Sobre Redes sociais, comércio e riqueza subjetiva

Num belo livro escrito já no final da vida – “As duas fontes da religião e da moral” -, Bergson chamava a atenção para possíveis modificações futuras em nossa alimentação. O livro foi escrito por volta de 1930, e as vitaminas haviam sido recém descobertas, causando um certo impacto nas orientações dietéticas (que funcionavam até aquele momento ignorando esse importante componente).

De forma coerente, Bergson argumentava que provavelmente não conhecemos todos os aspectos da alimentação, e que deveríamos seguir, portanto, uma alimentação o mais natural possível.

Afinal, a natureza se provou no tempo; foi capaz de nos trazer até aqui. Enquanto nosso saber e nossa indústria são recentes e falhos, a ponto de mal percebermos no que falhamos.

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O argumento se mostrou clarividente. Ao longo do século XX, a maior industrialização na alimentação foi acompanhada pelo aumento dos problemas derivados da dieta. Diabetes, pressão alta, problemas cardíacos, aumentaram a níveis nunca vistos.

Não é difícil entender porquê. Nossa indústria, apesar das diversas linhas “light” ou “sem gordura” que inventou – ou talvez exatamente por elas – não está orientada, afinal, para nossa saúde, mas para as vendas.

Isso causa, muitas vezes, um conflito de interesses entre nossa saúde e a saúde financeira das empresas. E não é exagero dizer que as massas são manipuladas em função desses conflitos (aqui e aqui, alguns exemplos).

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Quis trazer tudo isso porque acho que torna claro como nem sempre ganhamos algo, ao “evoluirmos” nossa experiência afastando-a da maneira natural, tradicional. Isso porque nós simplesmente não sabemos o suficiente sobre nossas próprias necessidades, para pretender “atendê-las” melhor.

O mesmo raciocínio se aplica, creio eu, ao fenômeno das redes sociais. Como psicólogo, vejo muitas crianças aprendendo a socializar a partir das redes, e me pergunto até que ponto isso é uma “evolução” da socialização natural, ou uma perversão da mesma – como no caso da alimentação.

A família é o veículo natural de socialização. E nós estamos esvaziando esse espaço. A cultura capitalista deu, ao meu ver, o primeiro golpe no funcionamento dessa estrutura. E as redes sociais estão dando o segundo.

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Não importa tando se esse acontecimento é premeditado ou não. O fato é que a socialização não é um comportamento automático, puramente determinado pela genética. Precisa de estimulação adequada, e as redes sociais simplesmente não estão provendo isso.

A socialização é como um músculo: é preciso treinar essa musculatura, reforçá-la, para que ela “dê conta” do “peso” inerente à qualquer relacionamento social.

E esse é o ponto: qualquer relacionamento real, concreto, tem um peso, ligado à diferença de opinião / perspectiva que sempre existirá entre quaisquer pessoas. Você pode se entender 99% com alguém, mas sempre haverá aquele 01% relativo à diferenças entre vocês.

Esse peso, a experiência em ‘sustentar’ pesos como esse, é que nos dá ‘musculatura subjetiva’ para tolerar a diferença do outro. E isso não está acontecendo nas redes.

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Como em qualquer academia, na vida real você não começa seu ‘treino subjetivo’ levantando os últimos pesos. Primeiro, você começa treinando com pessoas próximas e maximamente adaptadas à você. Você e essa(s) pessoa(s) se entendem 99% das vezes, digamos. Logo, você se exercita com um peso de apenas 1%.

Ao longo do crescimento, os desentendimentos vão ficando maiores, simplesmente porque a adaptação dos outros à você diminui. Você não é mais criança; você começa a poder fazer as coisas por si mesmo. Nos termos da nossa academia, isso poderia ser traduzido dizendo que, agora, você suporta uma carga de 10% de desentendimento.

E o crescimento continua assim. Quanto mais forte sua musculatura, mais você poderá tolerar a diferença. Entretanto, o que as redes sociais fazem é, em geral, nos aproximar daqueles que pensam como nós. Ou seja, elas diminuem a carga do nosso “treino subjetivo”, fazendo como que a musculatura da sociabilidade tenda a atrofiar.

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Qualquer um que conviva com adolescentes concordará, creio eu, que os números dessa ‘atrofia muscular’ da sociabilidade estão em amplo crescimento. Os adolescentes de hoje, que cresceram nesse meio informático, são muitas vezes chamados de ‘geração nutella’, ou ‘floquinhos’, justamente por sua baixa tolerância à frustração.

O que faz todo o sentido, uma vez que seu desenvolvimento emocional se deu num meio cada vez mais “poluído” pelo ruído das redes.

A solução para isso, como já argumentei em outro lugar, não é apenas ‘mais frustração’, como em geral se pensa. A sociabilidade é um músculo, e peso demais simplesmente o lesionaria. Por outro lado, como será quando esses adolescentes se tornarem pais? Como passarão para os filhos uma sociabilidade que eles mesmos não têm?

A indústria, é óbvio, não está pensando em nossos interesses (tema abordado nesse documentário aqui). Para ela, trata-se de lucrar, e é extremamente improvável que vá desistir de sua ‘mina de ouro’ se não for forçada a isso. (Também a indústria precisa de alguma frustração ;-).

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O problema é complexo. As redes sociais tomaram a vida de assalto, e me pergunto se estamos prontos – se temos maturidade – para abandoná-las.

A situação é, mais uma vez, análoga à da história da alimentação. Todos sabemos, hoje, o que nos faz mal – bolachas recheadas, açúcares, excesso de carboidratos – mas quantos fazem desse saber um guia para a vida?

A verdade sobre o humano é que, infelizmente, não tendemos naturalmente para o melhor. Em muitas coisas precisamos ser obrigados a melhorar. O paradoxal de nosso tempo é que estamos progredindo, e exatamente por isso retirando uma série de obrigações que nos faziam progredir.

O específico desse momento é que, tornando disfuncional nossa ‘musculatura social’, criamos problemas para o próprio núcleo da sociedade – isto é, nossa capacidade de tolerar o outro, condição para que queiramos nos relacionar com ele. Que tipo de sociedade ajudaremos a construir, quando a intolerância com o outro for a regra?

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Sendo um pouco dramático, a situação me parece análoga àquela que levou à queda do império Romano, segundo algumas leituras. Esse império se baseava numa valorização muito grande do reconhecimento social; isso ocupava grande parte de suas vidas.

Quando o cristianismo começou a se difundir como cultura, isso se perdeu, justamente porque ele trouxe uma valorização da vida interior, individual, que simplesmente não existia.

Quando cada um passou a procurar resolver os seus problemas de alma – em detrimento do espaço público – o império simplesmente se esvaziou. Já não fazia mais sentido esforçar-se para obter o reconhecimento do grupo; o grupo já não se importava com isso.

Ou seja, uma mudança cultural pode ter tido papel fundamental na queda de um dos maiores impérios que já existiu. Me pergunto se não estamos no mesmo caminho, plantando as sementes de uma nova idade média –

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