Linguagem como espaço transicional

Em post anterior discuti a teoria de Winnicott em relação à linguagem. Neste, quero avançar um pouco mais nessa direção.

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A genialidade – e a dificuldade – de Winnicott está em sua simplicidade. Contra décadas de teorização complexa e polarizada em torno do estatuto psicológico da linguagem – ela nos aproxima do real, ela nos afasta do real -, o autor, como bom inglês, discretamente observa que “”Apenas na brincadeira a comunicação é possível” (Winnicott, 1971d, citado por Ogden, 2018, pg 234).

Mas o que significa isso? Em Winnicott, muitas coisas… “Brincar” é um conceito com que ‘não se brinca’. Muitas coisas se relacionam com esse ‘brincar’.

Grosso modo, para nosso autor, começamos a vida psicológica misturados com o ambiente. Ainda incapaz de diferenciar “eu” de “não-eu”, a criança viveria suas próprias necessidades como estrangeiras – seriam “não-eu”, se já houvesse um “eu”. As respostas do ambiente, pelo mesmo motivo, também seriam “não-eu”.

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Acontece que ainda não há um “eu”. Logo, essas experiências todas, as do corpo e as do ambiente, pertencem, do ponto de vista da criança, ao mesmo “lugar”. Esse lugar, Winnicott chamava de “mãe-bebê”, sublinhando a unidade que haveria nessa ‘dupla’, nesse “dois-em-um”.

Mãe e bebê, do ponto de vista da psicologia nascente da criança, seriam uma só e mesma coisa. Logo, não haveria necessidade de comunicação “entre” eles. Seria a partir dessa perspectiva que o “Eu” se formaria (cristalizando, numa forma individual, aspectos da relação pré-subjetiva com o ambiente).

Dito de outra forma: entre mãe e bebê, no início da vida, a extrema imaturidade psicológica da criança, mais a adaptação da mãe às suas necessidades, criariam as condições para que, do ponto de vista da criança, houvesse uma espécie de comunicação perfeita, ou entendimento perfeito. Ou ao menos a esperança de que isso seja possível.

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Com isso não quero dizer que a mãe entende exatamente o que o filho necessita, demanda ou expressa. Quero dizer que, do ponto de vista do filho, suas necessidades são atendidas. A “perfeição” a que – ironicamente – me refiro só faz sentido do ponto de vista da criança.

Isto é, supondo sempre uma maternagem suficiente, é provável que a criança consiga construir a ilusão de uma comunicação imediata. Ela ainda nem existe como “Eu”; ela mal saberia expressar as necessidades desse “Eu”, se ele existisse. E, no entanto, vem essa mãe-ambiente e atende suas necessidades.

E isso é tudo o que a criança necessita. Não que suas necessidades sejam atendidas em sua especificidade, mas apenas que sejam atendidas. Devemos ter sempre em mente que a capacidade discriminativa da criança (em termos psicológicos) ainda é muito pequena. Logo, mesmo as eventuais falhas de adaptação da mãe poderão não ser percebidas pela criança (obviamente, até certo ponto).

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Por isso, para a criança, sua comunicação com o ambiente pode parecer realmente “perfeita”. Para deixar ainda mais claro: não há comunicação nenhuma ai, rigorosamente falando, simplesmente porque ainda não há sujeito. Mas as trocas de experiências, a adaptação recíproca aos ritmos, às demandas, o estar junto dividindo as experiências, tudo isso vai deixando na criança uma impressão de entendimento, ao menos possível.

E quando, mais adiante, a criança começar a efetivamente constituir sua subjetividade a partir desse tipo de experiência, alguma coisa relacionada à comunicação vai estar presente. E o que seria isso, senão uma espécie de confiança de que algo do que ela necessita pode ser compreendido?

Pois bem, é isso que Winnicott está dizendo: que essa confiança é o começo de toda comunicação. Sem esse pressentimento vago de que há, em algum lugar, alguma coisa que me entende, a comunicação seria impossível.

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E assim, chegamos na brincadeira. Porque brincar é, efetivamente, reconectar-se com esse momento onde entre o bebê e a mãe havia um espaço de indiscernibilidade. Onde havia uma mistura, que fazia parecer que mãe e bebê formavam uma unidade; logo, onde a comunicação era possível, porque eles eram “um”.

Brincar é buscar tornar-se “um” com o real. Simples assim. Ou, mais exatamente, é jogar com o paradoxo de perceber a realidade como não-eu mas, ao mesmo tempo, trazer consigo o registro, a marca, de uma relação com a realidade vivida como parte do “Eu”.

Exatamente o mesmo acontece com a linguagem. Se a linguagem é análoga ao objeto transicional, poderíamos dizer, também aqui, que falar é buscar tornar-se “um” com o outro. Sob a mesma ressalva, porém: vivemos o “outro” como “não-Eu”, mas, ao mesmo tempo, confiamos que algo, nele, pode ser vivido como “Eu”.

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Obviamente, não nos tornamos “um” com aqueles com quem falamos; nem nos tornamos “um” com a realidade. Mas o que Winnicott nos convida a perceber é que sem a ilusão de que isso seria possível, não teríamos meios de instaurar uma troca, seja com o outro, seja com o real.

Na minha maneira de entender, é como se cada um de nós tivesse uma vida dupla, formada por experiências diferentes. De um lado, temos uma corporalidade comum em muitos aspectos, assim como uma realidade comum. Há também uma vivência de “diluição” de nossa subjetividade no cuidado materno, que nos daria a confiança de que sim, alguma troca é possível, porque entre nós e o outro as distâncias não são tão grandes.

Por outro lado, temos as vivências de nossa especificidade, as coisas que só a nós dizem respeito. Essas bem poderiam ser incomunicáveis, pois é como se cada um construísse uma linguagem própria para falar de si – linguagem que o ‘outro’ teria muita dificuldade de entender.

Pois bem, a comunicação seria um processo que acontece entre esses dois extremos. Entre um aspecto da experiência que é grandemente compartilhado e outro onde a singularidade impera, há um “meio do caminho” que mistura ambos. Esse espaço intermediário, que aproximei do “espaço transicional”, é, para Winnicott, o espaço da linguagem –

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Notas:

Thomas H. OGDEN (2018). “A matriz da mente. Relações objetais e o diálogo psicanalítico”. São Paulo: Blucher

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