Linguagem & comunicação (não informação)

Em “mil novecentos e outubro”, como dizia uma professora minha, brincando com a idade, comecei um curso de jornalismo. Minha ideia era fazer algo relacionado à escrita, mas, nos corredores do curso (“e do peito”, como diria um poeta), encontros e desencontros me levaram para outras paragens.

No entanto ainda lembro de uma definição sobre a linguagem que aprendi naqueles tempos. Algo como: “os mínimos elementos envolvidos em uma comunicação são o emissor, o receptor e a mensagem“.

Hoje, formado em psicologia e com alguma bagagem em psicanálise, acho essa definição grandemente questionável. Como sabe qualquer um que já brincou de ‘telefone sem fio’, a comunicação não se parece muito com essa transmissão linear de algo. Há sempre uma grande parte de contingência na ‘transmissão’ de uma mensagem; e a subjetividade tem um peso enorme nisso, o que simplesmente não aparece nessa definição.

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Essa definição parece postular o entendimento como algo passivo: basta o “receptor” ouvir a mensagem, que algo em sua mente irá decodificá-la – com maior ou menor ruído. Ou seja, o processo comunicacional é entendido como a entrega material de algo – a mensagem propriamente dita – que até pode ser distorcida no caminho, mas é entregue. O entendimento ou a comunicação seriam efeitos necessários da ‘entrega’ da mensagem.

Creio que qualquer um que já foi casado terá elementos para discordar dessa tese… A comunicação é um processo muito mais subjetivo – ou muito menos material – do que a definição acima faz parecer. Na verdade, o “ruído” muitas vezes é maior do que a informação que supostamente seria “entregue”. Descrever o processo comunicacional assim faria sentido para computadores – mas, para seres humanos?

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Passando à Winnicott: sua definição se centra na importância da subjetividade para a comunicação. O que ele diz? Que “a comunicação só acontece na brincadeira”. E nós, “receptores”, o que entendemos? Que a comunicação só acontece na sobreposição de duas áreas de ilusão.

A diferença é gritante. Winnicott supõe que para além do dado material, concreto, que pode ser transmitido numa mensagem, há uma grande margem de subjetivação desse dado. Muito do que “recebemos” ou ouvimos numa mensagem é adicionado por nós, por nossa imaginação. E isso faz parte integrante do “jogo” da linguagem.

Mas isso não é, exatamente, ‘ruído’. Não é algo negativo, que ‘retira’ da mensagem uma parte importante. Ao contrário, é isso que adicionamos à mensagem que permite que ela seja entendida.

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A ideia de Winnicott vai exatamente na contramão da primeira ideia que discutimos. Aqui, a mensagem transmitida é muito mais uma sugestão – uma evocação, algo indireto que pode suscitar no outro, aquele que ouve, ideias parecidas.

Mas para que as ideias que eu expresso e as que meu ouvinte produza sejam semelhantes, é preciso dos dois lados um esforço de empatia – uma tentatiwa de imaginar o que é o que o outro está pensando, sentindo, vivendo. E isso é puramente imaginário. Eu não sei como o outro sente. Eu não sei o que ele pensa. Eu apenas imagino, a partir das minhas experiências.

É por isso que a comunicação aconteceria, para Winnicott, na sobreposição de duas áreas de ilusão: porque cada um dos falantes está imaginando que o outro é assim ou assado, sem nunca poder saber, realmente, quem o outro é.

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Em “psicologuês” isso é fácil de explicar. Falamos todos mais ou menos a mesma língua; há inclusive boas razões pra se acreditar que existe um fundamento cerebral para a linguagem (ver, por exemplo, as teses de Chomsky). Mas o uso que cada um fará das palavras, o sentido pessoal que cada coisa dita terá para cada ser falante, é incomunicável.

A língua é como uma moeda com suas duas faces: tem um lado ‘genérico’ ou social, que aponta para a estrutura da língua e que permite toda comunicação possível – algo que todos aprendemos mais ou menos igual, e que pode ter raízes cerebrais -, e um lado pessoal, formado pela liga entre cada palavra e as experiências singulares que cada um de nós vai tendo ao longo da vida.

Essas experiências singulares dão um colorido próprio e pessoal para cada termo – e isso é muito difícil de comunicar. Quando eu falo em “cuidado”, por exemplo, estou evocando uma série de experiências pessoais – muitas das quais mal tenho consciência – assim como uma série de leituras de psicologia e psicanálise. Se eu tivesse que apresentar todo o contexto que forma as diversas camadas de sentido dessa única palavra, eu teria que escrever provavelmente alguns bons livros!!

Isto é, o contexto total daquilo que falamos é muito mais amplo do que a “mensagem” que supostamente passamos. Mas sem esse contexto total, não há entendimento. O que quer dizer que…

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… um elemento central na comunicação é o equívoco, como diz Lacan. Nós não sabemos sobre o que o outro está falando. Nós não temos ideia de seu contexto total; muitas vezes, nem a pessoa que fala tem! Assim, em termos absolutos, “entender-se” é impossível.

Vale dizer: a comunicação é menos uma transmissão de informação do que um jogo – um ‘telefone sem fio’ – onde cada um, imerso em seu universo linguístico, vai buscar os equivalentes daquilo que ele acha que o outro disse.

Traduzimos o discurso do outro em nossos termos, e a ‘brincadeira’ a que Winnicott se refere é o perpétuo jogo de esconde-esconde que jogamos com a realidade, pelo qual fazemos de conta que aquilo que nós inventamos – o sentido que atribuímos à fala do outro – é igual àquilo que ele disse.

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