Conceitos: Integração

Eis um dos conceitos mais importantes da psicanálise, ao menos em sua vertente kleiniana/winnicottiana. Uso muito esse termo aqui no blog, e agora chegou a hora de delimitar um pouco mais claramente o que quero dizer com a ideia de “integração”.

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A psicanálise parte da ideia de que não temos uma subjetividade unitária, que nasceria “pronta”. Pelo contrário, nossa alma, nosso mundo interior, nosso “Eu”, precisam ser construídos.

Isso vai tão longe, que mesmo experiências que parecem pertencer ao sujeito – como sua sexualidade, sua agressividade, suas associações de ideias – podem ser vividas por ele como algo exterior, algo não-eu.

Então vou repetir, porque essa ideia é central e, ao mesmo tempo, contra-intuitiva: nada do que vivemos é “nosso” naturalmente; toda experiência precisa ser integrada para poder ser vivida como “nossa”.

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Nessa hora, o leitor pode estar pensando algo como: “mas que ideia estúpida; é óbvio que minhas experiências são minhas!!”. Mas é aí que você se engana, caro e imaginário leitor. Embora para nós, já estruturados e integrados, pareça que a integração é a regra, existem inúmeras experiências na clínica que demonstram que as coisas não são sempre assim. Parece haver um abismo entre nosso corpo e nossa psique. Eles não se entendem naturalmente, eles não são duas formas de expressão diferentes da mesma coisa.

Eis alguns exemplos: um paciente me relatava, depois de um surto onde perdeu a consciência e vagou pela cidade por dias, que ficou assim porque o demônio havia levado ele a fazer “coisas” que o deixaram profundamente angustiado – relações homossexuais, no caso, que ele não conseguia admitir como suas. Outro paciente tinha alucinações onde uma voz lhe dirigia críticas severas, com as quais, como depois fomos percebendo, ele mesmo concordava. Ou seja, as críticas eram suas, mas não podiam ser assumidas como tal.

Mas não precisamos nos basear apenas em quadros severos: eu mesmo perdi uma cachorrinha recentemente, e pude acompanhar as dificuldades da minha psique, dividida entre uma realidade que ela não poderia negar, e a dor de assumir essa realidade inteiramente. Qualquer um que teve uma perda significativa concordará, imagino eu, que não aceitamos esse fato assim, num estalar de dedos; é preciso tempo, meses de trabalho, para que a estrutura interna e emocional convirja para aquilo que a mente já sabe quase instantaneamente: aquela pessoa não voltará mais.

(O trabalho de luto significa exatamente isso: que estamos integrando a morte de um ente querido, que estamos transformando um fato marcadamente “não-Eu” em algo mais ego-sintônico.)

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Aqui, podemos ensaiar algumas definições: “integrar” seria dar à uma experiência um sentido próprio, pessoal, compatível com o todo de nosso Ego. Poderia significar também construir confiança em relação ao sentido atribuído à experiência. Uma maneira simples de expressar o que seria integração é compará-la à digestão, por meio da qual transformamos algo externo a nós em algo interno, algo que passa a nos compôr.

Impressões integradas tendem a poder tornar-se conscientes, enquanto aquilo que não se integrou pode ser mantido ativamente fora da consciência (como a memória da minha cachorrinha, que algo em mim mantém ainda afastado da consciência). Uma experiência integrada será sempre mais plástica e manejável do que aquilo que não foi integrado, que tende a permanecer imutável, sem margem de manobra ou ressignificação.

Outra maneira de falar da integração é dizer que ela é o resultado dos processos de elaboração da psique. Quando algo é elaborado (ou digerido, como eu falo), ele tende a ser integrado como parte da história do sujeito. Integração e elaboração se sobrepõe, portanto.

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Para concluir, é importante diferenciar “integração” de “aceitação” ou “resignação”. Embora pareçam designar experiências próximas, na integração é mais a experiência que é recriada visando seu encaixe no todo de nossa história; na resignação, o esforço por mudança se dá mais em nós, em nosso ego.

Na vida real, as duas coisas tendem a se confundir. Mas há um componente de submissão na aceitação que a torna menos interessante do ponto de vista subjetivo.

Voltando à nossa analogia corporal: integrar seria análogo à digestão; aceitar seria como ter um espinho cravado em nosso braço. Com o tempo, ele se torna “interno”, mas por um processo diferente ao da digestão.

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Desnecessário dizer que muito de nosso sofrimento psicológico advém de experiências que foram aceitas, mas não integradas. Isto é, são espinhos, pedaços de acontecimentos que, no fundo, ainda não pudemos tornar nossos, ainda não assimilamos.

Com o esforço que parece estar ocorrendo em nossa cultura por silenciar, recalcar, o subjetivo, é provável que mais e mais experiências estejam sendo vivenciadas como espinhos, coisas que ou estão fora de nós, ou estão dentro, mas não nos acrescentam nada, não nos enriquecem.

Nesse sentido, é como se tivéssemos perdido a noção de que nossas experiências, mesmo quando tristes, podem nos enriquecer – desde que bem integradas…

2 Respostas para “Conceitos: Integração

  1. Hm…. sua diferenciação entre integração e aceitação traz implicações teóricas importantes. Na metáfora do espinho, cabe dizer que o tecido que compõe a pele também é capaz de dissolver certos corpos e expelir ou acomodar alguns sem maiores danos. E talvez tenhamos que pensar na capacidade do estômago de ‘desintegrar’ o externo, de desmembrá-lo, desconstituí-lo para aproveitá-lo às partes, “homeopaticamente”. Tem uma ideia no integrar de “tornar meu” ou de “tornar congruente comigo”. Este comigo, não precisa ser necessariamente o eu consciente, mas tem que ressoar com valores e motivações próprios. Lembrei da teoria junguiana de integração e do seu conceito de função transcendente. Particularmente parece ser da função da consciência lidar com as arestas da realidade e do próprio inconsciente de modo que se tornem congruentes (que se digam em um mesmo sentido ou em um sentido harmônico).

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    • Sim, acho que é por ai. “Integração”, “individuação”, “Congruência”, são conceitos análogos, acho eu, que dividem o mesmo espírito. Um espinho pode sim ser assimilado pelo corpo, mas isso não te alimenta… é mais uma defesa contra algo externo (=desintegrar o objeto não-eu, para me proteger) do que uma troca, uma incorporação (=transformar o objeto de maneiras a torná-lo introjetável). Pra mim é bem claro que NÃO trabalhamos com as coisas concretas. Na vida mental, há apenas as realidades que conseguimos criar, com mais ou menos proximidade daquilo que “é”, supostamente, no real. A diferença entre essa realidade “em si” e a realidade que transformamos é justamente esse trabalho de assimilação, que não se dá por uma deficiência de nossa cognição, mas por uma NECESSIDADE DE PESSOALIZAÇÃO. Tudo deve ser pessoalizado. Pessoalizar = tornar subjetivo, tornar MEU. Nesse outro post falo um pouco sobre isso: https://euemtorno.org/2020/04/09/psicose-e-criacao/

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