Deus sive natura

Nietzsche bem poderia ser entendido como o pensador que buscou refundar toda a tradição de pensamento ocidental. Mais ou menos como Descartes, ele se propôs abandonar tudo que era aceito até então; ele também utilizou todo esse “aceito” como um sintoma, um indicador, um movimento para esconder coisas que, justamente ele gostaria de revelar – a favor da verdade.

Isso faz com que exista um movimento de báscula incessante em Nietzsche, um ir e vir, da verdade enquanto algo a ser criticado para a verdade enquanto algo a ser buscado. Uma depuração da verdade, poderíamos dizer. Uma verdade mais alta, exumada do subjetivismo ingênuo que o filósofo via em grande parte da tradição.

Isso acontece também em relação à religião.

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Assim, Nietzsche critica os pensadores da tradição que, buscando um Deus no “mais alto”, ‘coincidentemente’ o encontram aparentado ao pensamento, isto é, a algo que justamente eles, esses pensadores, supostamente dominam! Também ‘coincidentemente’, toda essa tradição desvalorizou o corpo, a natureza, e tudo que nos ligava a ela – o sexo, a mulher, a fome, o prazer…

No entanto, há alguma lógica nesse padrão, entenderá Nietzsche: Deus, o divino, deve estar ligado a algo maior, a alguma força, certeza, poder, que os homens do pensamento só podem atribuir ao… pensamento. Ou seja… a si próprios! Ou seja, no fundo, quando buscamos uma imagem para representar o divino, glorificamos aquilo que nos parece melhor em nós mesmos. Não é necessariamente que Deus tenha nos criado a sua imagem… mais parece que nós é que O criamos à nossa imagem.

Se deixarmos de lado esse tipo de resposta sobre a questão do divino, sobra, no entanto, a questão.

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E a resposta nietzschiana para a questão do divino se parece muito, creio eu, com aquilo que Espinosa propunha, com a ideia de “Deus sive natura”. Ou seja, não haveria de um lado, “Deus”, e de outro, “natureza”. Deus é a natureza; a natureza é Deus. Ou ainda, a divindade estaria em tudo o que acontece. Deus é a realidade, se quisermos.

Com isso, toda nossa tradição é posta de cabeça pra baixo: pois o ‘mais alto’, aquilo que “nos governa”, é igual ao “mais baixo”, isto é, àquilo que, nessa mesma tradição, é rejeitado. O corpo, a natureza e seus processos, a vida e tudo que a mantém ou fortalece, passam a fazer parte do ‘divino’, na concepção de Nietzsche. E ideias sobre uma ‘outra’ vida até podem ser incluídas aí, como narrativas que nos ajudam nessa vida. Mas a vida que interessa é essa aqui. A que compartilhamos, agora. “Por vontade de Deus” (isto é, da natureza, da realidade).

O impressionante é que, assim pensada, a religião pode se aliar a toda uma série de pensamentos proscritos ou difíceis de conciliar com um Deus “ex machina”, como a seleção natural (= uma forma de ‘Deus’ manter, diferenciar e fazer a vida progredir), a morte (também parte de um processo de renovação do ciclo vital; alguns tem que morrer para dar espaço para outros, para a evolução, etc) e mesmo o saber científico (que seria, afinal, uma forma de saber laico sobre Deus [=natureza]).

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Não sou um conhecedor das religiões, mas fico interessado em pensar como seriam ‘traduzidas’ as intuições religiosas tradicionais para esse novo ‘enquadre’ nietzschiano / espinoziano. Por exemplo: nós somos parte da natureza, então “Deus está em nós”; mas, ao mesmo tempo, somos os seres mais capazes de se afastar do caminho ‘de Deus’ – basta ver o desastre ecológico que estamos insistentemente produzindo. (Aliás, pensar o divino como a natureza dá uma dimensão do quão “hybris” é nosso comportamento com as próprias condições de nossa vida, e o quanto nossa sociedade precisa repensar esse aspecto).

Também podemos pensar que sim, “Deus nos fez à sua imagem” – isto é, a natureza nos criou de tal forma que algo de seu movimento ou de suas escolhas é refletido em nossa estrutura (não quer dizer que Deus / natureza seja um homem, claro; mas que algo do movimento vital que nos constituiu está mantido em nossa forma, assim como na natureza. Há uma continuidade entre nós (homem e natureza), assim como entre os homens e também entre nós e todas as formas de vida.

Finalmente, a ideia de “Deus” geralmente esteve ligada aos regramentos morais da sociedade. Ao tornar Deus imanente à natureza, Nietzsche muda também o problema moral do homem: como devemos nos comportar agora, sem uma tábua da salvação? É o problema do livre-arbítrio humano, que também ganha novo sentido: porque, se somos feitos à imagem e semelhança de Deus (= natureza), talvez nossa liberdade de escolhe reflita justamente as dificuldades que Ele precisa superar a cada passo, sendo a realidade.

Ou seja, nosso desamparo, nossa falta de respostas prontas frente à realidade, nossa precariedade frente ao futuro seria expressão justamente de nossa comunhão com a natureza, entendida enquanto abertura criativa em perpétua atualização.

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É assim que entendo conceitos como “Amor fati”, em Nietzsche: o amor ao que acontece, dado que, no fundo, estamos ligados em nosso ser ao próprio ser do mundo; os acontecimentos são o que tem que ser, não porque existe uma finalidade pré-definida, mas justamente porque aconteceram… e cada instante na roda da causalidade é um resultado necessário do ponto de vista das causas, mas também contingente, do ponto de vista das finalidades.

Vale dizer: o mundo é um todo aberto, em constante reinvenção, e isso foi simplesmente transposto para nossa vida, para nosso agir, para a estrutura mesma do homem, dado que ele espelha a natureza. Esse seria o sentido do “livre-arbítrio”: não um estratagema para nos culpar – pois “você pode escolher como agir”, mas uma amostra de nossa responsabilidade e co-particição no processo de criação do mundo, instante a instante. “Amor fati” teria, então, um sentido muito próximo da religião enquanto “religare”, ou seja, reconexão de nosso ser com o que acontece.

Quão estranha é essa noção, em um mundo como o nosso, onde uma das poucas certezas que se tem é a do completo alheamento entre uns e outros, entre o indivíduo e o mundo, e onde os valores insistentemente intensificam as diferenças, e também o isolamento, entre o homem e o que o rodeia?

Nietzsche – e a religião! – ainda tem algo de revolucionário.

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