Particularidades da Psicanálise 3 – sobre tristeza e alegria

Continuando nossa séria (aqui os links para a parte1 e a parte2), hoje vou falar sobre como a psicanálise entende nossa alegria e nossa tristeza. Mais uma vez, ela não está 100% de acordo com o senso comum.

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Em poucas palavras, esse desacordo pode ser explicado pelo fato de a psicanálise ser uma psicologia dinâmica, ou seja, ela sempre vai procurar entender uma experiência a partir de seu uso, seu significado para o sujeito, indo além do significado que a experiência possa ter “em si”.

Assim, como vimos na parte 2, a inteligência não é pensada apenas como uma capacidade isolada, mas sempre avaliada no contexto concreto aonde essa capacidade surge, assim como no uso que o sujeito faz dela. O mesmo vale para o conhecimento, que pode ser um bem “em si”, mas, na clínica, pode ser um mal, quando chega cedo demais.

E o mesmo pode ser dito sobre os afetos de alegria e tristeza. Obviamente, a alegria ou a felicidade são tremendamente valorizados em nossa sociedade, mas não necessariamente implicam em saúde mental. Da mesma forma, embora desvalorizada em nossa cultura, a tristeza e mesmo a depressão podem estar associadas à momentos integrativos de nossa história.

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Em muitos casos, a alegria é utilizada como uma defesa, contra um estado depressivo latente que não se conseguiria dar conta, por exemplo. Isso é visível em pacientes toxicômanos. Toda a ‘alegria’ da droga ou do álcool costumam estar associados à questões internas difíceis de lidar.

Em relação à tristeza, o raciocínio é semelhante, mas invertido: muito desvalorizada por nossa sociedade, ela, no entanto, costuma estar associado à estados de integração.

Pense nos momentos de luto, por exemplo. São momentos tristes e difíceis, com certeza, mas são momentos necessários. Esquivar-se do processo de luto simplesmente não é uma boa solução, porque é através dele que conseguimos guardar algo da pessoa que partiu, ao mesmo tempo que reencontramos nosso caminho na vida.

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Enfatizo aqui a postura geral de nossa sociedade em relação a esses afetos, porque ela parece se prender muito mais ao externo, ao explícito e visível, do que aos processos internos, ao trabalho subjetivo que acontece de forma invisível.

Como resultado, nossa cultura tende a ser ingênua, idealista, desvinculada dos processos concretos que ocorrem no sujeito.

Isso tem nos levado à uma recusa do subjetivo, algo de que já falei em diversos posts aqui no blog. Um dos motivos da recusa da tristeza, aliás, parece ser a falta de espaços sociais de sustentação de quem atravessa processos doloridos.

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Sustentação quer dizer, nesse contexto, acompanhar o ser que sofre, afastá-lo um pouco do mundo e suas preocupações, e ajudá-lo, então, a se entregar ao seu processo. Sustentar não é querer resolver tudo rapidamente; pelo contrário, é sustentar um processo no tempo, aguardar, cuidar, do outro, enquanto seu processo se desenrola.

Mas creio que estou falando grego aqui, salientando a necessidade de tempo para sofrer. E ainda numa cultura como a nossa…

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