Particularidades da Psicanálise 1 – O tempo do sujeito

Existe algo na psicanálise que as pessoas parecem ter muita dificuldade em compreender – na verdade, bastante coisa, rsrsrs… – ligada ao que poderíamos chamar de ‘o tempo do sujeito’ ou, como eu acho mais simples, sua ‘maturidade’.

Em poucas palavras, isso quer dizer que certas verdades, certas experiências, têm um tempo específico para ocorrer. Pensando nas intervenções em análise, tão ou mais importante que o acerto dessas intervenções é justamente o respeito por esse “tempo específico”.

Assim, por exemplo, de pouco adianta já na primeira sessão sair “atirando” verdades em cima do paciente – “você é assim e assado, por causa disso, disso e disso!” -, porque, por mais que tais intervenções sejam verdadeiras, a questão é o quanto disso o paciente vai conseguir assimilar, integrar.

E essa assimilação não é simplesmente cognitiva, mas principalmente emocional. Ou seja, é preciso que o paciente esteja em condições de assumir a verdade dessas intervenções como algo seu, algo próprio, algo integrado à sua história. E não algo externo, que foi dito por um psicólogo qualquer.

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Assim, é super comum, no começo das análises, a pessoa chegar interessada só “na conclusão”: “então tá, qual é meu diagnóstico, o que eu sou, afinal?”, como se, ao saber o diagnóstico, tudo estivesse terminado.

Na realidade, um diagnóstico, em psicanálise, ajuda muito mais o terapeuta do que o paciente. Pode até atrapalhar, ao dar a impressão de que “o trabalho” da terapia está concluído, ao se chegar a um diagnóstico.

Mas o objetivo de uma terapia, muito mais do que diagnosticar (o que equivale a entender o problema), é ajudar na construção de soluções para esse problema. E essas soluções, para voltar ao início do post, também precisam estar adequadas ao tempo do paciente, à sua maturidade.

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Em que consiste, então, esse tempo, essa maturidade? Poderíamos responder isso de várias maneiras: ‘maturidade’ seria a expressão da qualidade das relações entre instâncias psíquicas; ou então um modo de medir a integração da história de vida de cada um. Um jeito mais simples e pragmático de entender ‘maturidade’ é pelo grau de frustração que suportamos sem submissão.

Todos suportamos um certo grau de frustração. Frustrações fazem parte da vida, e nosso desenvolvimento emocional poderia ser descrito como uma longa jornada rumo ao aumento dessa capacidade.

Mas é importante que suportemos a frustração, integrando-a. Isto é, aquilo mesmo que vivemos, e que nos frustra, deve poder ser ligado à nossa história, como parte daquilo em que reconhecemos nossa responsabilidade – para o bem ou para o mal. Daí a importância de suportar a frustração sem submissão, ou seja, sem retirar-se da equação.

“Suportar a frustração” equivale, então, a encontrar meios de elaborar a experiência, integrando-a com o resto da história pessoal. Não tem a ver apenas com uma capacidade aumentada para sofrer, mas sim com uma capacidade aumentada para criar condições de integração.

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Respeitar o tempo do paciente, respeitar sua maturidade, é justamente respeitar sua tolerância à frustração. Ninguém tem capacidade infinita de se frustrar (sempre lembrando: integrando a experiência frustrante). A terapia poderia ser descrita como um processo onde avaliamos o grau de tolerância à frustração, ajudamos na expansão dessa tolerância, e acompanhamos enquanto experiências antes intoleráveis vão sendo “digeridas” pela nova capacidade adquirida.

Acho importante salientar isso porque, hoje em dia, nossa cultura parece ter retirado de cena qualquer respeito à frustração alheia. Isso se aproxima daquilo que já chamei, em outros posts, de psicose, uma espécie de esvaziamento da dimensão do psicológico, como se fosse possível viver apenas no mundo concreto, sem levar em conta nossa subjetividade.

Isso pode explicar em parte porque as patologias predominantes mudaram, dos tempos de Freud pra cá. Naquele tempo, o predomínio era de patologias neuróticas, onde já existe uma estruturação subjetiva, e o problema se dá no encontro dessa estrutura com a realidade/os outros; hoje, os problemas tem mais a ver com a falta dessa estrutura.

Os pacientes chegam “desestruturados”, ou então na borda, no limite, de uma estruturação (como os borderlines, as patologias narcísicas, e a depressão, que pode ser considerada uma expressão de uma estrutura instaurada, mas não consolidada).

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Nesse aspecto, a psicanálise se coloca em pleno contraste com a tendência de nosso mundo, hoje, de querer tudo instantaneamente. É a mente, o mental, que exige que façamos uma experiência no tempo. Quando se trata de subjetividade, não podemos desconsiderar a maturidade do sujeito, e simplesmente lhe atirar a verdade na cara. Isso até poderia ajudar o terapeuta; seria muito mais simples. Mas o paciente, que já chegou à clínica por não ter como lidar com essas questões, sairia dali do mesmo jeito.

No final, mudanças profundas exigem um trabalho profundo, e não há atalhos –

2 Respostas para “Particularidades da Psicanálise 1 – O tempo do sujeito

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