Particularidades da Psicanálise 2: inteligência e pensamento

Continuando com nossa série, assim como em psicanálise existe um “tempo subjetivo” que nem sempre corresponde ao tempo cronológico (conforme postagem anterior), existe também um entendimento particular sobre capacidades como “inteligência”.

É que, para as pessoas em geral, inteligência é algo sempre bom. Quanto mais, melhor. Não é que para a psicanálise a inteligência seja uma coisa ruim, mas… o seu uso acaba dando margem para considerações menos positivas.

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Dito de maneira simples, a psicanálise entende que nosso pensamento é uma espécie de ferramenta para lidar com a frustração. Para Winnicott, o pensar emerge como suplemento ou substituto dos cuidados ambientais, exatamente nesse sentido. Ou seja, aquilo que impulsionaria o nosso pensar, no fundo, seria o nosso sofrimento.

Daí que embora a inteligência, ou o pensar, em si mesmos, sejam coisas boas, seu surgimento muito precoce ou muito intenso pode indicar que há algo errado com o desenvolvimento de uma criança, por exemplo.

[Atenção: não estou dizendo que a criança não pode ser inteligente sem ser doente… estou dizendo que, em contextos específicos, a inteligência pode acabar sendo usada como defesa pela criança.]

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É mais ou menos nesse contexto que Winnicott comenta que crianças muito comportadas podem estar escondendo problemas no desenvolvimento. Os pais e professores ficam maravilhados com crianças assim, seduzidos pelo seu bom comportamento e maturidade precoce.

Mas essa maturidade pode estar escondendo um distanciamento com o próprio mundo interior da criança. No fundo, é realmente difícil diferenciar um bom comportamento vivido como parte da personalidade, de um bom comportamento que é defensivo.

(A dificuldade da criança em comunicar seu sofrimento pode ser um fator de diferenciação entre as situações.)

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Embora contra-intuitiva à primeira vista, essa leitura da psicanálise não é tão alheia ao senso comum como se poderia pensar. Muita gente fala que “a ignorância é uma bênção”, por exemplo, e essa constatação tem muitas ressonâncias com o que está sendo proposto neste post.

De forma implícita, o que o ditado popular consigna é que há uma ligação entre conhecimento e sofrimento. Muitas vezes, saber implica em padecer. E é provável que se não fôssemos obrigados a pensar, não o faríamos (ou o faríamos menos).

Uma resposta para “Particularidades da Psicanálise 2: inteligência e pensamento

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