Tempo (duração) em Bergson e em Freud

Bergson foi um filósofo francês contemporâneo de Freud, reconhecido mundialmente por suas ideias a respeito da natureza do tempo. Eu admiro muito esse autor, principalmente pela abrangência e clareza quase impossível que ele consegue dar a ideias altamente complexas.

(Para dar uma ideia da complexidade de seu pensamento, há comentadores que argumentam que o próprio Einstein não teria compreendido a fundo a teoria bergsoniana do tempo, hipótese comentada por Deleuse, entre outros. Aqui, uma atualização desse debate).

Mas as ideias de Bergson não se restringem à física, abrangendo muitas outras áreas, como a biologia e a psicologia.

É sobre as diferenças entre sua concepção de tempo na subjetividade e a concepção freudiana que quero falar hoje.

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Bergson argumenta que a noção comum de tempo que temos é, no fundo, uma concepção espacial. Isto é, nós tendemos a identificar o tempo com o espaço, e a tratá-lo como se espaço fosse.

Um exemplo que me ajuda é o seguinte: se atirarmos uma pedra do ponto A ao ponto B, podemos, a qualquer instante da trajetória da pedra, situar o espaço aonde a pedra estará. Se somarmos as distâncias percorridas por esses espaços ao longo da trajetória, teremos a distância total percorrida pela pedra. Afinal, o espaço é divisível; podemos “cortar” imaginariamente uma distância em duas partes, e com isso, ao menos do ponto de vista prático, nada se perde. Podemos até prever aonde a pedra estará, se conhecermos sua velocidade.

Com o tempo, segundo Bergson, isso não seria possível: porque se pararmos a pedra num dado momento de sua trajetória, ela não continuará o movimento no instante seguinte; ela cairá. Dito de outra forma, o movimento é indivisível. Eu não posso parar uma pedra que está se movendo, e depois querer que ela continue o movimento.

isso acontece, para Bergson, em função das características do tempo. Ou, como ele prefere dizer, do tempo enquanto duração.

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“Duração” seria esse aspecto do tempo que faz com que ele não possa ser divisível, sem alterar suas características. Simplificadamente, Bergson argumenta que cada instante do tempo continua no instante seguinte, acrescentando a ele toda a carga do passado (mais ou menos como ocorre hoje na blockchain). Cada instante carrega consigo o passado inteiro de transformações, fazendo com que essa cadeia não possa ser parada, sem implicar numa mudança.

Dessa forma, o tempo não poderia ser dividido, sem ser alterado, assim como o movimento da pedra que mencionamos acima não pode ser parado, sem se transformar em outro movimento.

No espaço, como vimos, podemos supor paradas sucessivas, e mesmo prever aonde a pedra está porque, no fundo, o espaço aí não acrescenta nada ao processo. Ele é uma variável indiferente, podemos dizer; passiva no processo. O tempo, ou a duração, ao contrário, implicaria sempre em uma transformação. Tudo que ocorre no tempo, muda, pelo próprio acréscimo de passado. Daí porque seria impossível prever qualquer coisa, no tempo – porque ainda não sabemos as mudanças que se inserirão, daqui até o tempo previsto.

Um último exemplo: eu não posso “resumir” a experiência de ouvir uma música, porque essa experiencia será a soma de todos os momentos que compõe a duração da música, uns influenciando os outros. Se eu “acelero” a música – mudo o tempo – tenho outra experiência; se eu pulo direto para o final, sem viver a duração completa da música, também tenho outra experiência. Daí que o tempo da experiência não possa ser alterado, sem alterar a experiência mesma.

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Enfim, é toda uma nova imagem de tempo, que Bergson apresenta, com uma série de implicações e complicações, que não interessam aqui. O ponto que eu gostaria de discutir é a transposição dessa imagem do tempo enquanto duração ou continuidade para a psicologia. Pois o que Bergson está argumentando é que faria parte da própria natureza do tempo uma continuidade do passado no presente. Ou seja, grosso modo, não precisaríamos de uma memória para “manter” nosso passado, porque o passado se conservaria por si mesmo.

