Interação mente x cérebro. Identidade.

Num de seus livros, A. Damásio relata uma cirurgia onde, por acidente, uma pequena e específica área do cérebro foi ativada pelo médico, resultando num incontrolável sentimento de bem estar e alegria no paciente (que estava acordado durante o processo). Alguns centésimos de milimetro adiante, essa mesma ativação provocou uma intensa depressão, carregada de sentimentos tristes e ideias auto-depreciativas.

Os médicos, estupefatos, haviam descoberto uma espécie de “botão” do humor. Dadas as diferenças entre os cérebros individuais e também a milimétrica precisão necessária, não dispomos – ainda – dos meios para tornar essa experiência repetível, mas é provável que, num futuro próximo, remédios ou intervenções nos deem esse tipo de controle sobre nosso próprio humor.

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Esse tipo de experiências é um tanto surpreendente para um psicólogo, pois estamos acostumados a ver tais mudanças ocorrerem em função do “psicológico” mesmo, isto é, da ativação ou não de nossas memórias, da maneira como nossa história de vida se entrelaça com os acontecimentos do presente, etc.

Não há porque escolher entre uma ou outra dessas perspectivas. Provavelmente, uma visão integrada de nosso aparelho mental incluiria tanto a capacidade cerebral de produzir, do nada, um estado de humor, quanto a capacidade de que esses estados sejam produzidos a partir de nossa história de vida.

O conceito de “neuroplasticidade” dá conta dessa interação que, hoje, sabemos que acontece: tanto o cerebral influencia no nosso “psicológico puro” (memórias, ideias, pensamento, etc) quanto o psicológico influencia em nosso cérebro, podendo inclusive acarretar alterações profundas nele (ver, por exemplo, aqui).

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Em seu livro “Homo Deus”, Y. Harari argumenta que, vencidos os principais ‘inimigos’ da humanidade – a fome, as doenças e as guerras – , o ser humano provavelmente se voltará para novos desafios, entre eles o de conquistar uma vida mais longa e mais feliz.

Não há porque pensar que essa felicidade será alcançada por meios indiretos, como mudanças no estilo de vida ou terapias. Provavelmente, assim que descobertos os meios, intervenções diretas – como a cirurgia acima mencionada – serão vendidas e se tornarão um hábito de consumo cotidiano. “Teve um dia ruim no trabalho? Tome uma cápsula de X, e seja feliz”. A felicidade estará ao nosso alcance. Porque não a usaríamos?

Pense em você mesmo. Se tivesse acesso a uma pílula que instantaneamente melhorasse o seu humor, você se empenharia em mudar uma situação difícil, como um casamento que desanda ou um trabalho que não faz sentido? Seja honesto. Mudar situações difíceis é sofrido, e muitos de nós provavelmente não encarariam essas mudanças se não fossemos obrigados a isso.

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E aqui chego no meu ponto: a possibilidade de mudar nosso humor de forma dissociada daquilo que nos acontece traria grandes implicações em termos de identidade e da forma como nos relacionamos com a realidade que nos cerca.

Acontece que nossa identidade se enraíza em nossa história. Mas nossa história não tem correlato necessário no cérebro. Vale dizer, com a mesma estrutura cerebral, podemos ter histórias de vida – modos de ser – completamente diferentes.

Mas um remédio ou intervenção do tipo de mencionamos não levaria isso em conta; apenas atuaria sobre os centros de regulação do humor, provocando um estado de felicidade que não encontraria correlato na história de vida do sujeito, nem em suas relações atuais.

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O resultado disso seria, talvez, uma dissociação cada vez maior entre as situações concretas aonde o sujeito está inserido – sua realidade, mas também sua história de vida – e a experiência de “ser” imediata, isto é, o modo como o sujeito “se” sentiria.

Uma experiência análoga, já disponível hoje, é a da drogadição: nela, por pior que estejam as condições concretas de vida do sujeito, ele pode estar “se sentindo” bem, já que esse sentir não vem da realidade, mas do efeito químico da droga.

O sentimento de si mesmo e a realidade onde esse si mesmo se insere ficam dissociados.

(Há um óbvio componente quantitativo aí; alienação demais é, com certeza, um problema, mas sabemos, por outro lado, que não vivemos nunca um estado de “alienação zero”; tudo indica que nossa linguagem e consciência já são distorções dos dados concretos, e nossa saúde mental provavelmente depende disso, como argumentei aqui).

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Concluindo, podemos especular que a natureza, em seu trabalho de construção da maquinaria humana, incluiu nela o sofrimento como uma ferramenta poderosa de mudança. Essa ferramenta, no entanto, não esteve nunca dissociada dos acontecimentos concretos que cercavam o homem.

Tanto que, em seu estado natural, o homem, sua história, e as condições do ambiente, estão em continuidade. A tristeza que nos acomete deriva de algum acontecimento real, mesmo que passado. Não ficamos tristes ou alegres do nada. Nosso humor é um índice da maneira como vivemos a vida. Nosso mundo interno e o mundo externo estão em permanente interação, co-produzindo-se.

Esse tipo de intervenção direta que o futuro nos traria, ao mesmo tempo que nos tira dos grilhões da realidade e da tristeza, também nos aliena. O que pode trazer consequências indesejadas, pois quem vai querer lidar com a realidade se não formos mais obrigado a isso?

Por outro lado, essa mesma escassez de realidade poderia produzir um efeito benéfico, ainda que paradoxal: a valorização do sofrimento como ingrediente necessário ao crescimento emocional humano. Algo que quase toda ética vem insistindo faz muito tempo.

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