Intolerantes / intoleráveis: a política atual e as novas redes

Acho um pouco chocante o panorama político do Brasil atual. Parece haver dois lados extremamente convictos de suas posições. Não o extremismo das posições, mas o extremismo da convicção, é o que me choca. Ambos os lados parecem se encontrar nesse ponto, aliás.

Deixando de lado quaisquer teorias conspiratórias – cujo uso também aproxima os dois extremos -, parto do princípio de que os representantes que escolhemos espelham, de alguma maneira, os representados. Ou seja, não são apenas os atores políticos que se encontram divididos e convictos de sua posição, mas boa parte do povo.

E quando tento pensar porquê as coisas se encontram assim, uma das grandes variáveis envolvidas parece ser a internet: as revoluções que ela nos trouxe, para o bem ou para o mal.

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A internet bagunçou um sistema que era hierarquizado, e cujos caminhos eram controlados por poucos. Por exemplo, até bem pouco atrás, a informação era uma espécie de monopólio da imprensa. As coisas tinham que passar pelos grandes veículos da mídia, porque não havia outros canais importantes de comunicação.

Hoje não; as redes quebraram isso, e todo usuário do Whatsapp, do Twitter ou do Facebook se tornou potencialmente um jornalista, criando ou divulgando informações.

É claro que isso trouxe um ganho de liberdade considerável, pois já não dependemos mais da grande mídia. Ao mesmo tempo, isso deixou muita gente exposta à informações sem curadoria, informações criadas intencionalmente para desinformar – as famosas “fake news”.

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Não que elas não existissem antes. Mas quando você tem quatro ou cinco grandes empresas controlando a informação, é possível que – havendo competição entre elas – umas se oponham às outras, e então as narrativas se consolidam: tal jornal é de direita, tal outro é de esquerda. Cria-se então uma estabilidade de informação, que permite que as pessoas escolham.

Hoje, isso se perdeu. É impossível dividir as informações em poucos grupos estáveis, como “esquerda” e “direita”, porque, como disse, cada cidadão é, virtualmente, uma nova posição.

Isso acaba tendo um efeito nefasto para o debate, já que instaura uma pulverização das posições, fazendo com que não existam grupos definidos. Em consequência, fica muito mais difícil acessar o discurso do outro, porque, no limite, esse outro também se pulveriza.

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Em psicanálise vemos algo semelhante nas psicoses. Grosso modo, essa patologia envolveria uma falha na própria delimitação entre o que pertence ao “Eu” e o que pertence ao “outro”. Por incrível que possa parecer, existem pessoas que não conseguem sustentar uma divisão clara entre os seus conteúdos mentais – ideias, sentimentos, etc. Assim, a pessoa sente raiva, mas imputa essa raiva a um terceiro, por exemplo.

Isso cria muitas dificuldades para esses sujeitos, como se pode imaginar. Há tanto um sofrimento associado com sentimentos ou ideias dos outros, que são assumidos como próprios, quanto um sofrimento por não poder vivenciar coisas próprias como suas, de fato.

O sujeito vive numa dispersão de elementos pulverizados, sem limites claros. Mas meu ponto aqui é chamar a atenção para como a falta desses limites impossibilita uma verdadeira troca. Ou seja, uma fronteira claramente definida permite as trocas entre o dentro e o fora, pois os constitui. Como vou operar trocas entre o interior e o exterior se esses âmbitos não se constituírem?

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Penso que essa confusão do mundo interno do psicótico tenha analogias com o que estamos vivendo enquanto sociedade. A grande dispersão de ideias – uma coisa boa, afinal! – acabou tornando cada vez mais difícil consolidar grandes leituras de mundo, estabelecer as fronteiras. E isso impossibilita o verdadeiro debate.

Dito de outra forma, é como se a própria fronteira entre o “Eu” e o “outro” político fosse anulada, e, como consequência, qualquer tipo de troca com o outro tenha se tornado impossível.

A intensidade da convicção com que cada um se agarra ao seu ideal faz pensar, nesse contexto, que os sujeitos se apegam assim às suas ideias porque precisam. Ou seja, trata-se de uma questão ligada à identidade, à própria maneira como a pessoa se reconhece.

A convicção, nesse contexto, é uma espécie de sintoma. Ela expressa que os processos de constituição da identidade do sujeito não ocorreram a contento. Há fragilidade subjetiva aí.

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Em consequência, estamos mais intolerantes. A tolerância ao outro é, afinal, uma condição para que eu possa trocar algo com ele. E tolerá-lo passa por uma identificação mínima. Eu não tolero aquilo que é muito diferente de mim.

Mas um aspecto da cultura capitalista – pergunto-me se essencial ou acessório – tem sido intensificar essa individualização, reforçar essa noção de que somos diferentes, de que cada um é um, é “uma ilha”.

Com isso, a identificação com o outro torna-se mais e mais difícil; a intolerância aumenta, e o único “outro” que parece se sustentar é o outro morto.

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