A psicanálise e o caráter dinâmico da subjetividade

Nas conversas de bar ou entre amigos, é comum o interesse pelo comportamento concreto que denotaria uma doença, por exemplo. Basta dizer que você é psicólogo que logo alguém pergunta se “fazer X implica em tal coisa”, buscando uma confirmação – e uma correlação – simplista.

Esse tipo de busca é natural, uma vez que nos acostumamos a utilizá-la no mundo que nos cerca. Também nossa ciência nos acostumou a privilegiar a evidência.

Assim, “onde há fumaça, há fogo”, e as pessoas têm interesse em saber como identificar, afinal, os ‘sinais de fumaça’ que a vida pode estar lhes enviando. Para a psicanálise, no entanto, as coisas quase sempre não são tão simples assim.

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Isso porque a psicanálise é uma psicologia dinâmica. Que quer dizer isso? Quer dizer que o sentido dos atos – concretos ou mentais – que praticamos só pode ser inferido se levarmos em conta o contexto, também dinâmico, desses atos.

Dito de forma mais simples: para apreender o sentido de um comportamento, não basta compreendermos seu significado inerente; é preciso que levemos em conta a totalidade do mundo subjetivo do sujeito, e como aquele comportamento específico se situa em relação à essa totalidade.

Por isso o sentido é dinâmico; ele só se dá a partir da compreensão das relações varáveis que aquele comportamento mantém com diversas outras variáveis. Numa palavra: o sentido é singular.

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É o mesmo que dizer que “cada caso é um caso”. O ponto importante a compreender aqui é que os comportamentos podem ter significados diferentes, para um mesmo sujeito, dependendo de seu momento de vida.

Assim, é muito comum que os mesmos comportamentos que trazem as pessoas à analise – os sintomas que as incomodam – acabem por ser percebidos como parte do encanto da vida por essas mesmas pessoas, mais adiante. Da mesma forma, um comportamento agressivo – em geral repudiado em nossa sociedade – pode ser um sinal de retorno à saúde em alguém muito controlado e ‘certinho’, por exemplo.

Note que é o mesmo comportamento que adquire significados diferentes, a depender do contexto ‘interno’ do sujeito, que é, como dissemos, dinâmico. Isso porque, como dissemos, o ‘sentido’ do comportamento não é dado inteiramente por ele. Eu não posso ver a agressividade e deduzir, para todos os casos, que ela é algo ‘ruim’. Tampouco os sintomas que incomodam os pacientes em início do tratamento são algo que deve ser simplesmente excluído por princípio.

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Com isso, a psicanálise no fundo está valorizando a sua noção de subjetividade, ou seja, a está sendo coerente com a ideia de que existe um sujeito do inconsciente – um self, um “ser”, que pode ser desconhecido para sua própria consciência.

Ou seja, nossa subjetividade seria um complexo; um aglomerado de partes que nem sempre concordam entre si. Daí que possa existir conflito, desentendimento, desconhecimento, entre cada uma dessas partes.

O que nos dá ainda uma outra dimensão para o dinamismo aplicado à subjetividade: ele diz da situação conflituosa das várias partes que nos compõe.

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Isso explica porque uma análise pode ser tão demorada: não é apenas que tenhamos que apreender cada sentido do comportamento do paciente em relação ao todo de sua subjetividade (os sentidos não se esgotam no comportamento); mas também, temos que entender como cada parte de sua subjetividade se situa, em relação à esse comportamento.

Poderíamos dizer isso dessa forma: uma análise procura dar espaço para o todo da subjetividade do paciente. Mesmo coisas que o paciente ainda não percebe – como o sentido positivo de seus sintomas, para dar um exemplo – são levadas em conta pelo psicanalista.

Assim, a transformação que uma análise procura é muito mais profunda do que apenas “resolver” o incômodo passageiro de um comportamento específico. O que é buscado é uma transformação da subjetividade inteira, uma mudança no próprio equilíbrio dinâmico das diversas partes da psique.

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Uma vez alcançada essa mudança, cada um dos diversos comportamentos do sujeito mudará também. Porque o sentido deles foi alterado, a partir da alteração subjetiva efetuada pela análise.

De forma simples, poderíamos dizer que a pessoa mudou. Tornou-se diferente. O que certamente é mais difícil e demorado do que simplesmente mudar um sintoma.

Existem linhas em psicologia que se focaram no sintoma, e isso às vezes é tudo o que se necessita, é tudo o que o paciente busca. Não preciso de uma mudança subjetiva para resolver minha gagueira, ou meu medo de altura, por exemplo. Mas para mudanças mais profundas, pelo menos na minha visão, nem sempre mudar o sintoma será suficiente. E é aí que a psicanálise encontra o seu espaço.

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