Ética – Winnicott, Lacan e Nietzsche

O texto abaixo é parte de uma troca de emails sobre a questão do que seria uma vida virtuosa, segundo o modelo dos antigos. Trata-se também de pensar qual o papel da psicanálise nisso, e o que seria o equivalente, nos dias atuais, dessa antiga virtu. O texto é de 2017; hoje, gostaria de acrescentar algumas coisas, que ficarão para um post por vir.

No email há referência à um texto sobre a ética em Lacan, e também conclusões talvez apressadas sobre qual a posição lacaniana em relação à essas questões. Sei que Lacan não é um monolito – aliás, qual grande autor é? – mas acreditei poder fazer esse resumo. Se alguém com mais conhecimento de causa quiser apontar erros e/ou omissões, agradeço desde já.

Uma crítica possível diz respeito à empreitada em si mesmo: como aproximar autores tão diferentes – Nietzsche, Lacan, Winnicott, Freud – com linguagens, contextos, matrizes filosóficas, tão díspares? É bem possível que o quadro final a que eu tenha chegado se deva muito mais aos viézes da minha leitura – que é majoritariamente Nietzscheana e, em psicanálise, Freud-Winnicottiana – do que aos autores em si – especialmente Lacan, que é mais duramente criticado aqui.

Enfim, segue a carta:

(…)

A questão sobre a vida boa, virtuosa, da ética antiga e o que seria o seu paralelo a partir da psicanálise, parece muito rica. De fato, embora a psicanálise não trate essa questão a partir dos mesmos vetores, trata-se de uma questão “herdada”, por assim dizer, que podemos tentar responder a partir da psicanálise.

Lacan, claro, é uma exceção, por tratar disso diretamente. Ou não; as vezes me pergunto se ele não seria mais um filósofo DA psicanálise do que um psicanalista. Pode ser preconceito meu, é claro… Mas bem. Vou começar dando uma resumidinha no que me interessa nesse texto que tu enviaste, que, aliás, gostei. Pelo menos ele é claro, na medida do possível, e não se esconde atrás das complicações conceituais que Lacan tanto gostava.

1) O texto começa com aquela história de que o desejo seria o motor da subjetividade, e que ele buscaria sempre o das Ding, a coisa (real) – a mãe – e que esse reencontro seria impossível. O simbólico (a Lei) e o imaginário (o belo) seriam formas de manter esse objeto AFASTADO – garantir o afastamento do objeto (ou uma aproximação segura dele; estou citando de memória a partir do seminário7 de Lacan) . Daí deriva uma ética da “transgressão”, pois o desejo só se realizaria na medida em que ultrapassasse essas barreiras (da Lei e do Belo) em direção ao das Ding. Enfim, toda aquela questão da ‘subjetividade conflitiva’ já que a Lei seria necessária à estruturação do sujeito, mas ele por outro lado buscaria sempre, pela via desejante, algo que estaria além (ou aquém) do simbólico – isto é, da Lei. A transgressão integraria os dois lados, enquanto limite da Lei e (quase)encontro com o objeto, sendo em alguma medida a “verdade” sobre o sujeito.

[notar de passagem a semelhança disso com o cristianismo – aliás, toda a questão do desejo como falta e transgressão soa muito cristão: a verdade do sujeito é transgressiva, feia, horrenda, e aquilo que se constrói para barrar o horrível do animal humano é justamente aquilo que lhe afasta de seu “bem”, de seu desejo]

2) Ou seja, Lacan está fundamentando a falta. Não é que o homem seja direcionado ao bem; ao contrário, ele é direcionado a se afastar do bem (do objeto das Ding). O objeto estrutura uma busca aberta e impossível; ele estrutura essa busca (o desejo) POR SUA FALTA, por sua inacessibilidade. [volta aqui a coisa da antinomia; só existe sujeito PORQUE o objeto foi recusado/barrado, mas ao mesmo tempo essa recusa do objeto instaura um desejo PELO objeto impossível. É impossível não se afastar do objeto e também é impossível deixar de buscar o objeto][1]

