Winnicott e o modelo ontológico de ser humano

Já disse isso algumas vezes, mas Winnicott é um autor… difícil. E tão mais difícil quanto tudo que ele diz parece tão simples, tão óbvio.

Bem considerando as coisas, a dificuldade parece estar na precisão com que ele usa certas palavras e, junto com isso, no contexto que ele cria para fazer essas palavras ressoarem.

Ressoarem com o quê? Com a história inteira da filosofia, acho eu, mais os embates da psicanálise e da psicologia, em suas várias escolas… (ou ao menos é assim que eu o leio. 🙂

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“O homem é uma amostra no tempo da natureza humana” – essa é uma das típicas frases winnicotiannas que parecem banais, parecida com muita coisa que já foi dita por muita gente, mas que, no contexto da sua obra, ganha em singularidade e potência.

A ideia aqui é basicamente essa: existe uma natureza humana; mas ela é genérica, e se atualiza e singulariza no tempo de vida de cada sujeito. A forma da atualização em cada um é o que dá a essa natureza sua singularidade.

Numa palavra, somos singulares por termos vivido nesse tempo específico – o nosso tempo, o tempo do nosso amadurecimento, da nossa história -, mas compartilhamos todos de uma natureza humana que não está no tempo (ou está no tempo de forma diferente).

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Assim colocada, a frase já parece muito mais problemática. Mas é assim que procede nosso psicólogo-filósofo, escondendo em banalidades coisas muito, muito, arredias. Mas tem mais.

A frase também diz que existe uma natureza humana (mesmo que em potencial, ou em forma pré-subjetiva), e isso, por si só, causa um certo escândalo em psicanálise. Estamos muito mais acostumados à ideia de que o sujeito representaria uma certa “desnaturalização” do humano.

Winnicott propõe mais ou menos o inverso: é a natureza do humano que é “desnaturada” – ou incompleta, por assim dizer. Nossa vivência singular não é uma forma de completar essa natureza, mas apenas de atualizá-la, de singularizá-la. (sendo um pouco esquizoanalista: de potencializar a incompletude dessa natureza).

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Salvo engano, apenas Freud e Winnicott propuseram a existência de uma natureza humana em psicanálise. Freud através das fases do desenvolvimento psicossexual; Winnicott, através das fases de amadurecimento humano (dica: elas não coincidem).

A ideia winnicottiana pode ser descrita por vários ângulos, o mais simples sendo talvez o que parte da dependência absoluta, onde nascemos, passa pela dependência relativa, e chega, na saúde, ao que o autor chamava de “rumo à independência“, talvez para frisar que nunca chegamos à independência como tal.

Acho brilhante a forma simples com que essa maneira de entender o amadurecimento costura aquilo que seria parte dessa natureza humana genérica – depender do outro não é uma consequência de nossa vida pessoal – com aquilo que seria parte de nossa vida singular – pois é o sujeito específico quem vai experimentar a dependência de um outro; é ele também quem ‘amadurece’ rumo à independência.

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Tudo isso são indicações da ontologia winnicottiana, isto é, da maneira como podemos pensar o que é o “ser”, para esse autor. “Ser” é, basicamente, o resultado dessa costura entre nossa temporalidade singular e o tempo da natureza humana genérica.

Ou, como disse em outro texto, “ser” é “realizar o self” (podemos entender agora o ‘self’ como sendo uma amostra no tempo de nossa natureza humana…).

A ‘costura’ entre os dois tempos é feita pela experiência. É preciso viver algumas experiências, com algumas pessoas, para que algo de nossa própria natureza humana encontre espaço em nossa subjetividade.

É o mesmo que dizer que podemos estar alienados de nossa própria natureza-desnaturada… e já saímos do óbvio novamente… Seria extrapolar demais dizer que essa dualidade se espelha na divisão consciente / inconsciente? E saímos do óbvio mais uma vez…

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É assim que leio Winnicott. Ele não é invasivo. Ele não satura demais as ideias. Ele apenas nos dá um ponto de partida… e um convite, para que nos aventuremos na criação.

Assim, nos tornamos autores, quando o lemos –

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