Sobre o estruturalismo

estrutura

O estruturalismo, se entendi bem, é uma espécie de busca/postulado pelas regras “transcendentes” – no sentido de regras primeiras, que determinam algo – que são, no entanto, “imanentes” ao domínio considerado.

Assim, por exemplo, Lacan sugeriu que a linguagem era uma espécie de estrutura determinante na vida dos sujeitos. Ela não é transcendente, no sentido de estar para além do mundo natural, mas está colocada em posição transcendente em relação ao sujeito, que não poderia escapar às suas leis, por assim dizer. Numa palavra, a linguagem determinaria o sujeito.

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Isso implica, já se vê, num certo determinismo. Há muitas maneiras de se sair dele, no entanto. Na filosofia, Nietzsche propunha que se o futuro está indeterminado, então ele “contagia” o sentido da minha ação presente, e inclusive aquilo que foi feito no passado pode mudar de interpretação. É como diz a tradição popular, “se algo não acabou bem, é porque ainda não acabou”. O sentido da minha ação, sendo alimentada permanentemente por novos dados, seria essencialmente um sentido em aberto, um sentido mutante. Nietzsche falava então na “inocência do porvir”.

Bergson por sua vez entende que existem dois tipos de emoções: aquelas que são causadas pelos contextos, como se fossem reações mecânicas, e aquelas que são mais propriamente causas, emoções criadoras, que expressam um dado novo e não podem, a rigor, ser deduzidas de seus antecedentes imediatos. Sendo algo novo, tais emoções escapariam do determinismo da estrutura, ao menos em alguma medida.

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O problema desse tipo de discussão, creio eu, é a enorme generalização em que ela se baseia. Vejo isso como se fossem narrativas, histórias ou mitos criados sobre o pano de fundo de uma realidade que todos vivenciamos: aquele misto de determinação e liberdade de que se compõe o nosso dia-a-dia.

Lacan diz, por exemplo, que as relações familiares são determinadas pelas leis da aliança, a qual está assentada sobre as leis da linguagem. Nesse sentido, ter nascido numa família X ou Y determina, simbolicamente, o futuro do sujeito.

Sim, podemos concordar que algo do futuro do sujeito está condicionado ao seu “nome”, à sua família. Sua vida seria diferente se ele fosse um “Onassis” em vez de um “da Silva”. Mas esse condicionamento seria absoluto? Pensemos no condicionamento biológico: por ser filho de seus pais, e descender de uma certa “linhagem” genética, uma parte de seu futuro está condicionado. Podemos dizer que o sentido da vida do sujeito está determinado, desde que existe um condicionamento genético inconteste?

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Winnicott entende que as relações humanas são exteriores aos seus termos, isto é, que as relações não são determinadas completamente por aquilo que se relaciona, sendo sempre um algo outro, além da pura determinação que poderia advir dos termos relacionados. Se misturamos, por exemplo, a tinta azul com a amarela, sabemos que o resultado será verde. A relação é determinada pelos termos relacionados. Mas nas relações humanas tal não se aplicaria, porque haveria sempre um imponderável em cada um. A rigor, o sujeito se constituiria numa relação, então cada relacionamento traria consigo um novo poder constituinte, um novo sujeito nascendo, potencialmente, em cada relação.

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Essa posição me parece um pouco mais “pé no chão”. Abstrata – generalista – na medida certa. Entretanto não posso deixar de simpatizar com a discussão estruturalista, tanto na sua postulação quanto nas respostas que suscitou.

Termino com um texto-roteiro para uma apresentação na minha antiga clínica, que buscava vincular o determinismo da linguagem como uma questão política, bem ao sabor da minha veia esquizo da época. O texto se encerra com a leitura do Alcibíades de Platão, que na leitura de Foucault e também para o Lacan do seminário 8 – retrata justamente como as relações de amor entre mestre e discípulo permitiam a instauração de um estilo de vida pautado numa ética do domínio de si, a qual seria precondição de liberdade.

O amor seria o antídoto ao determinismo, então? No fim, com diferentes enredos, chegamos sempre mais ou menos na mesma conclusão.

(OBS: o texto abaixo tem mais de 10 anos; não o alterei. Vale pelo que vale)

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Sobre a escrita – crítica e clínica

Objetivo: tentar entender que cada ato que realizamos, a vida mesma, é uma escrita dessa linguagem primeira, como palavra de ordem, que nos integra e nos aliena – e que escrevemos ao agir-viver.

Posso começar com uma rápida imagem do estádio do espelho.

