“Natureza x cultura” ou “Eu x Outro”

A psicanálise freudiana pode ser lida como uma maneira de reapresentar o problema do surgimento da cultura na espécie humana. O texto mais explícito de Freud nessa direção é “Totem e Tabú”, livro que não acrescenta muito ao problema citado, mas bem poderia servir de “espelho” para a leitura idealizada do pai da psicanálise feita por alguns psicanalistas.

Isso porque há um “tabú” no livro: Freud pretende explicar o surgimento da culpa nos irmãos fratricidas pressupondo essa mesma culpa (problema trabalhado por Jurandir Freire Costa no excelente livro “Violência e Psicanálise”, entre outros autores). Assim, aquilo cuja origem deveria ser explicada serve como ‘explicação de si mesmo’.

Problemas à parte, a questão continua, e outros psicanalistas, diferente de Freud, mas nele apoiados, sugeriram outras direções para o problema. E é sobre isso que gostaria de dar meu pitaco.

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Perguntando, primeiro, se realmente há um problema aí, ou seja, se a passagem da “natureza” para a ‘cultura” exige alguma explicação. Estamos acostumados a pensar no homem como algo “sui generis” na comparação com outras espécies. Inclino-me a pensar que muito disso é apenas vaidade, se não for desconhecimento.

Existe algo que poderíamos aproximar de “cultura” em diversas espécies animais, e experimentos com macacos suportam conclusões bastante ofensivas para nosso orgulho intelectual (ver, por exemplo, aqui, aqui e aqui).

Para piorar, não só um senso de justiça pode ser suposto em seres tão simples como certas bactérias (como argumenta Damásio em seu livro “A estranha ordem das coisas”), como também algo similar à inteligência (ver, por exemplo, aqui).

Com o que, poderíamos dizer simplesmente que não há oposição entre natureza e cultura. A cultura – seja lá como a definamos, como justiça, inteligência, moralidade, etc – existe, mesmo que em formas rudimentares, em diversas espécies de vida.

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Minha experiência clínica também dá indicações nessa direção. Penso em pacientes autistas, por exemplo, que claramente possuem “cultura” – conhecimento, linguagem, raciocínio – mas apresentam um déficit no que poderíamos chamar de “sociabilidade”.

Algo em sua estrutura mental não suporta muito bem o “outro”, como dizemos em psicanálise, e é uma questão em aberto saber se isso é causal ou apenas outra expressão dessa condição.

Esse tipo de constatação me faz pensar se não haveria ganho em redescrever o problema da “natureza x cultura” em termos de “Eu x Outro”. Porque o que o problema da cultura coloca é que, por vezes, nos falta cultura – ou, como proponho, não conseguimos ter uma relação de cuidado com o outro -, e é isso que exige explicação. Por outro lado, autores como Winnicott foram bem claros em descrever o desenvolvimento humano em termos de uma maturação dupla tanto do Ego quanto da relação com o Outro.

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Prosseguindo, não acho que exista algo de especial no humano, na forma como nos relacionamos e entendemos o outro. Do meu ponto de vista, tudo isso pode estar pré-configurado em nossa genética. A única coisa que poderia ser mais específica do humano seria justamente a intensidade dessa relação ao outro.

Assim, como qualquer outra potencialidade humana – caminhar, falar, imaginar, etc – , existiria um “maquinário” genético ou cerebral disponível, ao nascer, aguardando apenas a exposição apropriada às formas específicas de cultura que cada família compartilha.

Esse maquinário darias as condições para o funcionamento de nosso aparato ou impulso social; e as experiências de vida dariam a formatação, a estruturação específica que nossa relação com o outro viria a adquirir.

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Colocando as coisas nesses termos, parece tudo muito simples. Diversas experiências sugerem que há uma ligação entre a qualidade das relações de maternagem e o desempenho social do adulto, mesmo em macacos (cf. experiências de Harry Harlow, por exemplo).

A clínica, por outro lado, nos dá provas de que a má estruturação da função, em seu aspecto social – a falta de uma boa relação ao outro, diríamos – suplanta inclusive o que pode estar estruturado do ponto de vista genético. Crianças podem ter problemas de fala por questões emocionais, por exemplo.

Isso clarifica, a meu ver, como a instância do “Eu” é, também, uma construção social, isto é, por mais que tenha suas raízes em processos corporais (como Damásio, mais uma vez, argumenta), apenas se desenvolve e estrutura nessa relação em espelho com o outro, que eu tanto repiso aqui no blog.

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