Agressividade: erradicá-la ou sustentá-la?

Muitas pessoas chegam na clínica pedindo ajuda para EXTIRPAR algum sentimento. O tipo de sentimento a ser retirado se relaciona com a estrutura do sujeito, em geral, mas a ‘extirpação’ mais comum é sempre algo ligado à agressividade.

Quando paramos para pensar nisso, a agressividade também foi proscrita de muitas religiões. E o convívio social fez o mesmo, provavelmente porque necessita, para seu funcionamento, de alguma dose de moderação na expressão desse afeto tão poderoso.

Parece haver então algo tóxico na experiência agressiva, mas, será que aqui não se aplica aquela máxima de que ‘a diferença entre o veneno e o remédio é a dose‘? Digo isso porque também é muito claro que alguma dose de agressividade é salutar. Nietzsche defendia isso abertamente, e a psicanálise, pra variar, vai pelo mesmo caminho, sugerindo que o impulso agressivo liga-se quase sempre às manifestações do Eu. Ou seja, algo de muito próprio está em jogo quando uma manifestação agressiva acontece.

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Do ponto de vista neurobiológico, a agressividade – ou o ódio, se quisermos – é uma emoção como qualquer outra. Ou seja, trazemos conosco os ‘ingredientes’ para vivenciar esse tipo de emoção, e isso não deveria ser problema; é algo natural. Toda emoção cumpre funções ligadas ao equilíbrio dinâmico do corpo em sua relação com o meio, sua homeostase. Num contexto de selva, por exemplo, podemos facilmente pensar em situações onde a agressividade seria uma aliada do sujeito. Porque, então, essa recusa?

Um primeiro ponto poderia ser justamente a associação entre agressividade e ego. Nossa cultura prega uma recusa do ego inteiramente problemática, pra não dizer absurda. Mais uma vez, a tônica se dá na extirpação da coisa, e não em sua transformação. Como pretender que as pessoas concordem e desejem anular a si mesmas, sem ganhar nada em troca? “Não existe almoço grátis”, e isso também é verdadeiro ao nível emocional. Podemos, sim, ser genuinamente altruístas, desde que ganhemos algo com isso. O ganho pode ser intangível – a simpatia de um ‘outro’ valorizado, um ‘ideal de ego’ que me esforço por alcançar, etc – mas há sempre uma troca. Não existe empatia no vácuo.

Por outro lado, a maturidade emocional parece concordar com os ideais sociais. É esperado que o egoísmo natural e até permitido de uma criança ceda espaço para um egoísmo mitigado, que inclui o amor e o cuidado com o outro na vida adulta. Como se amor e ódio devessem conviver.

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Isso nos leva a um segundo ponto do problema: a suposição de que nossa vida emocional é simples, inteira, unívoca. Muita coisa sugere que não é assim. Ou seja, podemos ser, ao mesmo tempo, amorosos com alguém, mas também ter momentos de ódio. A psicanálise, inclusive, sustenta que essa relação ambivalente com os objetos é a norma, é o normal. Uma conquista da saúde.

Amar e odiar ao mesmo tempo seria o nosso padrão humano, e isso faz muito sentido, quando pensamos nas falhas que todo objeto de amor terá. Desejamos um objeto de amor que nos corresponda completamente, mas isso é impossível. Nem nós mesmos nos entendemos completamente…

Com o quê, o ódio é o complemento natural do amor. Acontece que, muitas vezes, amamos ‘para fora’ – de modo explícito, para a consciência – e odiamos ‘para dentro’, de forma escondida, sem revelar esse ódio nem para nós mesmos. Definitivamente, isso não nos torna mais simples…

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O fato de odiarmos inconscientemente não é necessariamente um problema. Na verdade, diria antes o contrário: poder ter um ódio inconsciente casa muito bem com a saúde mental. Vários problemas são desarmados a partir dessa simples conquista. Mas aqui voltamos às pessoas que sentem necessidade de extirpar os sentimentos agressivos: o que está acontecendo com elas?

Diria que tais pessoas, justamente, não estão conseguindo sustentar algum ódio inconsciente necessário. Se aceitamos a vinculação entre agressividade e afirmação de si, podemos entender que o ódio expressa, nesses casos, alguma experiência fundamental para o sujeito. É um afeto positivo, importante, afirmativo. Mas, por questões a se averiguar em cada caso, não pode ser sustentado por esse mesmo sujeito.

O problema, então, não é o afeto agressivo em si mesmo, mas justamente o fato dele não poder ser sustentado. Ou ainda, o fato dele ser vivido como em conflito em relação aos outros afetos do sujeito.

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Isso muda tudo. Entender que o problema não é o afeto, mas antes a dificuldade de encontrar um lugar subjetivo para ele, implica que o tratamento não deve ser a extirpação, mas antes a criação – ou expansão – desse lugar subjetivo.

Uma vez que encontremos esse lugar na vida psíquica do sujeito, algo digno de nota acontece: o afeto, antes explícito e incômodo, passa a ser implícito, como um dente inflamado que é curado. Ou seja, já não nos preocupamos com ele, já mal o percebemos. Nós simplesmente o ‘vivemos’, o utilizamos, como fazemos com os demais órgãos. Nós mal pensamos neles, pelo menos quando as coisas vão bem.

No fim, deixamos de admirar os dentistas que só sabem arrancar os dentes doloridos, como dizia Nietzsche. A vida seguidamente nos dará bocados difíceis de engolir, e ter ‘todos os dentes na boca’ será sempre um valor. A vida fica diminuída quando precisamos extirpar as coisas que nos incomodam, sobretudo quando nos são úteis.

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Não estou negando que existam outros usos da agressividade, que demandem, talvez, extirpação, nem muito menos sugerindo que as dores de dente devam ser suportadas, pois são ‘necessárias’. Meu ponto aqui é que nossa cultura escolheu a extirpação como solução padrão para toda uma série de conflitos, mas isso somente é alcançado às custas de um empobrecimento da vida psíquica dos sujeitos. Mas hoje temos soluções alternativas.

A agressividade pode ter, sim, uma função positiva. Toda a questão é que ela deve ser trabalhada, modulada, elaborada, para poder expressar uma demanda subjetiva ao mesmo tempo que outras demandas, como a amorosa, possam ser sustentadas. Dito de outra forma, quando as demandas ligadas ao ego E as demandas ligadas ao ‘outro’ podem coexistir, sem necessária exclusão entre “ego” e “outro”. Essa capacidade de identificação entre ego e objeto seria, assim, uma condição para a vivência responsável de afetos como o ódio, conforme argumentei em outros textos (link).

Concluindo, há muitas razões para sustentar que o conflito emocional e a ambivalência estejam mais próximos da saúde do que a “resolução” dos conflitos ou a escolha de apenas um dos lados da questão. Sobretudo quando essa ‘resolução’ expressa apenas parte da subjetividade (isto é, quando não se baseia no sujeito inteiro). Dizer “se teu olho te escandaliza, arranca-o”, como o fez a religião cristã, hoje nos parece uma compreensão parcial da subjetividade. Uma falta de tolerância muito próxima, afinal, do problema que se propõe resolver.

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PS.: segue o link de um video do psicanalista Lucas Nápoli, tratando questões próximas às do texto acima: https://www.youtube.com/watch?v=8Nfm5-vzeY8

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