Psicanálise e ciência – o aproveitamento do erro

Na referência à Lacan com que encerra seu belíssimo texto “A psicanálise como ciência” (disponível aqui), Christian Dunker diz que “quando a ciência se aliar com a religião, aí sim, encontraremos o pior”.

A frase me fez pensar, e acabou motivando a presente tentativa de sustentar um motivo simples pelo qual a psicanálise deveria ser inquestionavelmente incluída no rol das ciências: ela reconhece e utiliza seus erros. Vamos falar um pouco sobre isso.

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Lacan, na frase citada, provavelmente foi irônico. Bem consideradas, a ciência e a religião são duas práticas bem diferentes. Quais são essas diferenças? A principal, creio eu, é a já citada: a ciência não se exime de errar. Ao contrário, ela se aproveita do erro, desde que metodologicamente correto.

Dito de outra forma, tão importante quanto o resultado da pesquisa – seu erro ou acerto – é o caminho que foi percorrido até lá. Se esse caminho foi bem planejado, a pesquisa trará um ganho de conhecimento, independentemente de seus resultados.

Por fim, mesmo o erro metodológico pode ser aproveitado, quando percebido. Ele gerará novas maneiras de testagem, e, com isso, novos conhecimentos. O erro, poderíamos dizer, é fundamental na ciência.

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Isso decorre da premissa de que todo conhecimento é aproximativo. Ou ainda, de que conhecer cientificamente é um processo sempre inacabado, que opera por retomadas contínuas, rumo a um melhoramento sem fim.

Não há estado acabado, na ciência. Nenhum cientista sério sustenta que conhecemos “a” verdade sobre qualquer coisa, porque, incluído na própria ideia de ciência moderna, está esse descompasso entre nosso conhecimento e as coisas.

O saber científico é sempre precário, portanto. E os erros, seja no método, seja nas conclusões, são parte do processo de melhoramento contínuo que se propõe todo cientista.

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Podemos resumir tudo isso dizendo que “nunca há certezas na ciência”. E aqui o contraste com a religião fica mais claro: pois nela, ao contrário, a certeza é parte inerente ao processo.

Isso não é necessariamente algo ruim. Toda religião busca propiciar um certo suporte aos seus fiéis, e esse suporte não pode se manter na dúvida. A dúvida é um estado emocional difícil, incômodo. Preferimos a certeza, sempre que possível. Nada demais, portanto, na prevalência da certeza sobre a dúvida, quando se trata de religião.

Diria que a religião até tolera a dúvida – umas mais, outras menos -, mas ela é claramente definida pelas certezas que apresenta. Isso obviamente não impede que existam religiosos que praticam ciência, ou cientistas que sejam religiosos. São simplesmente áreas distintas da vida, com regimes de dúvida/certeza também distintos.

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O meu ponto é que, a partir do momento em que duvidamos das coisas, estamos mais perto da ciência. Ser capaz de reconhecer os erros e falhas de suas premissas, e utilizá-las como melhoramentos dessas mesmas premissas, me parece o cerne do científico. Inversamente, sempre que deixamos de duvidar, nos afastamos da ciência.

Para repetir ainda uma vez: a ciência NÃO se define pelas certezas que possa expressar, mas pela duvida, pelo abdicar de uma verdade última, inquestionável.

E é nesse ponto que a psicanálise me parece pertencer ao grupo das ciências. Na medida em que ela utiliza a prática clínica como comprovação infinitamente passível de melhora das suas premissas teóricas.

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Obviamente, toda prática humana é passível de deturpação, e isso não é diferente com a psicanálise. Toda vez que ela deixa de ser capaz de se criticar, de reconhecer os seus erros, e quer se apresentar como inquestionável, como fora de crítica, ela se aproxima sim, como dizia Lacan, da religião.

Não apenas por se pretender indubitável, mas também, provavelmente, por estar ocupando, para o sujeito que expressa essa certeza, uma função religiosa.

Ou seja, como Lacan possivelmente tentou expressar, todo discurso pode ter função de suporte para o sujeito. Mesmo o psicanalítico. Mesmo o científico. Mas, como espero tenha ficado claro, esse suporte não deveria ser algo buscado no científico.

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