O entorno das questões

Entre tantas coisas que se desconhece do saber psicanalítico, uma em especial é aquela relativa ao entorno, ao setting – ou, como eu prefiro dizer, ao ambiente. Isto é, a importância não tanto do que se diz, mas do lugar psicológico criado para que tal coisa seja dita. O favorecimento da fala, o suporte que damos, as qualidades do enquadramento, o modo como se diz, o clima emocional, enfim: o entorno da fala, não a fala em si mesma.

Isso é fundamental porque, muitas vezes, as questões que os pacientes nos apresentam não podem ser respondidas. Ao contrário do que pensa nossa vulgata científica, para muitas questões existenciais simplesmente não existe resposta. Nosso papel como terapeutas não é, portanto, “responder”, simplesmente. Mas, antes, criar as condições para que o paciente encontre sua solução. Numa palavra, trabalhamos no entorno da questão.

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O que dizer, por exemplo, para um paciente que está enfrentando a morte? Ou que começa a perceber o tanto de vida que perdeu, acossado por um sintoma X ou Y? São questões sem resposta e sem solução. Em todas as questões existenciais, parece-me, o importante é menos a questão em si, do que aquilo que em nós se produz para encarar tais questões.

Mas é comum que as pessoas simplifiquem o quadro, estruturando a situação como algo que poderia ser respondido – bastaria ter ‘sabedoria’ o suficiente. Assim, o fato de que o tempo não volta poderia ser “equilibrado” por uma sabedoria oriental ou uma frase lida no Facebook… E isso faz parecer que o conteúdo de uma frase “resolve” o problema do tempo. Sinto dizer, mas… não resolve.

Esse é meu ponto: nossos problemas não tem a ver com “conteúdos” – ou com a falta deles. Nossos problemas tem a ver com o “entorno” desses conteúdos, isto é, com as experiências concretas de vida que produziram aquele saber.

No fundo, é isso que buscamos, quando colecionamos ‘sabedoria’ e frases prontas. Não o conteúdo, não a frase bonitinha. Mas a vida que se resumiu ali.

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Quando penso num bom terapeuta, penso exatamente nisso: alguém que consiga me ajudar a enquadrar minhas questões, que me ajude a constituir um entorno, um ambiente, um setting, onde minhas questões possam produzir respostas por si mesmas – onde minhas respostas possam surgir. Não por serem verdadeiras – mas por serem minhas.

Este é o corolário dessa discussão: tudo que for existencial terá que ser respondido pela minha posição como sujeito. Não há respostas prontas – nem mesmo as sábias – para aquilo que só eu poderei decidir. Ou, mesmo que exista respostas, elas precisam ser minhas, precisam poder ser assumidas por mim, sustentadas. Existe uma necessária pessoalidade nas coisas existenciais. Não podemos nos esconder nas respostas genéricas, que valem para todo mundo.

Mas, é claro, as pessoas tentam. Insistem em colecionar sabedoria, porque é mais fácil. Nada contra a sabedoria, aliás; ela pode, sim, nos auxiliar, encontrando palavras para aquilo que já é nosso, por exemplo. Mas o que vejo é muita gente deixando de se posicionar por conta de ‘sabedorias alheias’. Pior ainda: deixando de escutar as próprias questões – os próprios problemas – porque “já sabem” a resposta. Mais uma vez, nosso ‘saber’ trabalha contra nosso próprio amadurecimento.

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Um exemplo bem banal: a exuberância de ‘tutoriais’ para tudo, na internet. As pessoas agem como se houvesse uma receita – um conteúdo – para tudo; como se as coisas não fossem contextuais, isto é, como se não tivessem uma relação necessária tanto com o ambiente quanto com nossa subjetividade.

Imagine alguém que “aprenda” a contar piadas, por exemplo. Mas metade de uma boa piada é o contexto; é preciso saber construir esse contexto. Todo bom contador de piadas é um mestre nessa construção. Uma vez feito o contexto, a piada pode ser até fraquinha: já estamos fisgados, e riremos igual. Numa palavra: o essencial na piada não está nela, mas em seu entorno.

Há também a questão subjetiva, que se perde numa piada pronta: quando trazemos a piada ensaiada, à espera de um contexto, ela até pode funcionar, mas não dirá nada sobre o nosso contexto pessoal. Isso é, nós não acharemos tanta graça. O efeito externo da piada funcionou; mas seu efeito interno será nulo.

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Evidentemente, isso vale para tudo. As pessoas veem vídeos sobre “como ser bem sucedido” e esquecem que não há receitas para isso; a questão central no sucesso tem a ver com nosso “ser”, com nossa atitude. Se o vídeo fomentar essa atitude, ele pode funcionar. Mas então não é por seu conteúdo – por sua receita externa, por assim dizer -, e sim pelo seu efeito de motivação. De alteração subjetiva.

O sucesso só se alcança com uma alteração subjetiva que lhe corresponda. A sabedoria só se alcança a partir de uma transformação de mesma monta. Não podemos ser sábios ou bem sucedidos simplesmente decorando frases de efeito – mesmo que bem aplicadas. Assim como não podemos ser bons comediantes apenas decorando piadas, ou bons analistas apenas ‘sabendo as respostas’.

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