Dormir e despertar

Dormir é adentrar em um mundo diferente do mundo desperto. Nesse, a sonho até ocorre, mas como que subliminarmente; a percepção da realidade domina. No sono, a situação se inverte: ainda podemos perceber a realidade (quando alguém nos chama, por exemplo), mas é o sonho quem domina.

A psicanálise, desde o seu princípio, utilizou o sonho como situação exemplar do inconsciente, esse ‘outro mundo’ ao qual todos acedemos – alguns de nós, nunca saindo dele.

***

Freud desde muito cedo procurou mapear esse ‘outro funcionamento’, que ele inseriu na fundação de nossa subjetividade. Tanto que a realidade, para ele, seria apenas um contorno maior, uma volta, um caminho indireto para alcançar, integrando os dados objetivos, aquilo que comandava no fundo puramente subjetivo: o desejo, o inconsciente.

Ele mesmo percebeu, no entanto, que parecia haver algo mais do que o desejo e sua satisfação, no mundo do inconsciente.

Os traumatizados pela guerra pareciam dizer com seus sintomas que algo do mundo real não estava podendo ser vivido pelo conjunto subjetivo. Como se alguma dose de subjetividade fosse necessária para “equilibrar” ou “acalmar” os dados brutos do real, assim como algo da realidade era necessária para poder alcançar a consecução de um desejo.

***

Essa é uma outra leitura da psicanálise, nem sempre valorizada. Freud, que abriu muitas linhas de pesquisa simultâneas, deixou em aberto também a possibilidade de que, afinal, realidade e sonho, consciente e inconsciente pudessem ser como partes mutuamente dependentes de nossa subjetividade total.

Assim, nem o inconsciente, o sonho ou o desejo estariam submetidos ao primado da realidade – como ainda esperam todos os racionalistas e uns bons três quartos da sociedade – nem a realidade estaria submetida puramente ao desejo. Ambos os campos precisariam se constituir no desenvolvimento, com direitos próprios de existência.

Com isso, o problema do sonhar e do despertar se altera, e passa a ter mais a ver com de que forma esses dois mundos diferentes se relacionam, e como se dá a transição entre eles? E é aí que chegamos á Winnicott.

***

Winnicott continua essa intuição de Freud de que, afinal, sonho e realidade delimitam dois modos de funcionamento que precisam ser constituídos pelo desenvolvimento emocional. Mais especificamente, precisamos constituir uma subjetividade – um sujeito, se preferirem – que suporte a relação tanto com o real quanto com o sonho.

Grande parte da obra winnicottiana pretende ser a descrição de como esses dois mundos se constituem, e de como isso se relaciona com a saúde. A transição, por exemplo, entre um e outro, muitas vezes espelha a relação que temos entre consciente e inconsciente.

Por isso é tão importante perceber que sono e sonho permanecerão, mesmo na vida adulta e ‘racional’, como a contraparte necessária de alucinação e desejo de nossa personalidade total (assim como a realidade permanecerá como campo necessário de expressão dos desejos).

***

Critica-se a psicanálise pela opacidade de seus construtos, mas eis aqui dois conceitos que todos experimentamos, e que expressam à perfeição, objetivamente, o que Freud quis dizer com sua ideia de subjetividade cindida: nós somos formados de momentos despertos e de momentos de sono.

Nosso dia se divide assim, e todos percebemos (ao menos na saúde) que um desses momentos é governado pela percepção do real, assim como outro é governado pela percepção do sonho. São duas partes ou dois ‘reinos’ diferentes, que se comunicam de maneira nem sempre clara. Mas ambos têm sua importância e necessidade.

Aliás, contrariando todos os racionalistas, a parte sonhada de nossa existência parece ser crucial justamente para a fixação das memórias – ou, como diria um psicanalista : para a constituição de nossa história. Até a neurociência apóia isso hoje em dia (link).

***

Muitas coisas causam escândalo na psicanálise, uma delas sendo provavelmente essa insistência em valorizar o lado do sono, o lado “sonhador” de nossa subjetividade (contrariando todo racionalismo, como tenho insistido), assim como a importância do trânsito ou comunicação de experiências entre os dois lados, para uma vida psiquicamente saudável.

De certo modo, a psicanálise se constituiu nesse ponto, exatamente no cruzamento desses dois âmbitos fundamentais de nossa existência. Talvez por isso, poucas práticas colocam-se ao lado dela na capacidade de expandir nossa relação com o real assim como nossa relação com o sonho.

O que se traduz tanto por uma certa lucidez pragmática quanto por um sono mais profundo – assim como por uma relação ampliada consigo mesmo, com sua própria história de vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s