Maturidade x realidade

Estou tendo dificuldade de parar de ler o livro “Homo Deus”, de Yuval Harari. Gosto do autor, gosto do tema, o livro é bem escrito, instigante, faz pensar… E, a partir disso, surgiu esse post.

A ideia que me incomodou é mais ou menos essa: Harari descortina um futuro possível onde nós teremos tecnologia suficiente para reescrever o genoma humano. Talvez as interações homem-máquina avancem primeiro, mas o ponto que quero discutir é a possibilidade de que, cada vez mais, deixaremos de ter necessidade de amadurecer, psicologicamente, para lidar com a realidade.

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Tenho falado bastante sobre isso, aqui no blog. Não temos uma relação simples com a realidade; não somos naturalmente adaptados à ela. Para ser mais preciso, até o somos, mas desde que se insira na equação uma certa dose de frustração e de tolerância à frustração.

A frustração atua como um alargador subjetivo. Em cada experiência de frustração, somos convidados a reorganizar nossa subjetividade, a recriar nossa percepção do objeto, para que possamos entrar em relação com ele sem sofrer.

Nesse sentido, como é claro, o sofrimento atua como fator de crescimento. Desde que mantidos certos limites (para que a frustração possa ser digerida, elaborada, e assim, não vire um trauma), sofrer é um convite permanente para que amadureçamos; para que estabeleçamos outras formas de relação com a realidade.

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É possível, então, entender nosso amadurecimento emocional como uma série de experiências de frustração que foram sendo trabalhadas, digeridas, e, por fim, integradas, resultando numa relação com a realidade mais harmônica.

É o mesmo que dizer que cada problema que encontramos em nossa relação com a realidade é uma oportunidade de mudança. Mas em geral só mudamos porque o sofrimento nos leva a tal. Se não sofrêssemos, não mudaríamos.

Deixando de amadurecer, permaneceríamos como crianças, no nível das emoções, isto é, como os “pequenos reis” que Freud já caracterizava, cheios de demandas e com pouquíssima capacidade de retribuir pelo atendimento delas.

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Para voltar a Harari, entendo que esse arranjo de coisas – frustração > readequação > maturidade – é funcionante em um contexto natural onde, em geral, há uma série de inadequações impossíveis de solucionar.

Temos uma capacidade limitada de nos alimentar, por exemplo. Dado um contexto natural onde a comida é escassa, não acontecerá nunca que um animal engorde para além de um certo patamar, definido pelas condições e limites do ambiente – e de seu próprio estômago.

Tudo muda quando um desses limites é retirado. Basta olhar para os animais de zoológico, em geral muito mais obesos que seus colegas livres – ou então, basta olhar para nós mesmos!. Como Harari ressalta, desde 2010, morrem mais pessoas de excesso de comida no mundo, do que da falta dela.

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O que acontecerá quando a engenharia genética ou a cibernética nos retirarem outros limites? Difícil prever, mas o ponto que me interessa nessa discussão diz respeito ao que parece nos faltar já agora, ou seja, a compreensão de que nossos limites podem ser fundamentais para nossa maturidade subjetiva.

O problema é análogo ao que ocorre em relação à sustentabilidade ecológica. Queremos, todos, o progresso, mas não conseguimos ainda equacionar a limitação necessária ao nosso bem estar, que ajude na preservação do meio ambiente.

Pressionados a escolher entre nosso conforto e a sustentabilidade do planeta, temos escolhido sempre o primeiro, e provavelmente não será diferente lá na frente, se não conseguirmos legitimar o sofrimento e a limitação como ingredientes necessários de nossa vida.

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O problema é grave, e provavelmente se vincula à visão de mundo capitalista, caracterizada por um “sempre mais” incondicionado. Equilibrar essa vontade de crescimento com a necessária positivação de eventuais limites me parece ser uma das tarefas mais urgentes de nosso tempo.

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