Winnicott e as estruturas em psicanálise

Em post anterior (link) argumentei que a análise do comportamento em si mesmo não nos daria todos os elementos, em psicanálise, para a compreensão de seu sentido para cada sujeito específico. Logo, na construção de um diagnóstico, o comportamento apenas não seria suficiente.

Dado o caráter mutável dessa acepção do comportamento, dificuldades não apenas diagnósticas, mas científicas, rondariam o fazer psicanalítico. Em contraste com essa ‘supremacia da particularidade’, é comum apresentar a noção de estrutura, sugerindo que ela seria mais generalizável, e permitiria portanto melhores diagnósticos e abordagens mais científicas.

Na prática, as coisas não são tão delimitadas assim. Nem o comportamento é infinitamente variável, nem as estruturas teriam essa pureza almejada pelo saber científico. Mas, em termos didáticos, podemos trabalhar com essas noções, sabendo que este é, na verdade, um debate ainda em aberto. Há toda uma discussão em psicologia sobre se é possível estabelecer critérios diagnósticos fixos para os transtornos mentais.

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Mas essa é outra história. Voltando ao comportamento individual, na verdade , ele nunca é tão “individual” assim. Quando paramos pra pensar na miríade de comportamentos diferentes que poderíamos ter, se não compartilhássemos uma série de condicionantes, teríamos que concluir que o entendimento mútuo entre sujeitos singulares seria impossível. Mas não é isso que acontece.

Na verdade, existe apenas uma fina camada de “particularidade” sobre um gigantesco fundo de comportamentos comuns. O que a psicanálise insiste é que essa ‘fina camada’ precisa ser escutada. Embora pequena, ela seria importante para entender o comportamento de cada sujeito específico, assim como o sentido de seus transtornos.

Se os sintomas ou comportamentos apontam para essa valorização do individual, a noção de ‘estruturas’ procura integrar justamente o que aponta para o mais geral. Uma parcela do comportamento que pode ser generalizada, digamos assim, embora em estreita interação com aqueles aspectos mais idiossincráticos.

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Freud não se expandiu muito em termos de estruturas diagnósticas, estando mais focado na diferenciação entre “neurose” e “psicose”. Grosso modo, na neurose, o sujeito negaria o seu desejo, mas manteria uma relação com a realidade. Na psicose, a recusa se daria sobre a realidade, quando ela entrasse em oposição ao desejo.

Assim, as grandes estruturas freudianas se dariam em termos da oposição desejo x realidade. Lacan foi o grande continuador dessas tentativas, estruturando a posição do sujeito em relação aos modos de lidar com o desejo e suas interdições (onde entram o gozo, as relações com o Outro, os laços sociais, etc).

Winnicott parece não ter dado muita importância para a noção de estrutura, sendo provável que isso decorra de sua noção de subjetividade, calcada na centralidade do movimento criativo, ou, dito de outra maneira, na percepção de que a fixidez da estrutura tem mais a ver com as defesas do que com o “ser” próprio do sujeito.

Nosso “ser” seria um contínuo amadurecer. As estruturas, aí, seriam ou biológicas, ou relativas à falhas no amadurecimento (falhas em “continuar a ser”). Ou ainda: há estruturas que derivam de nossa natureza humana (link), mas isso não diz muito sobre a forma com que cada um estruturou essa natureza em si mesmo, de fora particular.

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Até onde sei, Winnicott é uma exceção, na psicanálise, com sua acepção de que o ser – a saúde – não é estruturável ‘a priori’, digamos assim. Apenas a doença se aproxima de uma fixidez do tipo causa-efeito, mas, mesmo aí, são raros os casos onde temos condições de realmente prever o modo particular como uma doença se desenvolverá.

Isso acontece porque, usando uma imagem winnicottiana, nossa prática clínica se dá num “entre”, num meio do caminho, entre as estruturas gerais e a forma particular como cada sujeito resolveu, montou, integrou, a problemática envolvida nessas estruturas.

Dito de forma mais simples: há sempre necessidade de descer à história pessoal de cada um, para entender a maneira particular com que cada sujeito resolve problemas (mesmo problemas que seriam universais ou estruturais).

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Winnicott define, por exemplo, conforme Elsa Dias (link), que a natureza do distúrbio psíquico está relacionada ao ponto, no amadurecimento, em que o bebê perdeu a esperança de comunicar ao ambiente que algo vai mal.

Essa é uma noção estrutural, que valeria para todos os sujeitos / transtornos. Mas, na clínica, é preciso ver como cada sujeito particular viveu essa perda da esperança; como ela se integrou à sua história; quais os sentidos que remetem à esse acontecimento estruturante, etc.

Embora a forma particular de inscrição da estrutura no sujeito não caiba numa generalização científica, a estrutura cabe, e é perfeitamente verificável (ou refutável, falseável, como se diz na teoria de Popper).

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