Nietzsche:

“Os conceitos filosóficos individuais [penso também nas palavras] não são algo fortuito e que se desenvolve por si, mas crescem em relação e em parentesco um com o outro; embora surjam de modo aparentemente repentino e arbitrário na história do pensamento, não deixam de pertencer a um sistema, assim como os membros da fauna de uma região terrestre1 – tudo isso se confirma também pelo fato de os mais diversos filósofos preencherem repetidamente um certo esquema básico de filosofias possíveis. À mercê de um encanto invisível, tornam a descrever sempre a mesma órbita: […] algo neles os conduz, alguma coisa os impele numa ordem definida, um após o outro – precisamente aquela sistemática e relação inata entre os conceitos. O seu pensamento, na realidade, não é tanto descoberta quanto reconhecimento, relembrança; retorno a uma primeva, longínqua morada perfeita da alma [é a própria imagem!!], de onde os conceitos um dia brotaram […]. Onde há parentesco linguístico é inevitável que, graças ao domínio e direção inconsciente das mesmas funções gramaticais –, tudo esteja predisposto para uma evolução e uma sequencia similares dos sistemas filosóficos: do mesmo modo que o caminho parece interditado a certas possibilidades outras de interpretação do mundo. (…)”2

    • uso isso como exemplo de que aquilo que a língua produz determina ou cria tendências determinantes nas relações com o mundo posteriormente. Exemplo do heliocentrismo3, que já era conhecido (como hipótese), mas foi banido pelo cristianismo (por razões políticas, isto é, de sustentação da imagem) até Copérnico4, isto é, por mais ou menos 1700 anos!

O que ocorreu então aos estóicos sucede ainda hoje, tão logo uma filosofia começa a acreditar em si mesma. Ela sempre cria o mundo à sua imagem” 5

    • ligo isso com a ideia da imagem em Lacan, integrando e alienando o sujeito numa imagem. Ele precisa dessa imagem para poder acreditar em si mesmo – criar um si mesmo, integrar um si mesmo. Passa então, depois, a … criar o mundo “à sua imagem”… isto é, ordenado por essa mesmo imagem que lhe serve de ordenamento.

    • Creio que fica claro que o motivo de se lutar para manter a imagem é a integração… mas isso é também, em sentido amplo, político.

O homem fala, pois, mas porque o símbolo o fez homem. […] a vida dos grupos naturais que constituem a comunidade está sujeita às regras da aliança, as quais ordenam o sentido em que se efetua a troca das mulheres, e aos préstimos recíprocos que a aliança determina […]. A aliança rege uma ordem preferencial cuja lei, implicando os nomes de parentesco, é para o grupo, como a linguagem, imperativa em suas formas, mas inconsciente em sua estrutura. Ora, nessa estrutura […] o teórico reencontra toda a lógica das combinações: assim, as leis do número, isto é, do símbolo mais purificado, revelam-se imanentes ao simbolismo original. […] A Lei primordial, portanto, é aquela que, ao reger a aliança, superpõe o reino da cultura ao reino da natureza, entregue à lei do acasalamento. […] Essa lei, portanto, faz-se conhecer suficientemente como idêntica a uma ordem de linguagem. Pois nenhum poder sem as denominações do parentesco está em condições de instituir a ordem das preferências e tabus que atam e tramam, através das gerações, o fio das linhagens. […] Os símbolos efetivamente envolvem a vida do homem numa rede tão total que conjugam, antes que ele venha ao mundo, aqueles que irão gerá-lo “em carne e osso”; trazem em seu nascimento […] o traçado de seu destino; fornecem as palavras que farão dele um fiel ou um renegado, a lei dos atos que o seguirão até ali onde ele ainda não está e para-além de sua própria morte”6

    • uso isso para:

    • a) relacionar a lei social e a lei linguística

    • b) a palavra está no fundamento das trocas que regem o social, e a própria passagem do natural ao cultural

    • c) logo, o político e o linguístico se entrelaçam

A unidade elementar da linguagem – o enunciado – é a palavra de ordem. […] A linguagem não é mesmo feita para que se acredite nela, mas para obedecer e fazer obedecer. […] Uma regra de gramática é um marcador de poder, antes de ser um marcador sintático”7

  • uso isso para

  • fazer a passagem claramente à política;

  • pois a linguagem, a gramática, as relações entre as palavras são palavras de ordem; instituem relações entre os conceitos (como diz Nietzsche) ou entre as alianças (como diz Lacan), e com isso regem as relações do mundo

  • creio que até aqui deve estar ficando claro que se o sujeito apropria-se de uma imagem para integrar-se alienando-se nela, essa imagem é essencialmente linguística. É a imagem de um “eu”, certo, mas é também um “eu” inserido num mundo, num contexto, numa ordem, que é linguístico-política. Assim, a língua dá ao mesmo tempo a linha de integração e a linha de alienação do sujeito, como sentido mas também como ato político.

