LACAN – O SEMINÁRIO (LIVRO 1; AULA 5)

Resumo – parte 1 (aulas 1 e 2)

Resumo – parte 2 (aulas 3 e 4)

Posto na sequência mais um resumo do Seminário de Lacan. Essa aula é importante, pois começa a ficar claro qual o entendimento que Lacan dá para a relação do sujeito ao outro, e também o papel do simbólico nisso tudo.

Em minhas palavras, Lacan propõe que existe uma estruturação simbólica prévia – que poderíamos aproximar da cultura -, a qual encaminha (ou desencaminha) o desenvolvimento psicológico do sujeito, notadamente em termos de suas emoções e do modo como se apropria /é apropriado do outro.

Seria um contra-senso pretender, então, que é o outro quem estrutura o sujeito, na medida em que o outro é ele mesmo estruturado pelo simbólico. Lacan parece atribuir esse erro de interpretação à escola das relações de objeto. Ocorre que, para surpresa de alguns, Winnicott concordaria com Lacan: o outro não é primeiro na estruturação do sujeito. O que é primeiro é… o ambiente. E o ambiente não é o outro.

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Dito de maneira simples, no ambiente está incluído o outro, mas também o sujeito. O que pensa Winnicott é que, no início da vida psicológica, não há como separar o “eu” e o “outro”; tudo é vivido como um certo continuum, e essa indiferenciação é condição para que o “Eu” possa se formar. Ou ainda: a estrutura pré-objetal da relação bebê-ambiente será condição para que bebê e ambiente se tornem objetos, se diferenciem.

Sendo ainda mais claro: é necessário que uma ilusão de continuidade entre o bebê e seu ambiente seja mantida por tempo suficiente, para que o bebê possa SUPORTAR a descontinuidade que implica reconhecer o outro como não-eu.

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Diferentemente do que propõe Lacan, para Winnicott o “Eu” será o resultado das integrações pulsionais que puderam ser feitas; não o registro das denegações da pulsão.

Essa integração passa, sim, pelo outro (pelo ambiente), mas ele não precisa ser percebido enquanto “outro”. Nessa fase muito precoce da estruturação humana, o bebe percebe apenas o cuidado; ele ainda não apreende a mãe como totalidade ou objeto.

Uma vez que a mãe sustenta a experiência pulsional da criança, o que essa apreende é apenas o resultado disso – algo da pulsão fica integrada, ligada, às demais integrações do nascente ego. A mãe, enquanto objeto, só será percebida à medida que o próprio Ego vai se estruturando, isto é, no final de um processo longo de apropriações e integrações.

Vale dizer, o outro vai se formando na mesma medida em que o Eu se constitui. O modelo, a estrutura, dessas relações, fica com o sujeito. É isso que ele tende a repetir, nas transferências. No entanto, nem o sujeito foi totalmente passivo na constituição dessas estruturas, nem elas podem pensadas como constituídas à priori na cultura: é preciso viver o acolhimento da pulsão dia a dia, é preciso ter a experiência da vivência pulsional dessa criança específica com essa mãe / ambiente específico.

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Vemos então que, apesar de usarem os mesmos termos, e da centralidade desses nos dois autores, eles dizem coisas diferentes. Uma ideia para relacioná-los seria dizer que Winnicott, que trabalhou com crianças e bebês por mais de 40 anos, focou-se num momento mais precoce da estruturação psíquica do que Lacan.

Winnicott pretende que o simbólico, por mais que pré-existente na cultura, não pode ser vivido pelo sujeito antes dele estruturar sua psique numa relação de cuidado com o ambiente. Ou seja, o cuidado é fundante, mas um cuidado exercido num momento anterior à diferenciação Eu – Outro.

Lacan critica essa centralidade do cuidado e do outro, mas ele parece pensar num momento posterior, onde as instâncias do Eu e do Outro já se encontram de alguma forma delimitadas.

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Isso fica um pouco mais claro no Seminário 4, do qual já resumi algumas partes aqui, onde Lacan estuda explicitamente a escola das relações de objeto, expondo suas diferenças com ela. Na minha leitura, Lacan se atém demais no objeto, e pouco na relação.

Isto é, usando uma ideia que aprendi na esquizoanálise, para Winnicott “a relação é exterior a seus termos”, isto é, não está determinada pelos agentes – o bebê e a mãe. Pelo contrário, os agentes vão se formando à medida que se relacionam. É a criança que faz a mulher se tornar mãe, e vice-versa.

Mas bom, já estou me alongando demais. Por enquanto fiquemos com essa importante aula de Lacan, que deve ser lida no contexto das demais.

