Festas & trabalho. Vocação. Reflexões de fim de ano.

Com a chegada do fim do ano, me dou conta de que não sou muito chegado em festas. Nunca fui, na verdade. Sempre me pareceu um território estrangeiro.

Não é que eu não me divirta, ou não encontre algum valor, nessas reuniões. Mas minha personalidade sempre foi atraída pelos questionamentos da existência. Pensar, questionar, ler, aprender, descobrir, são coisas muito mais afins ao meu espírito, e eu de certa forma descanso, relaxo – me encontro -, quando posso novamente retornar para minhas velhas questões.

Mesmo que isso seja trabalho. De forma geral, percebo que eu organizo o meu trabalho de forma que ele seja sustentável a longo prazo, isto é, de que ele não me canse em demasia, de forma que eu não precise descansar a cada semana ou a cada ano.

Idealmente, portanto, eu trabalharia todos os dias, sem férias, ou com poucas férias. E, também, sem muitas festas.

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Claro que isso ocorre porque meu trabalho não é qualquer trabalho. Como disse acima, em meu trabalho me encontro. Ou, antes, meu trabalho é uma espécie de continuação de algo que sempre fiz, algo em que me reconheço e que provavelmente faria de qualquer jeito, sendo pago ou não.

Isso faz com que no trabalho eu encontre uma possibilidade de ser eu mesmo, enquanto exerço uma atividade com reconhecimento social. Ou seja, há uma troca, um contato, entre algo bastante pessoal, e algo valorizado pela sociedade.

Falando assim, tudo parece um mar de rosas, mas nem sempre foi assim. Eu não me reconheci psicólogo ‘de cara’. Pelo contrário, foram necessários uns bons anos, além de uma boa análise, para que eu me ‘aproximasse de mim’, e me apropriasse desse meu ‘fazer’ como algo efetivamente meu.

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Falar em ‘vocação’, em retrospecto, é fácil. Tendo já vinte anos de estrada, a gente de certa forma ‘se casa’, se mistura, com a profissão. Imagino que isso aconteça com muita gente, ou ao menos com quem tem sorte de não ter um chefe muito ruim, ou permanecer no trabalho por tempo suficiente.

Muito mais difícil é perceber para o que tendemos quando somos mais jovens. Lembro que meu primeiro vestibular foi para medicina. O segundo, para jornalismo, porque queria algo ligado à escrita. Por fim, fiz psicologia – que, olhando agora, parece uma mistura bem sucedida entre medicina e escrita…

Então sim, a gente tem nossas potencialidades desde cedo, mas nem sempre consegue ‘casar’ elas com as oportunidades de emprego disponíveis. Isso, claro, quando temos escolha.

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Voltando às festas, acredito que para elas também existe ‘vocação’. As festas que gostamos certamente são aquelas onde existe alguma troca entre mundo interno e mundo externo, onde algo nosso consegue se conectar aos acontecimentos exteriores. Assim como deve haver pessoas que são mais festeiras, mais vocacionadas para o tipo especial de troca que as festas permitem.

Isso fica facilitado quando sentimos, pessoalmente, qual o sentido social daquela festa específica. O carnaval, por exemplo, era uma festa ligada à fartura que a primavera trazia para a agricultura. Ou seja, as pessoas não iam mais passar fome. O carnaval era uma promessa de felicidade, ligado a algo muito concreto. Logo, as pessoas ficavam realmente felizes. Hoje, seu sentido se transformou, e a felicidade “suposta” pela festa precisa ser recriada, pessoalmente. Nem todos conseguirão.

As comemorações de fim de ano também devem ter uma origem concreta, ligadas, talvez, à passagem do tempo. Numa sociedade onde a morte existe culturalmente, por exemplo, comemorar ‘o ano novo’ pode significar que vivemos um tanto à mais, e vencemos a morte onipresente. Isso já não funciona em nossa cultura, pois evitamos pensar na morte, recalcamos sua existência simbólica. Com isso, perdemos um dos fundamentos de se ‘comemorar’ o fim de ano.

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Coisa estranha, nossa cultura valoriza tanto a felicidade, mas recalca um dos ingredientes fundamentais da mesma, que é o sofrimento –

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