O humor como índice de pessoalidade

A experiência de escrever um blog é rica em muitos sentidos, um deles sendo certamente a possibilidade de “aparar as arestas” de nossas ideias e de perceber como certos conceitos não fazem sentido – ou não tem o mesmo sentido – para pessoas diferentes.

Quando falo em espaço potencial, por exemplo, ou em subjetividade, ou em subjetivação do dado – inserção de uma dose de ‘sonho’, de imaginação, no dado bruto real – percebo que nem sempre as pessoas entendem. Por isso procurei uma experiência que fosse comum, e expressasse justamente esse ‘sonhar’, esse imaginar, que acrescentamos aos dados brutos de nossa realidade – e penso ter encontrado isso na experiência do humor.

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O humor é algo que não existe no dado. O que é engraçado pra você pode não ser para outra pessoa, e mais: pode não ser engraçado nem pra você mesmo, a depender do contexto.

Ou seja, o humor não está ‘contido’ apenas no que fazemos ou dizemos. Quando rimos, não estamos simplesmente ‘reagindo’ à uma situação. Ver alguém caindo na sua frente não implica, de maneira nenhuma, que a sua ação tenha que ser “rir”. O riso não tem uma função prática óbvia, facilmente determinável (embora possa estar ligado, sim, com nossa homeostase).

Tudo isso me faz pensar que o riso é assim justamente porque opera naquela pequena parte da experiência que adicionamos ao dado real bruto. Eis por que seria tão difícil identificar suas ‘causas’ ou seus ‘efeitos’ concretos. O riso acontece na nossa subjetividade, numa palavra.

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Existe o sorriso da criança, é claro, mas não é desse riso que estou falando. Na criança, ele parece muito mais ligado ao corpo e aos reflexos, e muito menos à subjetividade (ambos, aliás, muito próximos e mesmo confundidos, no início da vida).

Mas quanto mais amadurecemos e envelhecemos, mais nosso corpo e nossa subjetividade se diferenciam, a ponto de, na velhice, nossa mente as vezes querer fazer algo, mas o corpo não acompanhar.

Essa diferenciação é justamente o espaço que vai sendo preenchido pelas nossas experiências de vida, experiências singulares, que embasarão o sentido de nossas palavras, de nossas novas experiências, e também… de nosso riso.

Assim, quando rimos na vida adulta, já não é mais só aquele riso reflexo do bebê, mas um riso onde certamente se misturam memórias e experiências de vida únicas.

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Meu ponto aqui é que nenhuma situação é engraçada em si mesmo; é necessário sempre considerar esse aspecto subjetivo para entender a graça de algo.

Isso explicaria a dificuldade dos autistas em entender a graça de certas situações. Não lhes falta, obviamente, cognição, mas antes essa “subjetividade”, esse sonho, essa imaginação, que colore as situações concretas com as cores da nossa vida particular, da nossa singularidade.

Isso também nos ajudaria a entender porque é tão difícil “ensinar” o humor. Isto é, enquadrá-lo numa técnica, numa receita rígida. O fato é que o humor tem a ver antes com o relaxamento, com a imaginação… precisamos estar à vontade para rir, assim como para dormir.

Rir é uma forma de sonhar acordado, e, por isso mesmo, algo próximo da subjetividade. A qual, como já argumentei em outros posts, não deixa de ser uma espécie de sonho –

2 Respostas para “O humor como índice de pessoalidade

  1. Adorei a ideia de rir como um índice de pessoalidade, e logo me pus a pensar em como rir com uma determinada pessoa é mais fácil, ou em determinada situação. Você fala disso no texto, mas eu fiquei pensando em como o humor pode ser um índice da intimidade de uma relação – claro… não o único, afinal, temas sensíveis são temas sensíveis – nem sempre são um convite ao riso. Na clínica, creio, experimento este tipo de dilema… noto que ajudar o cliente a ‘brincar’ com sua vivência, mesmo com sua dificuldade (claro, com cuidado, com empatia, no momento certo), auxilia-o a também ter uma abordagem mais relaxada (que facilita no enfrentamento). Este brincar é aqui, como sabes, também winnicottiano: pode muito bem ser o rir, ou o experimentar, ou transicionar…. Gosto daquele momento em que a criança cai, e, habituada a chorar – arma-se para tanto, no entanto, e com a ajuda do olhar maduro, percebe que deu conta – e pode rir disso… Acredito que poucas sensações são tão maravilhosas como essa.

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