3 Respostas para “LACAN – O SEMINÁRIO (LIVRO 1; AULA 5)

  1. Rafa, aqui neste texto tu roças a possibilidade de elencar uma “tendência à estruturação/função simbólica”, uma certa possibilidade, de nossa espécie (e portanto genética), de nos aparatarmos com este recurso, para o enfrentamento eu-ambiente e eu-sociedade. A estrutura (a potência) deve estar lá antes (ser da essência/natureza), mas sendo corretamente estimulada (posta a uso) pelo ambiente (o envolvimento físico-simbólico) ou a cultura (modos presentacionais e vivenciais que estão entranhados em um corpo social, como rituais, habituais, tradicionais, preferência ideológica, ordem moral, etc.) vem-se a plenamente desenvolver. Dito de modo claro, não há como pensar a transmissão de uma cultura sem uma vivência compartilhada, isto é, sem uma relação social relevante. Acredito ser importante pensar a importância mesma da função simbólica para o desenvolvimento mental (afinal, o que seria sequer de nossa imaginação sem a capacidade de gerar imagens, que não deixa de ser a formação de símbolos que substituem ou representam, da melhor maneira possível, elementos constituintes de nosso ser ou de nossa experiência), que é, bem entendido várias coisas:

    1. linguagem (afinal, que um som ou uma imagem possam ser tomados como representativos de algo-mais é uma derivação da função simbólica)

    2. o pleno desenvolvimento de habilidades comunicativas (recursos linguísticos que temos para entendermos o outro e nos fazermos por ele entendidos)

    3. consciência (as nossas ideias de saber-se-um-corpo ou saber-se-uma-mente apesar de talvez serem mais cruas e fundamentais que nossas possibilidades linguísticas, são altamente pensadas/concebidas/veiculadas/idealizadas por estas, de modo que inclusive encontramos dificuldade para imaginar ou demonstrar a consciência sem o recurso à linguagem)

    4. elaboração emocional-atitudinal (como interpretamos nossas reações e como as manejamos conforme interesses mediados, isto é, reconhecidos pela consciência através de uma linguagem)

    5.lógica/empiria/razão (nossos modos de conhecer a realidade ou a essência das coisas precisam também ser mediados pela linguagem e ter uma base emocional sólida de modo que esta não venha a ‘disruptar’ o bom concatenamento de ideias e procedimentos, isto é, que não venham a atrapalhar o conhecimento verdadeiro das coisas. De outro modo estamos intrincados em vieses de percepção ou entendimento: ilusões, alucinações, delírios, distorções emocionais ou ideológicas, exageros, lacunas de percepção ou entendimento precisamente por insuportabilidade emocional, etc. dito em poucas palavras, a necessidade de ignorar ou negar o mundo externo só pode ser a incapacidade de aceitá-lo como tal – como é)

    Acho interessante poder pensar tanto a propriedade genética quanto a estruturação mental para poder estabelecer melhor as funções e impactos propriamente ditos tanto da relação eu-ambiente quanto da relação eu-outro (seja em que contexto teórico for).

    Curtido por 1 pessoa

    • Legal, Gui. São muitas as questões que tu trazes, e a resposta daria muitos posts, rsrsrs… Mas, nesse post específico, a questão que pretendo colocar é: não basta simplesmente ser “exposto” à cultura (ou ao simbólico, à palavra, à linguagem, etc). A exposição por si só NÃO GARANTE a “estruturação”, não garante que a bagagem genética seja adequadamente estimulada. Ao menos, é isso que propõe Winnicott: é preciso uma série de ATOS de cuidado ANTES de a cultura (o simbólico) poder agir; e esses atos são as verdadeiras raízes da subjetividade (dito de outro modo: eles é que tornam efetiva nossa exposição à cultura).
      Se isso é efetivamente assim? Não sei. Essa é, na minha leitura, a hipótese de Winnicott. Mas algumas vivências minhas, relatos de caso, bem como experiências clínicas, vão nessa direção. Por exemplo, a clínica do autismo, especialmente os Aspergers: eles falam tão bem ou melhor que nós (= foram expostos à cultura), no entanto, algo na subjetividade deles funciona diferente. Seja genético ou psicogenético, podemos pensar que esse caso mostra que há algo mais, algo além, da linguagem na estruturação do sujeito.
      De qualquer modo, concordo totalmente com você quanto à necessidade de definir melhor essa relação eu-ambiente e eu-cultura; uma parte desse trabalho já está aqui, no blog (nos posts sobre “ambiente”); outra parte quero ir adicionando, conforme minha leitura de Lacan avança. E provavelmente haverão muitas outras partes ainda, ligadas ao tanto que não sabemos. Mas, sendo um pouco poeta aqui, isso não nos impede de escrever, na medida em que “escrever é duelar com o que não sabemos”. 😉

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  2. Pingback: O ambiente não é o “outro” – (nem o “grande Outro”) | eu(em)torno·

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