A linguagem em Winnicott

Dentro da psicanálise, um dos grandes ‘desentendimentos’ ou diferenças teóricas existentes diz respeito à linguagem. Autores ligados à Lacan ou à escola francesa, em geral, entendem e valorizam a linguagem muito mais do que autores ligados à escola inglesa de psicanálise.

Como muitas questões dentro do universo da psicologia, essa é uma questão que ainda está em aberto. Os dois lados tem bons argumentos e provas empíricas para sustentar seus pontos de vista, e escolher uma visão ou outra acaba sendo uma questão mais pessoal do que ‘técnica’, por assim dizer.

Entretanto, talvez pela valorização menor que encontre na teoria winnicottiana, não é tão comum encontrarmos discussões sobre como a linguagem é vista por este autor. Neste post, quero falar justamente sobre isso.

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Winnicott não é um autor teórico. Com isso quero dizer que pouquíssimas, talvez nenhuma, de suas contribuições, começaram na teoria. Ele sempre se debatia com problemas práticos, problemas clínicos, e, a partir daí, procurava alguma coisa teórica que pudesse ajudar.

(É claro que esse confronto com a clínica já era informado por certas teorias; mas esse não é o meu ponto. Estou apenas dizendo que o foco de Winnicott não estava em construir uma teoria; ele estava muito mais preocupado em resolver os problemas práticos de sua clínica, e “se” uma teoria resultasse disso, ok).

Sua visão da linguagem também expressa esse ‘modus operandi’ (isto é, privilegiar a sua experiência em detrimento dos conceitos). Havia diversas teorias complexas sobre o estatuto da linguagem e seus efeitos na subjetividade dos bebês; mas… o que ‘dizem’ os bebês? Isto é, o que a prática clínica mostrava?

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Para Thomas Ogden (em “A matriz da mente”, pgs 207 e ss), Winnicott percebeu que quando mãe e criança se entendem bem, a linguagem é desnecessária. E isso faz todo sentido.

Dentro da teoria winnicottiana, a mãe ou quem exerce essa função deve adaptar-se suficientemente bem à criança, sustentando nela a ilusão de que não há diferença entre sonho e realidade. (abordei esse ponto em diversos post aqui do site, por exemplo, este e este).

Com isso quero dizer que, do ponto de vista da criança muito pequena (e “bem iludida”), deve parecer que suas necessidades são magicamente atendidas, como se a satisfação fosse apenas uma continuação da necessidade. Da mesma forma, essa mãe, confusamente percebida, não é ainda algo “não-eu”, mas apenas uma continuação dos poderes da criança, ainda num processo de descobrir o que é “si mesmo”.

O fundamental, segundo minha leitura de Ogden, é que num processo eficaz de maternagem, a criança não precisa nem de linguagem, nem de ego. Ela não precisa existir ainda como sujeito, especialmente se pensarmos na subjetividade como um aparelho para solucionar problemas.

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Poderíamos resumir tudo isso dizendo que a criança pequena deve encontrar um ambiente de tal forma adaptado à ela, que é quase como se ela ainda estivesse no útero; só que, agora, trata-se de um “útero psicológico”, formado pelos cuidados da mãe, pela sua adaptação e identificação com a criança.

Nesse ‘útero psicológico’, quero insistir, a linguagem é tão desnecessária quanto o foi durante o período no útero real. A tese de Winnicott é que a linguagem só passa a ser necessária à medida em que a adaptação da mãe à criança falha.

As falhas na adaptação – que são normais, e parte do desenvolvimento saudável, quando não excedem a capacidade da criança de lidar com isso – criam uma distância entre necessidade e satisfação. Com isso, a criança começa a perceber que há um espaço entre ela e sua mãe, e também entre sonho (fantasia, desejo) e realidade.

Esse espaço, na teoria winnicottiana, é o espaço transicional. Alí, numa mistura entre percepções objetivas e subjetivas, a criança começa a ensaiar sua relação com o mundo. É o espaço da brincadeira, que sempre conjuga aspectos reais com aspectos da fantasia – como pegar um bloco de madeira e dizer que “essa é minha casa”.

Pois bem: para Winnicott, esse é também o espaço da linguagem.

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O que Winnicott está dizendo é que nossa relação com a linguagem só faz sentido quando nós adquirimos uma distância das coisas concretas e das coisas subjetivas ao mesmo tempo.

Em outros termos, apenas quando o espaço transicional se instalou, é possível utilizar a linguagem como algo que é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo. Ou ainda: a linguagem seria como o brincar.

É exatamente isso que diz Winnicott: “Apenas na brincadeira a comunicação é possível” (Winnicott, 1971d, citado por Ogden, op cit, pg 234).

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De fato, toda comunicação compartilha com os objetos transicionais um estatuto misto: falamos com as pessoas porque elas são diferentes de nós, são “não-eu”. Mas, ao mesmo tempo, falamos com as pessoas porque algo, em nós, é comum, é passível de comunicar.

Por isso, para Winnicott, o uso da linguagem depende da instalação primeira desse espaço transicional. Sem essa capacidade de subjetivar o dado real, a língua até pode ser aprendida, mas não será utilizada como na saúde – isto é, grandemente marcada pela contingência, pela metáfora – ou, pela “brincadeira“.

Casos severos de autismo ou esquizofrenia se caracterizam por um uso concreto da linguagem, onde as palavras “são” coisas, em vez de “denotar” coisas. Não há espaço entre a palavra e a coisa que ela refere. Não há espaço transicional.

Exemplos típicos seriam a dificuldade do autista de responder coisas como “Está tudo bem?”, porque eles tendem a entender as palavras literalmente, então “tudo” quer dizer “tudo mesmo”, todas as coisas, o que faz a pergunta ficar difícil de responder, ou até sem sentido.

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Concluindo, acho que essa vinculação entre “linguagem” e “espaço transicional” é muito rica, porque nos ajuda a entender como pacientes que falam de forma aparentemente normal podem estar, no fundo, com déficits subjetivos ligado à língua. A questão é que o déficit não estaria tanto na linguagem, mas no uso que o sujeito faz dela, ou ainda, na posição do sujeito ao falar (o que reaproxima Winnicott da proposta lacaniana).

Entender a linguagem como uma expressão do espaço potencial também aproxima a fala da poesia e da arte. Seriam todas, afinal, formas de brincar, de jogar com esse paradoxo das palavras, que ao mesmo tempo são e não-são as coisas.

Finalmente, nos ajuda a entender as dificuldades ligadas ao exercício da ciência, que se propõe, num certo sentido, a destilar as palavras de seu aspecto lúdico, ‘adequando-as’ exatamente ao seu objeto – o que seria, como já argumentei, característica da psicose (ver segundo link acima, sobre ilusão, sonho e realidade).

Uma resposta para “A linguagem em Winnicott

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