O ambiente não é o “outro” – (nem o “grande Outro”)

Os conceitos de “ambiente” em Winnicott, e de “outro” ou “Grande Outro”, em Lacan, são análogos? Essa é uma questão fundamental. Relendo o Seminário de Lacan, para publicar aqui no blog, fico com a impressão de que o contexto desses dois conceitos não é o mesmo. Isso causa uma confusão grande, quando se pretende comparar teorias, e pode levar – e levou, acho eu! – a erros de interpretação.

De maneira simples, entendo que o conceito de “ambiente”, em Winnicott, é pré-subjetivo. Sua importância maior está justamente em oferecer uma função de suporte para uma subjetividade nascente (mesmo que convivamos com o ambiente por toda a vida). Ou seja, ainda não há subjetividade, ainda não há “Eu”, quando o ambiente é central. Tanto que, como sempre digo, no começo da vida psíquica, o ambiente é a subjetividade.

O que quer dizer isso? Quer dizer que o ambiente deve realizar uma série de atitudes não pensamentos, não palavras – que irão ajudar a criança em desenvolvimento a elaborar suas próprias vivências. Por exemplo, se a criança se sente incomodada por estar com fome, alguém no ambiente deve agir, dar de comer pra essa criança. Esse tipo de atitude, que responde à uma demanda/necessidade do sujeito, é que caracterizaria o fundamental do ‘ambiente’ no início da vida. O ambiente se adapta à necessidade da criança.

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Dito de outro modo: a atitude real, concreta, do ambiente, deve ter alguma sincronia com o movimento ilusório do bebê de que a ‘solução’ para a sua necessidade brota da própria necessidade. Isto é, do ponto do vista do bebê, as coisas devem se resolver sozinhas. Ele pode não tomar partido.

Ou ainda: o bebê deve poder não se preocupar muito com o que está acontecendo à sua volta, justamente porque suas necessidades são atendidas. Deve poder continuar sonhando, sem acordar cedo demais, justamente para poder criar as coisas da realidade em seu próprio ritmo. (aqui falei um pouco mais sobre o que quero dizer com esse “sonhar”).

A ideia central aqui é que faz diferença se a criança pode criar a realidade no seu tempo ou se ela é obrigada a criar o real de maneira defensiva. No primeiro caso, essa realidade criada é análoga aos próprios pedaços de subjetividade que vão se integrando. Não há um abismo entre realidade e “Eu”. No segundo caso, o real já nasce como algo “não-Eu”.

(Obviamente, essa realidade criada não está ‘pronta’; nosso trabalho de recriação da realidade continuará pelo resto da vida. Mas a confiança nesse processo, o sentimento de que o real pode ser ego-sintônico, se enraíza aí, nessas primeiras experiências. E esse sentimento faz MUITA diferença – quem já sentiu o real como ego-distônico vai entender. Por mais real que seja a noção de realidade que criamos, o que nos interessa é que esse real possa ser assumido por nós).

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Resumindo, então, o que o ambiente faz é recriar na vida da criança uma continuidade do útero, isto é, um ambiente protegido, simplificado, adaptado ao bebê, aonde ele poderá descansar e se entregar aos processos criativos que acontecem nele, naturalmente.

A simbolização começará assim, como uma mistura ingênua entre nosso pensamento e o real. Isso, essa ilusão de que o que pensamos é o real, é sustentado pelo ambiente, e isso faz parte da saúde.

Separar o que pensamos e o real, suportar que aquilo que penso não acontece na realidade, é uma frustração, e como tal, demandará todo um processo para sua integração.

Ou seja, na perspectiva em que me coloco, a relação com o ambiente é estruturante inclusive para o simbolismo.

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Toda essa argumentação vem pra tentar mostrar como o tempo de inserção do conceito de ambiente parece ser diferente do tempo do simbólico em Lacan. Se entendi bem, Lacan parece descrever o antes desse encontro pré-subjetivo com o ambiente – na estruturação dos pais, por exemplo – e o depois – quando a criança se depara com dificuldades próprias para manejar o simbólico. Mas fala muito pouco sobre os processos concretos que estão “entre” esses dois momentos.

