Algumas figuras do tempo. Memória e subjetividade

Encontrei esses dias, junto com um HD velho, algumas músicas ‘das antiga’, que já não ouvia faz tempo. Apertei o “play” e me deixei levar; e então aconteceu algo inesperado: me senti transportado, literalmente, para outro tempo, para o tempo em que, adolescente, eu ouvia aquelas musicas toda hora, e sentia reverberar nelas algo de muito meu, muito próprio.

Bastou, então, ativar o “play” para estabelecer essa conexão imediata com o passado, fazendo com que duas situações diferentes – dois tempos – se interconectassem e se ampliassem um ao outro, estabelecendo ao mesmo tempo aquela continuidade tão estranha que nos liga à nós mesmos, apesar de toda a diferença acumulada (toda descontinuidade).

Pensei então na capacidade subjetiva que temos de “integrar” momentos – e subjetividades – tão diferentes. Sentimos que se trata do mesmo “Eu” vivendo “nosso” passado, mas isso não tem nada de óbvio. No fundo, estamos talvez nos identificando com algo que, rigorosamente falando, não é mais “nos mesmos”.

Ou seja, há um trabalho psicológico aí, de integração e identificação, que certamente não é “natural” (ou seja, pode não comparecer em relação à diversos aspectos desse passado).

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Essa é uma imagem “psicológica” do tempo, por assim dizer, já que valoriza muito o quanto de passado o psiquismo presente é capaz de manter. Mas há outras imagens.

Bergson, por exemplo, entende que o passado é tão real e existente quanto o presente, só que, para “atuar” como presente, ele precisaria ser convocado por uma necessidade concreta (não psicológica).

Para o filósofo, enquanto o presente é “atual”, o passado é “virtual”; ele existe sempre – todo o passado é conservado -, mas é como se fosse um potencial. Esse potencial do passado só se realizaria – passaria à atual – à medida que demandas atuais o exigissem.

Assim, todo o passado existiria em função do tempo presente e de suas demandas. A rigor, a mente seria um aparelho montado para afastar o passado, abrindo caminho para que o presente e as percepções presentes se instalem.

Bergson tem uma concepção do aparelho mental como um aparelho de ação, não de cognição; daí sua aparente desconsideração pelo “mundo interno” e suas demandas, ou pelo ‘tempo psicológico’, como chamei. Mas essas diferenças não cabem aqui.

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Nietzsche, de forma semelhante – isto é, não psicológica – pensava o tempo enquanto “eterno retorno do mesmo”. Dado um tempo infinito e uma matéria finita, seria forçoso considerar que todas as combinações possíveis da matéria acabariam se repetindo, em intervalos imensos de tempo.

Daí o “eterno retorno do mesmo”, como uma consequência lógica, quase física. Nietzsche não leva em conta o aspecto psicológico no enfrentamento dessa repetição, a não ser no sentido de que tal figura do tempo atuaria como uma espécie de ‘imperativo categórico’: “vive tua vida de forma tal que ainda gostaria de revivê-la, mesmo numa repetição infinita”.

O imperativo devolve à tese nietzschiana o aspecto psicológico retirado da imagem do tempo, pois é o sujeito que, defrontado com a repetição, terá que decidir o que fazer com cada ato de sua vida. O eterno retorno dá intensidade para cada momento vivido, e também para nossas decisões. Mas é, diria eu, mais “moral” do que “psicológico”, propriamente falando.

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É na psicanálise que encontro uma valorização apropriada dessa dimensão “psicológica” do tempo. Freud desde muito cedo percebeu a importância das relações entre tempo e subjetividade, a ponto de dizer, já nos “Estudos sobre Histeria”, que os “histéricos sofriam de reminiscências” – isto é, que o sofrimento psíquico pode advir de nossa relação com o passado.

A partir daí, ele não parou mais de tematizar essa relação subjetividade x tempo. Uma analogia famosa foi aproximar nossa psique da forma como ocorreram as reconstruções de Roma. A cidade teria sido reconstruída diversas vezes, uma por cima da outra, de maneira que as fundações de uma casa poderiam ser o telhado de casas passadas. Assim, todas coexistiam ao mesmo tempo, embora umas estivessem “submersas”, enquanto outras estavam expostas “à luz”.

Algo na analogia não agradava à Freud, mas mesmo assim ele apresentou a história, o que faz supor que ela fixava algo de importante em sua percepção. Penso que Freud estava se debatendo, no fundo, com o conceito de “sujeito”; isto é, com a ideia de que o passado que guardamos só “vale” na medida em que é sustentado por um sujeito – e essa sustentação não é meramente temporal ou cerebral, mas eminentemente subjetiva, emocional.

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Winnicott também discutiu essas questões do tempo, dando ênfase à figura do passado dissociado, que seriam aquelas experiências que foram vividas (a nível do corpo, por ex.) mas que não puderam ser integradas pelo cuidado ambiental NA subjetividade.

Ou seja, Winnicott está dando destaque ao aspecto subjetivo de nossa relação com o tempo. Por mais que exista uma conservação temporal à nível cerebral, por exemplo, isso de nada conta se não estiver traduzido, transcrito, ou sustentado à nível subjetivo.

Winnicott parte da descontinuidade que existiria entre nossa experiência à nível corporal e nossa experiência à nível subjetivo. É necessário operar uma passagem de um lado a outro e, em Winnicott, isso se dá através das nossas relações com os “outros significativos”, isto é, pessoas importantes para nós, que nos ajudam a encontrar ferramentas para traduzir uma experiência corporal nem sempre disponível.

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O que me leva ao conceito de “transferência”, que seria, justamente, esse reviver o passado numa relação do presente, abrindo a possibilidade de que, nessa reatualização, algo se altere.

Essa ideia, que já está em Freud, submete o tempo passado (o tempo físico) ao tempo subjetivo, e esse, ao grau de relações de sustentação que mantemos com os outros significativos.

Vale dizer: Freud já estava reconhecendo que o tempo que conta é apenas aquele no qual dividimos algumas coisas com alguém, aquele que encontra sustentação em nossos relacionamentos sociais.

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