Sobre “Defesas” em psicanálise – parte 1

A primeira coisa a ser dita sobre “defesas psicológicas” em psicanálise é que elas fazem parte do desenvolvimento normal e da saúde. Em si mesmas, as defesas não são boas nem ruins; o que determinará se elas estão ajudando ou prejudicando o sujeito é o seu uso, o modo como são usadas.

Feita essa ressalva, podemos começar.

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Imagine uma situação onde cada ato do seu dia envolvesse chamar a polícia (ou o judiciário, o que dá no mesmo para nosso exemplo). Você sai de casa e briga feio com um vizinho (chama a polícia); no trânsito para o trabalho, ocorre um acidente (e a polícia é chamada de novo); no trabalho, seu chefe demite você de forma ilegal, obrigando-o a entrar na Justiça; indo ao mercado, ocorre um assalto, e mais uma vez a Polícia é chamada…

Impossível viver assim, não é mesmo? Pois esse exemplo é interessante, porque com as defesas psicológicas acontece mais ou menos o mesmo. Elas existem para nos ajudar; são nossa linha de defesa contra uma série de situações internas. Mas quando nos vemos obrigados a utilizar nossas defesas a toda hora, algo está errado – mesmo que as defesas, em si mesmas, não sejam um problema.

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Passando, então, para as defesas, podemos defini-las como atos mentais inconscientes que ocorrem em nossa subjetividade para solucionar um conflito / problema.

Vamos a um exemplo real: minha cachorrinha morreu, faz pouco tempo. Eu era (sou) muito apegado a ela, e até hoje, pensar em sua morte é bastante sofrido pra mim. Diante disso, percebo que cada vez que algo me lembra dela, entra em ação uma defesa, que “separa”, “isola”, o pensamento relacionado à cachorrinha do resto da minha subjetividade.

Eu, então, ‘esqueço’ o que estava pensando a respeito dela. O que faz sentido, já que as consequências desse pensamento seriam dolorosas (= assumir que ela se foi pra sempre). O sentido dessa defesa é, muito provavelmente, “dar tempo ao tempo”, isto é, dar condições para que eu possa elaborar sua perda, fazer o luto, para, depois, poder pensar sobre isso sem tanto sofrimento.

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No exemplo acima vimos uma defesa entrando em ação para ajudar a subjetividade a resolver uma questão: resguardar a mente de um sofrimento importante, enquanto se processa a elaboração do evento que causou esse sofrimento.

Um aspecto importante a ser percebido é que a defesa entra em ação quando ‘ela’ quer. Isto é, não é um processo que ocorra sob o meu controle consciente; está mais para um processo automático.

Outro ponto é que, nesse caso, eu consigo perceber algo da ação defensiva; em outros casos, essa percepção pode ser muito mais difícil, ou até impossível.

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Podemos ainda classificar as defesas em termos de seu custo subjetivo: quanto da subjetividade (ou da realidade) precisa ser ‘esquecido’, isolado, para que a defesa ocorra? Isolar a morte de uma cachorrinha é diferente de isolar uma parcela relevante do real, por exemplo.

Mas algumas defesas fazem isso. Tal ocorre, porque o ponto de vista das defesas não é a realidade como tal, e sim o bem-estar da subjetividade.

Sim, é isso mesmo. Em diversas situações clínicas, percebemos que a mente do paciente prefere excluir uma parte da realidade, para não sofrer com as consequências de lidar com essa realidade. Ou seja, o sofrimento subjetivo vale mais, do ponto de vista das defesas, do que o vínculo com a realidade.

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Mas essas defesas “custosas”, em geral, só são utilizadas quando já não há mais outro recurso. Ou seja, o uso das defesas também corresponde à quantidade de recursos que a subjetividade tem à disposição. Ou, em outros termos, à maturidade subjetiva do sujeito.

Retomando nosso exemplo da cachorrinha, alguém muito apegado, e também mais imaturo emocionalmente, poderia precisar negar a morte de seu objeto de apego. Por outro lado, alguém mais amadurecido (ou menos vinculado) poderia nem precisar utilizar movimentos defensivos.

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Com isso, encerro essa primeira aproximação das defesas psicológicas em psicanálise, salientando:

a) que as defesas são parte da saúde e do desenvolvimento normal;

b) que, entretanto, podem estar à serviço da doença;

c) a intensidade e frequência com que são necessárias dão um indício da integridade ou não do sistema subjetivo em questão;

d) elas tendem a ser inconscientes e automáticas, agindo fora do controle do sujeito;

d) elas podem ser mais custosas para a subjetividade, ou menos; e isso está relacionado à maturidade emocional da subjetividade;

e) o critério de ação para as defesas tem mais a ver com o bem-estar subjetivo do que com a realidade;

Na sequência desse post, vou trazer mais alguns exemplos de defesas, procurando relacioná-las com o grau de maturidade do sujeito.

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