3) É a velha história do negativo. Se sinto fome é porque o alimento falta, e essa falta me determina. Mas nisso exclui-se toda a construção POSITIVA que teve que ser feita para que eu pudesse inclusive sentir essa falta[2]. Um bebê com “falta” de alimento não deriva em nada se não tem uma mãe para lhe prover desse lado positivo; uma pilha aonde falta energia não “cria” por essa falta um carregador. A falta só tem sentido no interior de um sistema POSITIVO que lhe dê direcionamento. Lacan valoriza e fundamenta a falta e simplesmente cala sobre todo o aspecto positivo necessário para que essa falta seja efetiva enquanto tal, isto é, produza alguma coisa no sujeito (pelo menos até onde sei).

4) Enfim, uma das grandes descobertas de Lacan é que a universalização do acesso ao objeto – à felicidade – não existe. Ele conclui então com um elogio da abertura no campo da ética. O que definiria uma ética psicanalítica seria justamente a contingência da felicidade, sua impossibilidade de orientação necessária.

***

Aí entra então tua pergunta: o que seria uma vida boa, virtuosa, a partir da psicanálise? Com Lacan, já vimos, é pura contingência. Fazendo uma leitura benéfica – que não sei se se aplicaria – aproximo isso do elogio do acaso em Nietzsche: não é questão de dirigir, comandar, estruturar, a vida, segundo critérios x,y ou z, mas, antes, ter a capacidade de acolher a vida como ela vêm, estar aberto ao acaso, e poder construir-SE NESSE encontro; isto é, aquilo que o sujeito É (ou passará a ser) advém desse encontro com os acasos da vida. “Amor fati”, em resumo. A ética do bem dizer – que seria a ética lacaniana – seria algo próximo disso, “bem dizer o acaso” (que tbém seria “bendizer”, aceitar).

Agora, dependendo de como considero isso, parece que Nietzsche vai até mais longe. Já que não se trata apenas de dizer “sim” ao acaso enquanto acaso, mas também de dizer “sim”, nesse mesmo movimento, à si mesmo. Isto é, criar COM o acaso um resultado que afirme ao mesmo tempo a mim e a ele. Afirmar a si mesmo NO acaso. Não estou certo se em Lacan existe essa dimensão do “si mesmo” para além de algo como estruturas negativas que no fundo procurariam escamotear o sujeito de sua própria verdade “horrenda”. Enfim.

* * * * *

Nessa altura retomo meu questionamento acerca de Lacan enquanto psicanalista. Porque se tento responder à mesma questão a partir de Freud ou de Winnicott, a diferença parece importante.

Winnicott talvez dissesse que uma vida boa, plena ou virtuosa seria uma vida aonde o sujeito sentisse que os atos que está praticando são realmente seus. Então a virtude ou a plenitude de uma vida boa seria relativa à “posse” daquilo que fazemos, por assim dizer (RESponsabilidade; RESponder por si). Se minha ação é plenamente minha, se reflete meu ser, se me reconheço inteiramente nela, então ela é “plenamente” virtuosa, boa.

Winnicott valoriza muito essa ‘pertença’ da ação, mesmo quando isso resulta em sofrimento. A vida sempre encontra sofrimento em seu caminho, mas isso não é tão importante se tenho certeza que estou fazendo MINHAS decisões, se estou me colocando naquilo que faço. Virtude seria, então, algo como “realizar o seu ser”, o que aproxima Winnicott de Shopenhauer / Heidegger(?).