Creio, então, que alguns desentendimentos entre essas duas linhas de pensamento se dão por uma confusão quanto ao período de aplicação daquilo que se diz. Acho – correndo o risco de estar errado – que em Lacan não há equivalente para essa necessidade do ambiente cuidador, que libera a criança para alucinar o real, consolidando nela uma experiência alucinatória satisfatória, digamos assim.

Em consequência, em Lacan, nossa criação do real é sempre defensiva, não importando tanto se o bebê foi bem cuidado ou não. A qualidade do cuidado ambiental não é um ator conceitual em Lacan.

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Para Winnicott, a qualidade da relação com o ambiente é central. Embora nunca exista 100% de adaptação, faz diferença se o bebê cria o mundo com 10% ou com 80% de adaptação. O fato de não haver adaptação absoluta não significa que não existam diferenças no grau na precariedade da adaptação.

Lacan parece ignorar isso. É como se ele partisse de uma subjetividade mais estruturada do que aquela com que trabalha Winnicott, e por isso não valorizasse o cuidado ambiental. Os próprios conceitos de Lacan – como “alienar-se no desejo do outro” – pressupõe uma subjetividade estruturada o suficiente para que exista um “si mesmo” a ser alienado, e também um “outro”, com o qual desenvolvemos uma relação ‘alienante’.

Ora, isso supõe muitas coisas que, para Winnicott, precisam ser construídas antes. O ambiente é formador principalmente num momento pré-subjetivo, onde ainda não existe sujeito para ser ‘alienado ao outro’. A relação com o outro é pré-subjetiva; o bebê não “sabe”, em nenhum nível, que está sendo cuidado (ou descuidado) por uma mãe. O bebê só “se” relaciona com os cuidados concretos do ambiente (as aspas se justificam pq, em Winnicott, o bebê enquanto ser integrado será um efeito da relação; ele não existe antes. A relação é primeira).

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Outro ponto que gostaria de ressaltar nessa diferença teórica é que, para Winnicott, o encontro/desencontro com o ambiente deve ser vivido; ele não pode ser ‘previsto’, não pode ser dado como realizado a priori. Tanto que Winnicott propõe o abandono do determinismo causal, que Freud postulou como um dos alicerces de nossa relação com o inconsciente.

Isso só é possível porque, estruturados simbolicamente ou não, a atitude concreta dos entes em relação não pode ser reduzida à sua estrutura. Há algo no desempenho da estrutura que admite indeterminação.

Dito de outra forma, por mais que as estruturas pré-existam, por exemplo nos pais que compõe o ambiente, ou na criança mesmo, o encontro entre essas duas estruturas é imponderável, é imprevisível. Ele precisa ser vivido, e a maneira como será vivido é importante para a própria manutenção ou alteração da estrutura.

Ou seja, novamente, a experiência real e concreta do encontro adiciona uma variável a mais na construção do sujeito. A pura estrutura não basta.

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Lacan parece largar o sujeito na pura selva das determinações simbólicas, para ser permanentemente invadido / invalidado pela estruturação simbólica que o estruturaria, ao estuprá-lo. Há muita verdade na violência dessas teses, mas a violência de um argumento não pode ser o único critério de sua aceitação.

(aliás, isso sempre me faz pensar nele, Lacan, no sujeito por trás do teórico, e no quanto um pode ter contaminado o outro)

Winnicott nos propõe uma paisagem conceitual diferente, talvez mais monótona, mas que encontra ecos importantes na clínica. E a clínica, já o disse mais de uma vez, é o critério decisivo. Os conceitos precisam ter aplicação prática, e a prática legitima o conceito, por absurdo que seja.

Ambos os autores sustentam uma clínica que funciona, até onde eu sei. Desconheço pesquisas que comparem ambas as linhas, mas trabalhos recentes reconheceram justamente a qualidade da relação com o paciente como fator determinante da efetividade clínica (aqui e aqui algumas referências).

A questão que fica, pra mim, é como isso se traduz em termos lacanianos.

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