Psicanálise e conhecimento: porque é tão difícil conciliar o saber psicanalítico com os demais saberes?

Conversando com um amigo filósofo que se interessa por psicanálise, dei-me conta de uma coisa: a psicanálise acrescenta uma dimensão no nosso pensamento sobre o ser humano. Não se trata, portanto, de um conhecimento comum, que foi adicionado às dimensões já existentes, mas de toda uma nova “região” do conhecimento, que simplesmente não existia antes.

Acho que essa noção falta em muitas discussões sobre psicanálise, especialmente aquelas onde o conhecimento tradicional – seja o científico, seja o filosófico, ou mesmo o médico/biológico – é contraposto ao que seria o “saber” psicanalítico.

Meu ponto aqui é que o saber em psicanálise não se dá na mesma dimensão. Mas o que quero dizer com isso??

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A imagem a seguir vai me ajudar : imaginemos que, num determinado conhecimento, a questão do ser humano esteja localizada no ponto 40 do gráfico. Observem o gráfico nº 1:

O gráfico nº1 é um gráfico UNIDIMENSIONAL; há apenas um eixo, e supomos que, nele, o conhecimento disponível situa o ser humano no ponto 40 do gráfico.

Mas se acrescentarmos ao primeiro gráfico uma segunda dimensão – o eixo vertical, mostrado no gráfico nº2 – podemos dizer agora que a questão do ser humano ganha outra dimensão, outra correlação no gráfico. A posição de nossa questão, agora, seria descrita como “40,20”, ou algo assim.

Observem que a primeira coordenada, o “40”, continua lá, e continua válido. No entanto, com a introdução de um segundo eixo, a posição da questão se alterou. No gráfico, isso é mostrado pela mudança na posição do ponto de intersecção das coordenadas.

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Podemos dizer o mesmo do gráfico nº3, onde uma terceira dimensão é acrescentada ao problema. Mais uma vez, a posição da questão do ser humano é alterada, embora as coordenadas anteriores continuem válidas.

Pois bem, o que estou tentando dizer é que a psicanálise acrescentou uma dimensão ao nosso saber sobre o ser humano, exatamente como estou mostrando nos gráficos.

Isso significa que tudo aquilo que sabíamos sobre nós perdeu a validade? Não necessariamente. Os discursos científicos, lógicos, morais, econômicos, biológicos, etc, podem permanecer válidos, assim como as primeiras marcações no nosso gráfico. Mas a introdução de uma nova dimensão altera tudo – mesmo que os discursos anteriores permaneçam corretos.

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Pois bem, que dimensão é essa, que a psicanálise acrescenta? A do inconsciente. Para a psicanálise, é impossível pensar o humano sem levar em conta a dimensão inconsciente. Por outro lado, sempre que um teórico ou estudioso pretende entender o ser humano – ou criticar a psicanálise – SEM levar em conta o inconsciente, ele está deixando de fora um ponto essencial na discussão.

É preciso aceitar, mesmo que como hipótese, a dimensão inconsciente, para poder aceitar a lógica daquilo que é proposto em psicanálise. Muitas vezes, no entanto, a discussão se dá em termos puramente lógicos ou conscientes – aquilo que a pessoa percebe, os resultados de sua atitude, a amplitude de seu conhecimento, etc. Nesses casos, não se está tocando naquilo que é a essência da psicanálise.

E como deve ter ficado claro, por mais que eu acrescente conhecimento às dimensões disponíveis – por exemplo, aos gráficos 1 e 2 de nossa tabela – eu nunca vou chegar à posicionar a questão da mesma forma que quando existe uma outra dimensão a ser considerada. Intensificar o conhecimento consciente não nos levará nunca à conhecer o inconsciente. São coisas diferentes; uma não leva à outra.

Entretanto, o que mais existe são discussões que criticam a psicanálise sem, justamente, valorizar a dimensão inconsciente.

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Para concluir, acrescento que essa crítica é válida. Não há porque assumir que Freud estava correto, se não temos nenhuma boa razão para isso. Mas creio que a clareza quanto aos termos do problema ajuda inclusive na rejeição dos pressupostos psicanalíticos. Pois rejeitá-los sem levar em conta o inconsciente é uma coisa. Rejeitá-los aceitando esse pressuposto, é outra.

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