Por contra-intuitiva que seja essa noção, há bons argumentos para defendê-la (o leitor interessado pode se aprofundar no assunto nos livros “Matéria e Memória”, e ‘Duração e simultaneidade”, de Bergson). Mas meu ponto aqui é que a psicanálise, a partir de Freud, também se dedicou a estudar a problemática relação de nossa subjetividade com o tempo, ressaltando, no entanto, como essa continuidade não seria natural.

Ou seja, dito de outro modo, aquilo que em Bergson aparece como natural ao tempo, em Freud é antes uma conquista – complexa – da saúde. Longe de ser algo dado por sí, naturalmente, nossa continuidade subjetiva no tempo teria que ser conquistada através de uma série de processos e frustrações. Como conciliar essas duas proposições?

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O assunto é complexo, e demandaria muito mais espaço do que disponho aqui. Mas, em poucas palavras, creio que simplesmente não se trata da mesma noção de tempo, nos dois autores.

Bergson trabalha com uma ideia do tempo “em si”, tanto que aplica sua ideia indistintamente ao mundo físico e ao mundo subjetivo.

Freud, por seu turno, trabalha apenas com a noção de tempo subjetivo. Isto é, do tempo enquanto resultado da montagem que cada sujeito faz das suas experiências.

Vale dizer: para Freud, o tempo não é uma “causa” no mundo subjetivo, mas um “efeito”. Ou ainda: lidamos com o tempo (físico) com a mesma distância que colocamos entre nós e o mundo real, objetivo. Há sempre um intervalo, uma subjetivação do dado (como já comentei aqui). Há sempre, também, uma subjetivação do tempo enquanto realidade física.

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Ora, é apenas esse tempo subjetivado que interessa à Freud. São apenas as dificuldades que experimentamos para lidar com nossas memórias, com o passado que sofremos ou fizemos, que interessa à psicanálise. E, nesse contexto, o tempo não é sempre contínuo. Pelo contrário, inserimos aí uma série de buracos, de descontinuidades, que operam, no geral, como auxiliares, como processos defensivos ou paradas necessárias à nossa saúde.

Alguns autores defendem até que o recalque e os processos que tornam inconscientes certas memórias seriam a condição para que tenhamos uma relação saudável com o tempo – ao criar as maneiras de … esquecê-lo. Assim, a psicanálise, como também Nietzsche, entendem que o fundamental na memória é poder esquecer, e não lembrar. Ou ainda, distorcer, recontar, subjetivando, o tempo.

De certa forma, isso vai ao encontro da proposta de Bergson também. A psicanálise apenas coloca um acento maior sobre as dificuldades pragmáticas que temos para lidar com o tempo, do ponto de vista subjetivo (seja ele, objetivamente, o que for). Há, aliás, estudos interessantes que relacionam a capacidade expandida de memória com um decréscimo da integridade subjetiva (ver Dejours, “O corpo entre a biologia e a psicanálise”, 1988). Como se subjetivar o passado implicasse numa boa dose de esquecimento… como saúde, como parte do processo, e não como ‘problema’.

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É interessante pensar como hoje, em geral, o interesse parece colocado apenas na capacidade de memorização, esquecendo-se totalmente da criação de subjetividade que deve acompanhar esse tanto de memória.

Ou seja, haveria uma relação direta entre os contornos da nossa subjetividade e o nosso passado, nossa memória. Esse é o ponto de partida da psicanálise. Mas, pra variar, nossa cultura vê apenas o ‘objetivo’ nisso tudo, e parece buscar uma expansão de nossos registros às expensas de nosso processo subjetivo.

O resultado é algo próximo de um trauma: temos o registro do fato, mas ele não se liga ao nosso “Eu”, à nossa subjetividade. E então buscamos ‘apagar’ esses registros do jeito que dá, seja bebendo, trabalhando, tumultuando as redes sociais ou pelas drogas.

Nosso tempo seguirá pagando um algo preço por desconsiderar o subjetivo.

2 Respostas para “Tempo (duração) em Bergson e em Freud

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