvimento são, hoje, reconhecidos como fundamentais para a construção da saúde integral do indivíduo, mas isso não tem se refletido em práticas concretas, a nível de políticas públicas e da cultura geral.

Um debate interessante tem se dado a partir da proposta da “terceirização da criança”, iniciado pelo Dr José Martins Filho, e que tem o mérito de não ser psicanalítico, o que parece despertar mais simpatia – apesar de estar totalmente de acordo com a psicanálise (Fazer o que? As pessoas respeitam mais a medicina… então, que bom que ela nos alcançou!). Aqui, aqui e aqui, um pouco dessa discussão.

(Aliás, o primeiro vídeo é tão bom que resolvi deixá-lo explícito, abaixo)

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