Vivemos numa Matrix?

O filme Matrix, quando lançado, reacendeu uma discussão que tem pelo menos dois milênios, e que podemos situar já em Platão e sua metáfora da caverna: a ideia de que a vida que percebemos é “falsa”, e que haveria uma outra vida, mais verdadeira, fora de nosso mundo de sombras.

Evidentemente, a metáfora de Platão evoca uma série de questões, ligadas ao estatuto do verdadeiro e do falso, ao comportamento dos humanos em relação à quem pensa diferente, etc. Mas o fato desse tipo de indagação sempre retornar parece indicar que há um fundo existencial aí, uma experiência comum, concreta, que “lastrearia” a indagação filosófica.

Exemplo atual desse retorno é o cálculo da probabilidade de vivermos numa simulação, feito por um astrofísico, conforme pode ser lido neste link (em espanhol).

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Achei a questão interessante, porque ela permite mostrar as diferentes abordagens que uma mesma indagação pode suscitar. Do ponto de vista da psicanálise, especialmente em sua vertente winnicottiana, é claro que vivemos, sim, em uma simulação: mas uma simulação criada pela nossa própria psique.

Desde Freud, a psicanálise propôs separar o que seria da ordem do corpo e o que seria a subjetividade, propriamente falando. Em termos de nossa relação com a “verdade” ou com o “mundo real”, isso quer dizer que provavelmente nossa percepção dos objetos é, em si mesma, “verdadeira” ou pouco falseada, enquanto o uso subjetivo que fazemos dessa percepção tende a ser muito mais criativo – isto é, não somente “real”.

Isso aparece claramente quando pensamos porque, afinal, precisamos de todo um método científico para nos aproximarmos – sempre provisoriamente – da realidade. Ora, precisamos disso porque nossa relação com a realidade não é direta, simples ou unívoca. Há sempre uma margem de interpretação, criação, subjetividade, no dado consciente. Vivemos em uma realidade subjetiva, pra dizer tudo.

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É o mesmo que dizer que vivemos em uma simulação. O caso nos parece menos dramático porque, no fundo, é uma simulação criada por “nosso” mundo subjetivo – entre aspas porque não determinamos as condições dessa intervenção, mas tendemos a nos conciliar com ela.

Winnicott é muito taxativo nessas considerações. Ele define a psique como uma “elaboração imaginativa das experiências do corpo”, o que, dito de maneira mais “jornalística”, soaria algo como “a psique é uma história mentirosa contada a partir das experiências do corpo”.

Isso implica dizer que o “Eu” é uma simulação; as experiências subjetivas todas, são simulações. Isto é, interpretações… Por mais que baseadas em fatos do corpo, a partir do momento em que eu experimento esses dados na minha subjetividade… há um falseamento dos dados. Não há como uma experiência ser subjetiva e real ao mesmo tempo. A subjetividade seria sempre uma criação.

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O que vai exatamente na direção do que dizia Nietzsche em seu tempo: é a “razão” que falseia a experiência, enquanto o corpo – do qual sempre se desconfiou, na história da filosofia – provavelmente está mais próximo do dado em si.

Mas nossa condição de “subjetividade simulada” sempre nos fez desconfiar da realidade, da percepção, do corpo… (o que até tinha algum fundamento, se aceitarmos que percebemos confusamente que há liberdade em nossa interpretação dos fatos). Faltava só acertar quem é que estava mentindo mais, a percepção ou a razão.

Tudo somado, na saúde, provavelmente nem nos preocupamos muito com o real em si. O que nos interessa é apenas ter o domínio sobre o real. Ou, em termos winnicottianos, não sofrer a “ofensa” de perder o controle do que acontece (o que poderia ser traduzido como: “criar uma realidade subjetiva que não seja muito contradita pela realidade ‘real’, objetiva“. Ou ainda: “alucinar o real ali onde ele está”).

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Temos, então, uma possível resposta psicológica para a origem dessa impressão de que a vida que vivemos não é “100% a vida “real”.

Passamos a maior parte do tempo na área intermediária da cultura, como diz Winnicott, e a cultura não é a realidade. Simples assim. Os próprios conceitos que usamos – para dizer o óbvio – não são a realidade. Pretender dizer o que é real é um absurdo. São duas ordens de coisas diferentes.

Mas isso não nos impede de seguir tentando. Considerando as coisas desse ponto de vista, nossa própria tentativa de dizer a verdade é uma prova, em si mesmo, de como não temos sequer a noção do que seria a verdade

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Em tudo isso, a psicanálise encontra Nietzsche. Ambos dão mais ou menos o mesmo tipo de estruturação ao problema. Falsear o dado não acontece por um “erro”, uma falha cognitiva, um ruído no processo de pensamento – que, tomado em si mesmo, seria um espelho fiel do acontecimento real. O ‘erro’ é proposital. É para transformarmos o real em algo nosso, pessoalizado, subjetivado, que o “falseamos”. Precisamos disso. É parte de nossa saúde.

Ou ainda, como já argumentei em outro momento (link), só nos relacionamos com o real pela via indireta do sonho (do sentido, da palavra, da alucinação). A relação ‘direta’ com o real não é conhecimento, mas doença; incapacidade de sonhar; morte da subjetividade.

Precisamos “diluir” a realidade com doses generosas de criatividade. A realidade pura é o trauma. O que coloca uma série de questões, por exemplo sobre nossa relação com a ciência e o cientificismo… mas isso já é assunto para outros posts.

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