Da lua clara ao fatal clarão

Castro Alves morreu aos 24 anos de idade. Fiquei chocado ao saber disso, tamanha a maturidade de sua poesia. Descobri seus livros recentemente, e a coleção “Os Escravos”, no qual ele descortina uma visão extremamente lúcida do Brasil ainda escravagista, espanta justamente pela honesta desesperança.

Há um sabor amargo nessa maturidade, porque gostaríamos de poder não saber aquilo que sabemos. Há coragem também, e algo de saúde, as vezes uma saúde louca. Porque saber demais machuca.

Mas o poeta veste esses sentimentos ruins com beleza, com sonoridade, com emoção. Atravessamos seu vale das sombras mal percebendo a escuridão que nos rodeia, e confiando nos pequenos vaga-lumes que apanhamos no caminho.

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Em “Os Escravos”, Castro Alves narra os pontos de vista desses seres sendo arrastados pra longe de sua terra, as suas saudades, a armadilha sem saída que era ser mãe ou filho de um escravo, o despossuir-se total que a escravidão representava, só descansando na morte, e a morte como uma espécie de liberdade, um presente de Deus – justo com todos, afinal.

Nessa sequência, chega o poema nº 7, intitulado “A visão dos mortos”, onde ele fala, na minha leitura, de uma outra libertação – a abolição da escravatura, ainda não ocorrida naqueles tempos. Faz então grandes nomes da história de nosso país levantarem-se dos túmulos, apenas para bradar, resignados, entristecidos, um enorme “ainda não”.

A visão de Castro me parece atual, mesmo hoje. É difícil olhar para o nosso país e não ver escravos, ou ao menos as cicatrizes que uma longa escravidão deixou no nosso corpo social. Os filhos do antigo escravo hoje têm outros grilhões: a ignorância, a pobreza, os vícios. O país avançou, mas falta ainda, tanto, tanto, por fazer…

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Enfim, essa é uma outra discussão. Posto, na sequência, o belo poema “A voz dos mortos”, de Castro Alves, que constata, sem esperança, que “entre a lua clara e o fatal clarão”, nada ainda aconteceu (talvez esse “nada” seja mais fatal do que qualquer acontecimento?).

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PS.: é melhor ler / ouvir o poema na sequência. No meu caso, ouvi o audiolivro publicado gratuitamente pela Librivox. Vale muito a pena baixar. Segue link: https://librivox.org/os-escravos-by-antonio-frederico-de-castro-alves/

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A visão dos mortos



Nas horas tristes que em neblinas densas
A terra envolta num sudário dorme,
E o vento geme na amplidão celeste
Cúpula imensa dum sepulcro enorme, –
Um grito passa despertando os ares,
Levanta as lousas invisível mão.
Os mortos saltam, poeirentos, lívidos.
Da lua pálida ao fatal clarão.


Do solo adusto do africano Saara
Surge um fantasma com soberbo passo,
Presos os braços, laureada a fronte,
Louco poeta, como fora o Tasso.
Do sul, do norte… do oriente irrompem
Dórias, Siqueiras e Machado então.
Vem Pedro lvo no cavalo negro
Da lua pálida ao fatal clarão.


O Tiradentes sobre o poste erguido
Lá se destaca das cerúleas telas,,
Pelos cabelos a cabeça erguendo,
Que rola sangue, que espadana estrelas.
E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,
Que amassa um povo na robusta mão:
O vento agita do tribuno a toga
Da lua pálida ao fatal clarão.


A estátua range… estremecendo move-se
O rei de bronze na deserta praça.
O povo grita: Independência ou Morte!
Vendo soberbo o Imperador, que passa.
Duas coroas seu cavalo pisa,
Mas duas cartas ele traz na mão.
Por guarda de honra tem dous povos livres,
Da lua pálida ao fatal clarão.


Então, no meio de um silêncio lúgubre,
Solta este grito a legião da morte:
“Aonde a terra que talhamos livre,
Aonde o povo que fizemos forte?
Nossas mortalhas o presente inunda
No sangue escravo, que nodoa o chão.
Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,
Da lua pálida ao fatal clarão.


“Brutus renega a tribunícia toga,
O apost’lo cospe no Evangelho Santo,
E o Cristo – Povo, no Calvário erguido,
Fita o futuro com sombrio espanto.
Nos ninhos d’águias que nos restam? – Corvos,
Que vendo a pátria se estorcer no chão,
Passam, repassam, como alados crimes,
Da lua pálida ao fatal clarão.


“Oh! é preciso inda esperar cem anos…
Cem anos. . . ” brada a legião da morte.
E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,
Sacode o grito soluçando, – o norte.
Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos
Pelo infinito a galopar lá vão…
Erguem-se as névoas como pó do espaço
Da lua pálida ao fatal clarão.

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