Tradição e inovação

Winnicott foi um psicanalista eminentemente inovador, a ponto de muitos se perguntarem se ele ainda é um psicanalista. Ao mesmo tempo, ele constantemente reafirma sua ‘linhagem’, sua vinculação, à psicanálise tradicional.

Esse tipo de ‘paradoxo’ é típico em Winnicott, e encontra ecos coerentes em sua teoria.

Nesse post, quero falar disso: o homem Winnicott, e o teórico Winnicott, em seus aspectos de ligação / destruição da tradição.

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Winnicott como psicanalista tradicional – sem dúvida, essa faceta existe. O engraçado é ver que, para muitos autores, ele era tão tradicional que, no fundo, não acrescentou nada à psicanálise freudiana. Difícil é conciliar essa imagem com aquela outra, que pensa Winnicott tão fora da tradição que ele teria deixado de ser psicanalista. Mas enfim.

O fato é que ele se apega à tradição de uma maneira bem própria. Primeiro de tudo: ele sabia muito sobre Freud; ele conhecia muito sobre Klein. Ele não surgiu do nada. Nos seus textos dos anos 1930, nota-se um freudiano muito bem estruturado, conhecedor do todo psicanalítico, e, coisa esquisita, escrevendo com clareza (pra quem conhece seus textos mais tardios…).

Ele conviveu com Melanie Klein boa parte da vida, fez supervisão com ela, conhecia seus trabalhos. Então sim, como dizia Newton, se ele avançou, é porque estava apoiado em “ombros de gigantes”.

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Mas a partir dos anos 1940, o que se nota é um Winnicott cada vez mais… diferente. Também poderia dizer: pessoal. É como se ele começasse a se permitir ser cada vez mais “si mesmo”, e, nesse sentido, ir diferindo, aos poucos, da tradição.

Sua linguagem acompanha a mudança. Embora ele nunca tenha sido um “Lacan” em termos de incompreensibilidade de seus textos, é visível como seu estilo se torna mais pessoal, e também mais poético, mais paradoxal, à medida que suas inovações teóricas vão surgindo.

É como se suas descobertas clínicas não coubessem na linguagem comum. E mais: não coubessem também nos limites traçados pelos conceitos psicanalíticos tradicionais.

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Essa mudança encontra ecos significativos em sua conceituação mais própria. Winnicott insistirá na associação entre saúde psíquica e gesto pessoal: não é à felicidade que tende nossa alma, mas à pessoalidade. Transformar nosso gesto em algo cada vez mais nosso, para o bem e para o mal. Isso se parece com a saúde, para nosso autor, e não a consciência, ou o saber sobre si.

Na verdade, Winnicott é um dos psicanalistas que mais claramente defende uma certa “insciência” sobre si como parte da saúde. Ele era enfático em dizer que o terapeuta NÃO deve “saber demais” sobre o paciente, pois isso poderia ser invasivo, ou, pior ainda, poderia tolher a descoberta que o paciente mesmo poderia fazer sobre si; seu ‘gesto espontâneo’.

Isso valeria, creio, inclusive para a relação entre o sujeito e ele mesmo: surpreender-se consigo, desconhecer-se, num sentido positivo, é algo bem winnicottiano (haveria que diferenciar, aqui, o desconhecimento defensivo – uma negação da realidade, por exemplo – desse desconhecimento que é uma espécie de acolhimento ou afirmação de si enquanto processo criativo; mas isso fica pra outro texto).

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Winnicott também propôs que nosso gesto inaugural para a realização (emocional) de um objeto passa pela destruição do objeto na fantasia inconsciente. Isto é, ele positivou o gesto agressivo, como condição para uma relação “objetiva” com a realidade. Como se cada criança pensasse: “eu aceito perder o controle onipotente sobre esse objeto, desde que possa matá-lo continuamente (na fantasia)”.

O controle onipotente é mantido no inconsciente; mas, na consciência, estabelecemos algo novo, uma relação mediada por uma ‘outridade’ que é, as vezes, social, e, as vezes, objetal mesmo.

E é isso que vemos Winnicott, como pessoa, fazendo o tempo todo. “Matando” a psicanálise tradicional, para ‘se apropriar’ dela, de um modo objetivo – e subjetivo, ao mesmo tempo! Isso é muito Winnicott…

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Concluindo, achei importante trazer esse modo de relação com a tradição (ou com a autoridade, poderíamos dizer), porque ele evita duas posturas muito comuns hoje em dia, um tanto mais pobres, creio eu, que consistem OU na idealização do passado, OU em sua recusa.

Nesses dois extremos, algo se perde, seja porque deixamos de valorizar o presente que nos cerca, seja porque deixamos de aprender com o passado. A idealização ou a recusa maciça, no fundo, se equivalem, porque são posições absolutas onde apenas um lado é ativo (ou o passado, ou o presente). Não há trocas.

Winnicott nos propõe, bem ao seu modo, que é possível valorizar o passado e ao presente ao mesmo tempo. Distorcendo-o, contextualizando de novo e até redescobrindo o que já foi descoberto. O importante nisso tudo parece dizer nosso autor, não é, de novo, a ‘verdade’ de nossa filiação ao passado, ou a objetividade de nosso enraizamento presente. É o gesto pessoal. A pessoalidade como resultado dessa mistura única de passado e presente que somos –

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