Ativos emocionais

Os economistas distinguem o patrimônio em duas classes fundamentais: ativos, ou aquilo que gera dinheiro para o seu dono, e passivos, aquilo que tira dinheiro de você.

Assim, se você mora em uma casa de sua propriedade, ela é um passivo: você precisa pagar os impostos, reformas, consertos, etc. Mas se você aluga essa mesma casa para outra pessoa, ela se transforma em um ativo, pois está gerando dinheiro.

Na mesma linha de raciocínio, se você possui um carro, e o usa apenas para seu transporte pessoal, ele é um passivo. Mas se você o utilizar para trabalhar no Uber, por exemplo, o mesmo carro será considerado um ativo.

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Acho que a mesma lógica poderia ser aplicada para nossas emoções. Se entendermos a emoção como um efeito de relações, como propõe Winnicott, poderíamos então pensar: quais relações estão gerando emoções positivas? Quais relações, por outro lado, estão me desgastando, me consumindo?

Colocando as coisas nessa perspectiva, parece óbvio que certas práticas, como a terapia, devem funcionar como “ativos emocionais”. Por mais que sejam trabalhosas ou difíceis, elas tendem a gerar mais recursos emocionais, novas possibilidades de lidar com as emoções – inclusive com o sofrimento.

Ao mesmo tempo, aquele seu parente chato, que parece viver para fazer você se sentir em dívida, é um passivo: ele retira recursos emocionais de você, ele consome sua energia.

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Tudo isso é muito claro e simples, mas, assim como acontece no caso do dinheiro – onde a maioria das pessoas se preocupa muito em como ganhá-lo, e nada em aprender a gastá-lo -, tenho a impressão de que as pessoas em geral não se preocupam em gerir o seu “patrimônio emocional”.

Pensem nas redes sociais: quantos dos seus seguidores estão efetivamente contribuindo para a formação do seu ‘patrimônio’? Quantos fazem você se sentir bem, mais forte, mais motivado, cheio de planos, de ideias, de atitudes? E quantos, pelo contrário, fazem você se sentir inferior, com uma vida simples, pobre, insignificante?

Pense nos seus amigos: sabe aquela pessoa que sempre consegue levantar o seu astral, que faz você se sentir melhor, ou mesmo que ajuda você a atravessar as fases difíceis? Ele é um ativo; preserve esse seu “patrimônio”! Já os outros, que “custam” muito manter: será que não é a hora de se desfazer desses ‘passivos’? Equilibrar as contas? Gerenciar o “risco” de sua “carteira emocional”?

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Não é fácil fazer esse tipo de escolhas. Não é fácil “poupar”; não é fácil pensar no amanhã, nos limites de nossa “carteira”, de nossos recursos emocionais. Ainda mais num tempo onde a promessa de que você pode ter recursos infinitos é alardeada em todo canto.

(Falo do “self made man”, o suposto homem que pode tudo, o que, em nossos termos, seria alguém com “dinheiro emocional” infinito…).

Mas, falando seriamente, temos outra escolha? Exatamente como no caso da herança financeira, todos nascemos com uma certa quantidade de recursos emocionais, que serão aumentados ou enfraquecidos por nossos pais, nossa criação, nossas escolhas… “Gastar menos do que ganha” é uma orientação correta, mas quantos conseguem por isso em prática, seja nas finanças, seja na vida?

Que ninguém se iluda. A riqueza até pode chegar de mão beijada, como um presente ou herança, mas ela não se mantém sem gerenciamento. Cuidar de nossos ativos, emocionais ou financeiros, deveria ser a coisa mais óbvia do mundo. Mas as pessoas parecem insistir em desperdiçar, jogar fora, aquilo mesmo que é mais precioso para elas –

2 Respostas para “Ativos emocionais

  1. Perfeito…. contabilidade não é minha área, mas acredito que tanto a casa quanto o carro entram como ativos e passivos, isto é: os custos são passivos, as eventuais rendas são caixa/lucro, o imóvel entra no imobilizado, etc. Acredito que a metáfora sirva para as emoções: Dejours chamava a atenção, por exemplo, ao fato de o trabalho ser DOADOR de sentido mas também NEGADOR de sentido… O gerenciamento, a seleção de ativos, o seu cultivo, a rejeição de passivos, a correta contabilização dos mesmos é necessário para que, NO BALANÇO, a soma mostre-se positiva.

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    • Exato. Em minhas palavras, a questão é saber PERCEBER o que é um ativo e o que é um passivo, em termos emocionais. Acho que muita gente confunde os dois, em finanças e em ‘patrimônio sentimental’, rsrsrs… Todo mundo reconhece a importância dos dois, mas quantos se dedicam a efetivamente gerenciar suas posses?

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