O real como refúgio ao sonho

Você talvez já tenha tido a experiência de estar imerso em um sonho tão aflitivo, à noite, que acordar se tornou uma espécie de alívio. Ver as coisas novamente como elas são, sentir-se em casa, seguro, protegido pela realidade concreta das coisas – a sua cama, o seu quarto, as cortinas, a porta, a sala logo ao lado… Esse é um aspecto das relações entre sonho e realidade que pode parecer paradoxal, mas que encontra inteligibilidade na psicanálise.

De forma simples, podemos dizer que muitas vezes nos refugiamos na realidade, fugindo de pensamentos assustadores. Esses pensamentos também podem ser reais – como a lembrança de relações tensas com parentes, ou erros que cometemos no passado – mas trata-se de uma realidade incômoda. Muito diferente é a “mesmicidade” da realidade que opomos a essa primeira, formada pela confiança e familiaridade com os objetos de nossa vida cotidiana.

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É estranho pensar que podemos nos refugiar do sonho na realidade. A primeira vez que li sobre isso, ainda na graduação, lembro que logo critiquei os psicanalistas, para quem tudo parecia possível. “Esses psicanalistas não têm lógica”, eu dizia; “Tanto podemos nos refugiar da realidade no sonho, quanto ao contrário”. Hoje penso que a culpa não é dos psicanalistas, mas de nós mesmos, dos seres humanos. Ou melhor: da relação complexa que mantemos com a realidade.

De fato, não somos diretamente ligados ao real, nem completamente dissociados dele. Estabelecemos uma relação mista, uma mistura: subjetivamos os dados reais, sonhamos parte da realidade, usamos a imaginação a palavra, o pensamento – como intermediários de nossa relação com a realidade. É como se a realidade fosse uma panela muito quente, que precisasse de pegadores para ser manejada. Os sonhos são os nossos “pegadores”, os intermediários entre nós e uma realidade muito quente para ser tocada sem proteção.

Como, então, seria possível ‘fugir’ para a realidade – e, ainda mais, fugir do sonho? É que também temos sonhos ‘quentes demais’, sofridos demais. E, diante deles, nossa realidade cotidiana – aquela que já nos acostumamos a manejar, aquela que nos parece ‘dominada’ o suficiente – é que funciona como intermediária, como proteção.

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Obviamente, entre esses dois extremos, todas as misturas são possíveis. Podemos necessitar de doses cavalares de sonho, porque nada em nossa realidade é reconfortante – como nos casos de idealização -, ou, ao contrário, podemos nos sentir tão à vontade no real que perdemos o contato com o mundo interior, o mundo dos sonhos – algo muito próximo do que parecemos estar buscando, em nossa cultura atual.

Mas uma verdade permanece, entre os extremos: há vivências difíceis, nos sonhos, e também na realidade. Viver é complexo, e somente nossa cultura poderia pretender sustentar algo como uma vida que fosse sempre e somente feliz. Aqui, idealização e falta de contato com o mundo interno se encontram.

O resultado, que não é percebido, é que a vida perde em profundidade. São as experiências amargas da vida que dão parte da doçura que encontramos em outras experiências. É o contraste com o sofrimento que nos faz tão satisfatório o prazer. Comer depois de estar saciado nunca será tão bom quanto comer com fome – por melhor que seja o prato. Mas quem teria ouvidos para esse elogio do sofrimento nos dias de hoje?

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