Algumas verdades políticas

Conforme envelhecemos, algumas verdades vão se consolidando. Pode ser apenas cansaço, velhice. Podem ser pensamento “senis”! Pode ser que hoje tenhamos força suficiente para sustentá-las, a essas verdades difíceis…

Porque há tais verdades. Com o tempo perdemos a crença juvenil de que saber e felicidade andam juntos. Hoje sabemos não só que existem verdades que entristecem, mas que existem conhecimentos que entristecem tanto que ninguém os quer! Mesmo que sejam verdadeiros, esses conhecimentos…

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Esses conhecimentos, alguns eu os encontrei em Nietzsche. E, coisa esquisita, há tanta coisa de Nietzsche dita e redita por aí, mas esses aforismos, esses pensamentos específicos, são calados…

Bom, no fundo, eu entendo as razões desse calar. Não quero criticar ninguém por isso. Nós simplesmente não podemos lidar com certas coisas, então é melhor deixá-las de lado. Isso é justo, justíssimo. E muito humano, até.

Acontece o mesmo comigo, em relação à muitas coisas. Por exemplo, aos moradores de rua. Eu não consigo suportar o fato de que há tanta gente desassistida, vivendo do que juntam no lixo. Mas… o que eu posso fazer? Ajudo um ou outro, mas não tenho como resolver tudo. Então eu simplesmente desisto. “Calo” o problema. E assim, seguimos a vida.

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Uma dessas verdades que o tempo consolidou tem conexão com a questão dos moradores de rua. É que a vida me ensinou que somos gregários, nós, os humanos. Somos tribais. E com isso quero dizer, essencialmente, que não fomos feitos para a independência.

Sim, apesar do que dizem todas as propagandas e todos os livros de auto-ajuda, a independência é para poucos.

E digo mais: se tivéssemos a opção, provavelmente ninguém aceitaria bancar todos os atributos e conflitos que são demandados para se ter uma alma independente. Porque independência é uma espécie de “contramovimento”. Uma “desumanidade”, se posso dizer assim. Porque, no fundo, nosso elemento, nosso ambiente humano básico é, realmente, a dependência. Mas não temos essa opção.

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‘Dependência’ não quer dizer apenas que tendemos a ser infantis e irresponsáveis, mesmo diante de nós mesmos. Quer dizer também que a escravidão / exploração é, infelizmente, uma das formas naturais de estrutura social, talvez a mais natural de todas.

Escravidão, bem entendido, não só porque alguém – uma elite – domina um grande grupo, mas essencialmente porque o grande grupo precisa, e pede, para ser dominado.

Isso também não vai ser dito em nenhuma propaganda.

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A política, em geral, é a instituição encarregada de encontrar os termos corretos para essa escravidão. Aquele mínimo suficiente, para que as massas e as elites se tranquilizem e se completem.

A educação, também em geral, é a instituição que se encarrega de disseminar esses termos. No colégio aprendemos muitas coisas, é verdade, mas aprendemos também a obedecer e a ser úteis ao rebanho.

É o mesmo que dizer – e estaria correto – que somos acorrentados por nosso próprio conhecimento. Sim, em muitas, tantas coisas alardeadas por aí, o fundamento é sempre ‘fisgar’ as pessoas pelo seu próprio saber. Até mesmo a vontade de independência é utilizada como isca, nos dias de hoje. Somos, nesse sentido, uma espécie bastante inventiva (em meios para a escravidão / dependência).

E isso, quero repetir, não é um problema. Isso decorre da nossa natureza.

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Enfim, quando a idade chega, sabemos – e desistimos – de muitas coisas. Desistimos, por exemplo, de mudar o mundo, porque sabemos que ele está de acordo com a natureza das coisas.

Passamos, ao invés disso, a olhar os próximos. Ajudamos, tentamos ajudar, os parentes, os filhos, os amigos. Nosso pequeno grupo, é nele que podemos influir. Talvez pelo exemplo? Talvez pela arte, deixamos testemunho do que fomos.

Mas, sem ilusões. Sabemos – e desistimos – de muita coisa, na velhice. Em consequência, sabemos que ninguém quer os conhecimentos experimentados que temos. Haverá sempre alguém mais barulhento para vender as soluções simples, os sonhos fáceis.

E até nisso a natureza se mostra sábia! Porque faz os jovens, a quem esses discursos fáceis convencem, sempre “cabeças-duras”. De fato, eles terão que se chocar muito com a realidade para aprender…

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