O momento atual e a posição esquizoparanóide

Melanie Klein foi uma psicanalista da segunda geração que se notabilizou pelos sucessos alcançados na análise com crianças. Um pouco como Winnicott, ela não é exatamente uma autora “padrão”, dessas que escrevem coisas bonitas, inteligentes e bem escritas. Pelo contrário, seus textos tem muitos problemas – assim como sua vida – mas, no meio de algumas coisas questionáveis, existem passagens geniais.

Uma dessas ideias geniais é sua proposta de que a psique se organizaria basicamente em duas posições (ou estruturas): a esquizoparanóide e a depressiva.

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Melanie aplicava esses conceitos para crianças pequenas, mas se tornou um consenso nos autores que se seguiram a ela entender que as duas posições continuam ocorrendo na vida adulta, em constante oscilação. As posições esquizoparanóide – daqui em diante, apenas “PS”, suas siglas em inglês – e depressiva – na sequencia do texto, apenas “D” – seriam extremos da forma de organização da experiência psicológica por toda a vida.

A criança começaria sempre em PS. O que caracteriza essa posição é a extrema fragmentação do ego e das experiências, de forma que cada vivência, cada relação com um objeto, é registrada como se fosse diferente das demais.

Assim, se a criança é amamentada por sua mãe, mas logo depois, deixada no berço, por qualquer motivo, a criança tenderá a entender os dois momentos como se fossem duas pessoas diferentes: a mãe que amamenta e a mãe que deixa no berço não seriam as mesmas, do ponto de vista da criança em PS.

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Isso refletiria a extrema precariedade do Ego infantil: o próprio Ego não consegue ainda sustentar uma continuidade da experiência, e de certa forma é criado novamente, para cada encontro.

A passagem para a posição Depressiva só ocorre à medida que a criança possa sustentar que é sempre ela que está vivendo as mesmas coisas, assim como que é possível ter múltiplas experiências – algumas boas, algumas más – com um mesmo objeto.

Haveria uma ‘depressão normal’ aí, porque a criança, de alguma forma, perceberia que a mãe “má” que a deixa no berço é a mesma mãe “boa” que a alimenta. Essa ambiguidade das experiências é depressiva, por um lado, porque nos impede de manter um objeto ideal – a mãe que seria sempre boa, por exemplo – mas também é integrativa, na medida em que nos aproximamos do objeto total, com todas as suas complexidades.

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Pois bem. Dias desses, ao ler “A matriz da mente”, de Thomas Ogden, um autor que trabalha esses temas, me dei conta de que poderíamos usar esses conceitos para entender um funcionamento do mundo atual – ou seria um desfuncionamento? -, muito presente nas redes sociais: a enorme falta de sentido histórico, de reconhecimento da tradição, ou mesmo de aprendizagem, que nos caracteriza.

É muito comum, por exemplo, ver grupos políticos defendendo hora uma coisa, hora outra, de forma tão desconexa, que muitas vezes aquilo que é defendido numa semana é completamente incompatível com o que foi defendido na semana passada.

No entanto, isso passa batido: os apoiadores, com consciência ou não, parecem não fazer a ligação entre uma coisa e outra. Para manterem a idealização do partido, do líder, ou da ideia que defendem, organizam a experiência de forma esquizoparanóide. Isto é, fragmentam cada experiência, impedindo a ligação de um momento com o outro, e assim, impossibilitando, também, a crítica.

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Esse é um ponto muito trabalhado por Ogden, na clínica. Quando em PS, os sujeitos tendem a organizar suas experiências de forma fragmentada; não há continuidade entre os acontecimentos. No lugar disso, o que se tem é uma espécie de presente infinitamente recolocado; um presente que se projeta tanto para o passado, como para o futuro, e que, por isso, se apresenta como legítimo, independentemente dos acontecimentos reais (do passado) ou das consequências previsíveis (o futuro).

Um paciente em PS pode sentir-se acolhido e compreendido num dia, mas no outro entender que o analista é um enganador barato, e as duas experiências não irão informar uma à outra, no sentido de construir uma imagem mais complexa da experiência com o analista. Cada experiência é separada, e, por isso mesmo, é absoluta: não há aprendizagem, não há mudança, porque tudo isso supõe uma continuidade que o sujeito em PS não consegue manter.

Quem acompanha algumas discussões na internet não terá dificuldade em enxergar alguns traços de PS, creio eu. Por todo lado vemos idealizações andando de mãos dadas com organizações do tipo PS. Rígidas, absolutas, sem espaço para aprendizagem, crítica, ou mesmo dúvida (uma das conquistas da posição depressiva). E esse tipo de funcionamento está sendo usado, para dizer o mínimo, tanto pelos políticos quanto pelas empresas (redes sociais, mas também algumas marcas).

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Toda a polarização simplista entre puros mocinhos de um lado, e puros bandidos, de outro, me faz pensar se não estamos lidando com um sujeito em PS. E o que não é uma polarização simplista hoje, na internet?

Como é claro, à medida que esse tipo de organização da experiência se impõe, é o próprio espaço de discussão e debate que se apaga. A democracia, com todos os seus problemas, se precariza ainda mais, quando os espaços de discussão minguam.

O que a clínica sugere, no tratamento desses sujeitos, é algo que também vejo minguar no nosso espaço democrático: a tolerância, a paciência, a empatia. Pois a organização em PS, no fundo, é uma organização defensiva. Há um sofrimento ali, por mais que o sujeito em PS não demonstre isso. E todo sofrimento psicológico cobra seu preço, de um jeito ou de outro –

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