Heranças. Coisas essenciais.

Chegando perto da metade da vida, a gente vai se dando conta de tantas coisas que não sabia… Coisas simples, mas fundamentais, que nunca pensei, mas que – hoje – gostaria de ter pensado. Talvez conversado sobre isso com alguém?

É provável que eu não fosse ouvir; é prerrogativa dos jovens errar por ‘saber demais’. Mas, quem sabe? As vezes somos figados pelas coisas, temos a sorte de ser despertados para um ou outro lado, e isso pode mudar o rumo das nossas vidas.

Pense numa pequena pedra colocada próximo ao tronco de um broto de árvore. Essa pedra tem o potencial de alterar toda a rota de crescimento da futura planta. Depois de crescida, no entanto, a árvore não poderá mais ser deslocada facilmente.

***

O trabalho, por exemplo, é uma dessas pequenas ‘pedras’. Ninguém me disse que o trabalho era tão importante. Melhor dizendo: ninguém me disse que ele seria importante para mim como pessoa; para minha identidade e subjetividade. Para além da subsistência, em resumo.

Mas passamos grande parte de nossa vida nele; como ele não nos influenciaria, de diversas formas? No meu trabalho eu obtenho um reconhecimento – meu lugar social está ligado ao trabalho e, querendo ou não, eu sou aquilo que faço, para grande parte de meus iguais.

(Muitas vezes, as pessoas se tornam o seu trabalho, a ponto de entrar em crise quando são obrigadas a se separar dele – como na aposentadoria, por exemplo).

***

Fundamentalmente, ter um trabalho significa encontrar um meio honesto de pagar o próprio sustento. É uma espécie de acordo entre o sujeito e a sociedade, e isso não é pouco, ainda mais quando pensamos na quantidade de impulsos contrários ao esforço – e à honestidade!! – que todos nós temos.

A sociedade desmoronaria se todos resolvêssemos abdicar do trabalho.

Por isso é tão importante, e também tão difícil, encontrar um bom trabalho. Muitas vezes não temos escolha, é verdade, mas poder escolher também não resolve tudo. Somos muito ‘verdes’, em geral, quando estamos em idade de escolher uma profissão. Trata-se de criar uma ponte entre nosso presente e um futuro que desconhecemos.

O ideal seria, creio eu, mais ou menos o oposto do que fazemos hoje. Isso é, poder ter experiências concretas de trabalho ainda na infância, e ir fazendo uma transição suave entre trabalhar como ‘brincadeira’ e trabalhar de fato. Assim estaríamos mais expostos aos condicionantes de nossa existência, e faríamos uma escolha baseada menos naquilo que imaginamos, e mais naquilo que vivemos.

***

E por falar em condicionantes, temos na família uma segunda ‘pedra’, algo certamente importante. Sei que muitos tem dificuldades de relação com a família – bom, a psicanálise praticamente se erigiu em cima disso, rsrsrs – mas o fato é que, querendo ou não, continuaremos muitas coisas que eles começaram.

Tudo aquilo que pretendemos ser ‘nosso’, pessoal, só existe apoiado no trabalho da família, naquilo que eles fizeram (ou deixaram de fazer). Muitas vezes, carregamos dívidas da família, ou herdamos dividendos, sem nem perceber. Mas é assim: família não se escolhe, e eles definem – facilitam ou dificultam – grande parte de nossa vida.

Diria que temos liberdade para encontrar as respostas que importam. Mas muitas das perguntas são colocadas por nossa família –

***

A herança familiar existe tanto no sentido patrimonial quanto no sentido emocional. É nítido que isso joga um papel fundamental na nossa vida ainda hoje (digo ‘ainda’ porque a família parece estar “em baixa”). Penso especialmente naquela herança vivida, aquela que adquirimos sem perceber, aquilo que faz você ser educado demais para algumas coisas, ou ser essencialmente mal educado, por mais que se esforce.

Está além de você: sua educação vem das mil e uma experiências que você viveu, viu e compartilhou, com seus pais, com aqueles que estavam próximos, com aqueles que você admirou. Você é o resultado desses encontros, e muitas armadilhas podem ter sido desarmadas por isso – ou, pelo contrário, deixadas em seu caminho. Sem contar as famílias que montam armadilhas novas a cada passo…

A herança é, sim, o dinheiro. Mas é principalmente a educação que você incorpora consigo, daquilo que seus pais foram. E isso é muito importante, podendo inclusive definir como você vai lidar com a herança financeira, o dinheiro que recebeu (o que ajuda a pensar porque é tão comum os filhos ou netos dilapidarem a herança dos pais / avós).

***

Outra pedrinha fundamental são os amigos. Trabalho e família definem grande parte de nossas amizades futuras, mas, inversamente, os amigos também ajudam a definir aquilo que escolheremos fazer em relação a esses dois grandes temas.

As amizades – e aqui incluo os romances, a pessoa que escolheremos para dividir nossa vida – são uma espécie de ‘segunda família’, e nesse sentido permitem compensar as falhas do nosso meio, ou perpetuá-las. Tendemos a nos tornar parecidos com as pessoas com quem convivemos, então é fundamental estar perto de pessoas que se pareçam com aquilo que a gente quer.

Pense nisso: as pessoas que estão ao seu lado são como partes de seu mundo interno – ou imagens de seu futuro, por assim dizer, daquilo para o qual você tende. É isso que você quer? Essa é uma escolha fundamental.

(Quando vejo a avalanche de críticas que se tornaram nossas redes sociais, penso sempre na relação conturbada que as pessoas estão tendo com elas mesmas; porque é claro que grande parte dessas críticas reflete a relação das pessoas com suas próprias escolhas. Mas divago).

***

Enfim, o mundo muda, a tecnologia avança, mas algumas questões fundamentais continuam, mesmo que não apareçam no noticiário. A vida comum se alicerça em escolhas desse tipo, de longo prazo, construídas gota a gota, dia a dia. Somos um reflexo daquilo que nos rodeia, e, consequentemente, tendemos a ser rodeados por aquilo que somos. Com o que, voltamos sempre à questão fundamental: o que é que você quer? –

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s