Deixem a criança dormir

Uma das muitas ideias ‘simples’ de Winnicott que se mostram cheias de consequências quando nos damos ao trabalho de pensá-las é a noção de que a criança humana, logo depois de nascer, precisa sobretudo dormir. E com isso estou querendo dizer não apenas descansar, mas não ser desperta, não ser obrigada a prestar atenção, não precisar reagir. Poder se entregar aos processos de crescimento que acontecem nela, de forma natural.

Isso é o outro lado da moeda de que, para poder maturar, a criança humana precisa ser cuidada. Se ela deve ‘dormir’, alguém tem que ficar acordado. Alguém tem que lidar com a realidade por ela. Ou seja, a manutenção do sono da criança é uma das expressões da dependência.

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Muitas coisas se alinham, nessa simples ideia. A primeira é a de que o crescimento psicológico pode acontecer (talvez deva acontecer) ‘no escuro’, isto é, na inconsciência, no não-saber. Há em Winnicott toda uma defesa da criatividade como movimento regressivo, algo que acontece quando relaxamos nosso controle sobre a realidade / subjetividade, e nos deixamos tomar pelos processos vitais que nos atravessam.

Isto é, não exatamente controlamos nossa criatividade; nos entregamos a ela, mais ou menos como no sono, que também não controlamos (no máximo organizamos as condições ideais para que o nosso sonho venha, mas “ele” é quem manda). Quem já teve insônia sabe: somos passivos em relação ao dormir, exatamente porque ele só acontece quando retiramos nosso controle de cena.

Essa é uma ideia que vai contra toda uma moral de valorização do nosso ‘poder pessoal’ – ou ao menos a transforma, num sentido muito interessante… Aceitar que parte do nosso crescimento subjetivo não depende diretamente de nós é, para nossa cultura, uma grande frustração. Isso também é verdade para a dependência, que implica, como tal, numa entrega ou abdicação do controle, que pode ser extremamente difícil.

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Outra consequência dessa ideia simples de Winnicott é a de que a criança não deve acordar, não deve ser obrigada a lidar com a realidade, porque ainda não dispõe dos recursos necessários para isso. Ela é extremamente imatura; tudo indica que ‘acordar’ cedo demais, de forma prematura, inibe os processos de maturação que ocorreriam no relaxamento, isto é, na inconsciência. Por outro lado, ela não terá condições de encontrar boas soluções.

A confiança no ambiente protetor – o ambiente que deveria zelar pelo sono do pequeno ser – se foi. Ele precisa agora defender a si mesmo. Mas, com isso, não poderá mais relaxar – e maturar -, porque sua própria consciência, sua própria relação de controle com a realidade, é como uma luz sempre acesa, dificultando o descanso. A não ser que ele encontre alguém que atue como esse ambiente protetor e lhe permita ‘desligar a luz’ da consciência, ele dificilmente conseguirá conectar seus processos de maturação com o real.

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Uma última consequência que gostaria de destacar é que a aprendizagem também necessita desses processos de descanso. Hoje existe um entendimento neurológico de que o sono é importante para a consolidação das memórias, mas faz muito tempo que a psicanálise percebeu que “aprender” NÃO É um processo automático e mecânico, que aconteceria à revelia do sujeito.

Ou seja, não basta ser exposto à um conhecimento. É preciso também ter as condições emocionais para sustentar esse conhecimento, senão simplesmente “não aprendemos”. Parte dessas condições tem a ver com o sono, com o descanso, com o relaxamento. Com os processos maturacionais e de integração que acontecem enquanto dormimos.

(Jung dizia dos esquizofrênicos que eles “não esqueciam, e não aprendiam, nada”. Vemos isso muitas vezes na clínica, onde as pessoas repetem sempre os mesmos erros, não – ao menos para a psicanálise – por problemas de percepção ou cognitivos, mas porque algo, nelas, não consegue aprender com a experiência, nesse ponto específico).

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Fiquei pensando se essas ideias poderiam ser transpostas com ganho para o âmbito nacional. Assim, por exemplo, o Brasil poderia ser comparado com uma criança ainda muito nova, sem recursos próprios para lidar com a realidade, e precisando, de acordo com o que vimos, sobretudo de relaxamento, de entrega, de confiança em um ambiente cuidador adequado.

Esse ambiente seria nossa política, a qual, infelizmente, não parece estar cumprindo seu papel de ‘guarda sono’ dos brasileiros – e isso faz tempo. Os processos de maturação do país seriam, por um lado, as instituições, a economia, as leis, e por outro a educação, entendida como uma forma de integrar no corpo de cada um esses direcionamentos sociais.

Sem poder ‘dormir’ o suficiente, o país também não teria as condições maturacionais necessárias para integrar seu passado à sua história, sofrendo de “problemas de aprendizagem” – ou, o que dá no mesmo, tendendo a repetir, em ato, os atravessamentos de sua história, sem espaço para pensá-los, transformá-los, subjetivá-los.

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Estaríamos fadados, então, a um despertar precoce e reativo. Nossa história ‘pessoal’ como nação obrigou que tomássemos partido das coisas cedo demais, sem os recursos educacionais e institucionais necessários. O resultado disso, por analogia com o indivíduo, seria uma espécie de doença: paralisamos nossos processos maturacionais para dar conta das insuficiências do ambiente.

Incapazes de ‘aprender com a experiência’ em muitos pontos, estaríamos fadados a repetí-la, a projetá-la, a negá-la – usando mecanismos de defesa precários e primitivos.

Paradoxalmente, no quadro metafórico do sono brasileiro, apenas a arte aparece como solução integrativa – e mais realista – dos problemas do país. Pois a arte, como processo criativo, demanda uma posição regredida para funcionar, e com isso indica que, ao menos de forma incipiente, algum sono foi possível.

O que coloca a pergunta: Estaríamos então em condições de, pela arte, sonhar um Brasil mais maduro, uma maturidade possível, que nos entregasse as condições de finalmente estar à altura das dificuldades que nos atravessam?

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