Essa ideia – que parece simples – fica mais complicada quando pensamos que o “si mesmo”, o “self” winnicottiano, só existe SUSTENTADO pelas relações que estabelece com outros significativos. É uma ideia muito próxima daquela que Foucault reencontra na Hermenêutica, segundo a qual o sujeito só acederia à verdade a partir de uma transformação subjetiva, sendo essa transformação efeito de uma relação com o mestre (o outro significativo nesse caso). Isto é, a verdade seria efeito de uma relação de sustentação – de amor, amizade, etc, tanto a verdade externa quanto a verdade interna. Avanço no conhecimento à medida em que encontro relações emocionais que me sustentem nesse caminho.[3]

Essa ética mais “ambiental” de Winnicott deriva muita coisa justamente do ambiente: é a sustentação do ambiente no início da vida, a qualidade dessa relação, que servirá de modelo na relação com os outros. Se tenho guardado comigo esse exemplo de boa relação, se meu self foi constituído a partir de uma boa relação dessas, isso me ajudará a limitar minha onipotência na relação com os outros, independente da “lei” externa (nisso W. se aproxima de Nietzsche, para quem a moralidade deriva das relações entre senhor e escravo interiorizadas, e NÃO da lei que simplesmente registra e limita justamente essas relações).

Enfim, a “vida virtuosa” em Winnicott passa por esse ‘cuidado de si’ enquanto redescoberta de si mesmo nas relações que estabelecemos com os ‘outros’ à nossa volta – o que somos também vai se transformando e se expandindo nessas relações – , mais ou menos como dizia Nietzsche com o “transforma-te no que tu és”. Diria que passa por saber o que se é, descobrir o que se é, e o que em nós é pura reação (à invasões ambientais ou ausência de sustentação ambiental, diria W, reencontrando Nietzsche também nisso, já que N. criticava a pura reação por não ser “criação de si”).

* * * * *

Uma última questão acerca das relações entre racionalidade e virtude; isso que parecia estar suposto em Aristóteles, segundo a moralidade antiga, e que Lacan critica, como fica em Winnicott? Acho que ele reformula o problema ao propôr que a mente enquanto intelecto pode ser uma tentativa de substituir o ambiente, de suprir as falhas do ambiente no desenvolvimento. Assim o sujeito que cresce num ambiente “não suficientemente bom” pode ser levado à hipertrofiar o intelecto na tentativa de “prever” o comportamento do ambiente, controlá-lo, etc.

A racionalidade seria nossa tentativa enquanto espécie de controlar o ambiente (natural) na medida em que ele não seria confiável. No caso da ética, seria uma tentativa de controlar o ambiente relacional, social – EM LUGAR DE RELACIONAR-SE COM ELE. Isto é, acho que para Winnicott o problema da ética não se resolve a partir da razão, ele não tem nada a ver com a razão, em alguma medida até exclui o racional, apontando-o como prejudicial. (Embora, com a palavra “razão”, o que muitas vezes se quer dizer é “atividade, autonomia”; isto é, está se perguntando pelo que o sujeito faz consigo mesmo. E, nesse sentido, Winnicott daria grande espaço para essa busca de responder por si, com o adendo de que nossa autonomia NÃO estaria na razão, no conhecimento, mas seria um resultado de um bom ambiente interiorizado. Ou seja, a “AUTOnomia” não existe, para W… ).

***

[1] Em outro artigo vou tentar dizer o que penso dessas antinomias. Por hora, digo apenas que elas parecem funcionar muito bem no abstrato.

[2] Essa questão é fundamental, porque a meu ver, tanto Freud quanto Lacan partiram sempre do pressuposto de que esse “positivo” JÁ ESTAVA CONSOLIDADO; toda a psicanálise freudiana (e lacaniana) funcionam em sujeitos JÁ ESTRUTURADOS – com esse “sistema positivo” montado e funcionante – mas não se aplicam tão bem – pelo menos na minha leitura – justamente aonde esse sistema positivo falta. E o que é esse sistema positivo? O ambiente. Penso agora que talvez em Lacan isso corresponda ao laço social, mas essa é uma leitura que me falta.

[3] Aqui , volto a pensar na aproximação disso com a questão do “laço social” em Lacan. A ligação parece evidente, mas, se é assim, porque toda a escola da “relação de objeto” e suas noções correlatas (como “ambiente) é tão criticada pelos lacanianos – e por Lacan?

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