Termino no Alcibíades.

Nesse texto, Platão nos apresenta o diálogo de Alcibíades, jovem aristocrata, e Sócrates.

Alcibíades o procura para aprender a ser um bom governante.

Ele será da elite, pois já pertence à aristocracia da cidade.

Entretanto, quer não apenas governar, mas ser um bom governante.

Bom não é uma designação moral, mas implica

obter essa glória imortal que fará os poetas cantarem seu nome pelos séculos adiante.

Roberto Machado, em “Nietzsche e a epopéia”, lembra esse estatuto da poesia: de superar a mortalidade (biológica) através da arte e da beleza; era um ideal grego

para tanto, Sócrates o exortará a aprender a governar a sí mesmo

governar a si mesmo como caminho para governar o outro, a cidade

é muito interessante ver que, desde logo, esse governo de si (cuidado de si) passa por: uma questão política (pois é para bem governar que ele deve se governar; motivo, objetivo, fim); uma questão pedagógica (pois se trata de aprender; meio, método) e uma questão de verdade (pois ele deve conhecer a si mesmo; resultado, operador)

o conhecer-se liga o método (pedagógico) aos fins (políticos); é um operador

conhecendo a si mesmo verdadeiramente, ele pode aprender a governar-se; aprendendo a governar-se, ele pode conhecer a si mesmo; é na aprendizagem de seu governo de si mesmo que ele vai conhecer a si mesmo; é no conhecimento de si mesmo que ele vai aprender a governar-se

a relação Sócrates-Alcibíades é muito próxima duma relação analítica; Alcibíades vai se apaixonar por Sócrates, mas este lhe nega, suspendendo, a afeição que o outro deseja (apesar de Alcibíades ser um personagem desejado na época, rico, belo e jovem, alguém que deveria ser desejado pela sua posição)

Sócrates está dominando a si mesmo; desejando ou não Alcibíades, ele não cede a esse desejo, pois isso seria exatamente o contrário do que se propôs ensinar, isto é, o governo de si

nesse domínio de si, Sócrates dá um exemplo daquilo que Alcibíades almeja

nesse “manejo da transferência”, não se trata de um mero controle obsessivo das paixões: trata-se de utilizá-las conforme um ideal ético-estético, isto é, de dar-lhes uma forma verdadeira

aqui seria interessante a diferenciação que Lacan faz entre verdade e realidade: a psicanálise faz ao sujeito uma exigência de uma “fala verdadeira”8, não no sentido de real, mas no sentido em que ele assume, num discurso criativo, toda sua história em função de um porvir, não como ressentimento, mas como engajamento nesse “governo de si” entendido como criação

numa palavra: uma imagem nos integra e nos aliena; essa imagem é política e está na base do político; minha ação, relacionada com essa imagem, é a escrita dessa imagem que foi “lida” e incorporada; agir, escrevendo-a, pertence ao âmbito da ética; essa é a responsabilidade do escritor, que, ao torcer as palavras e suas relações, nos estremece as imagens muito cristalinas que supomos ter, e assim nos convida a ingressar num movimento de recriação, que é, desde logo, o ato humano em si mesmo.

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Notas:

1 Lembrar que a fauna tem um “roteiro de desenvolvimento”: primeiro plantas menos exigentes surgem, pois são capazes de viver em locais de muito vento, pouca nutrição, pouca sombra. Aos poucos, do seu esqueleto surgem nutrientes para plantas mais exigentes e complexas, assim como sombra e proteção do vento, até que, umas sobre as outras, as plantas vão dominando e complexificando um ambiente, e as espécies mais complexas (e frágeis) surgem.

2 ABM, §20, pgs 25/6

3 A primeira pessoa a apresentar um argumento para o sistema heliocêntrico foi Aristarco de Samos (270 AC).

4 Nicolau Copérnico (19.Fev.1473 a 24.Mai.1543)

5 ABM, §9, pg 15

6 Lacan, Escritos, “Função e campo da fala e da linguagem” pgs 278-280

7 Deleuze e Guattari, Mil Platôs, II, “20 de novembro de 1923 – Postulados da Linguística”, pg 12

8 Como em “Formulações sobre a causalidade psíquica” e “Função e campo…”

3 Respostas para “Sobre o estruturalismo

  1. O único senão desse texto foi a comparação “Onassis” com “da Silva”, o uso do segundo sobrenome não foi adequado. Poderia ter utilizado “um sobrenome qualquer”, referindo-se a qualquer sobrenome, o seu, o meu ou outro. De resto, muito bem escrito, coeso, objetivo, entendível.

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