À luz do crepúsculo

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“O que sabe propriamente o homem sobre si mesmo! […] Não lhe cala a natureza quase tudo […] Ela atirou fora a chave: e ‘ai’ da fatal curiosidade que através de uma fresta foi capaz de sair uma vez do cubículo da consciência e olhar para baixo, e agora pressentiu que sobre o implacável, o ávido, o insaciável, o assassino, repousa o homem, na indiferença de seu não-saber, e como que pendente em sonhos sobre o dorso de um tigre” (Nietzsche, in “Sobre verdade e mentira num sentido extramoral”)

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Todo aquele que já sofreu o suficiente verá com bons olhos o riso, acolherá a brincadeira como salutar descanso, será precavido com as certezas. A juventude, pelo contrário, se caracteriza pela certeza audaciosa e imatura com se que lança à frente, além de um certo desdém pelo pueril.

Com a experiência vem o cansaço, a resignação, a paciência. Ganha-se em compreensão, perde-se em potência. O novo tem muito mais força do que juízo, e necessita “sovar-se” no encontro com a realidade dura, para aos poucos conformar-se.

Nessa métrica, nossa cultura certamente tomou pra si a defesa do jovem, e tal como ele pretende saber de tudo. Questões difíceis da existência, que povos inteiros combateram por milênios, nós as resolvemos as dúzias – antes do jantar. Sabemos o que é felicidade, sabemos como nos conduzir na vida. Sabemos tudo o que importa. Com o quê, o que não sabemos… não nos interessa!

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Penso que Nietzsche advertia justamente contra essa confiança excessiva em seu próprio saber. Como representante de um outro tempo, já em seu primeiro livro, “O Nascimento da tragédia”, embaralhava as coisas e colocava em questão justamente aquilo que parecia mais certo: a supremacia de Apolo – da clareza, da luz, da razão, do conhecimento – sobre Dionísio – o obscuro, as trevas, a paixão, o corpo.

Esse era o tema romântico por excelência, mas para além da valorização do obscuro – Sturm und Drang – Nietzsche também permite que se questione a própria necessidade de resolução da dualidade. Apolo ou Dionísio? Porque não: … Apolo e Dionísio?

E se a Grécia antiga, todo o esplendor daquela cultura até hoje cultuada, fosse um desenvolvimento e uma manifestação dessa tensão entre opostos? Tensão que não estava ali para ser resolvida – mas para ser… vivida, sofrida, ou, talvez até… intensificada?

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É nesse contexto que Sócrates seria um representante do declínio da cultura helenística, diz Nietzsche [1]. Pois Sócrates não teria sabido levar adiante a tensão. Sócrates precisou resolver a dualidade, tomando, como sabemos, o partido da luz.

Nossa cultura seria, nesse sentido, amplamente socrática. Não há o menor resquício da valorização antiga daquilo que não sabemos – o obscuro em nós mesmos, as nossas sombras.

Não temos um lugar para isso, em nossa cultura, que não seja um lugar de exclusão.

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A psicanálise talvez seja, nesse contexto, uma espécie de retorno aos gregos.

Não porque ela valorize o desconhecido “em si”, como se buscasse impedir o avanço do conhecimento, ou devesse ser obscura. Mas porque ela reconhece o desconhecido em nós. Ela reconhece que cada sujeito vive algo de si mesmo na luz, mas também nas sombras.

Trata-se de um passo adiante no conhecimento, e não um passo para trás. O reconhecimento de que nossa subjetividade não se resume à consciência, mas que há um inconsciente que, inclusive, muitas vezes nos governa.

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E é a psicanálise quem nos adverte, sempre que a recusa é rígida demais, que é possível que ela responda a alguma outra coisa. Como se nós, nossa cultura da luz e do conhecimento exclusivos, no fundo temêssemos justamente algo – tivéssemos medo do escuro, e, como as crianças, precisássemos dormir com todas as luzes acessas?

Como se nosso elogio da juventude frenética não passasse, no fundo, de uma certa angústia?

Sonhamos sobre o dorso de um tigre, e é perigoso acordar. Entre luz e sombra, nos momentos de crepúsculo, acessamos os dois extremos de nossa existência. Iluminando, assim, por contraste, nosso saber por nosso não-saber, é como se percebêssemos que buscamos a ignorância através do conhecimento.

É possível então, que estejamos usando a luz, a consciência, para nos cegar. Aceitamos de bom grado um punhado de verdades rasas, justamente porque sabemos, pressentimos, que elas não são tudo. E não queremos saber desse ‘tudo’.

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Na velhice, somos superficiais – por profundidade. Deixamos de saber muitas coisas – por sabedoria. Aprendemos a seriedade que existe no brincar, e brincamos com coisas sérias. Somos luz & sombra. Somos a linha que os separa e une, como a linha do horizonte.

Luz e sombra, Apolo e Dionísio, sonho e tigre. Nós unimos, por nosso próprio “ser”, essas duas metades. Assim, quando amadurecemos, aprendemos a apreciar as coisas à meia-luz. O conhecimento como algo “apenas” divino é uma ingenuidade, para esses homens muito velhos.

Sabemos, quando amadurecemos, que “saber” é, também, um demônio. Uma doença, da qual podemos perecer. Mas é preciso dar o que é devido também aos seus demônios –

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Notas:

[1] Ver “Ecce Homo”.

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